Sandinistas: não votem no falso sandinismo

Ernesto Cardenal *    02.Nov.06    Colaboradores

Na luta dos povos da América Latina contra o neoliberalismo, as oligarquias nacionais e a submissão aos ditames de Washington, tem acontecido, por vezes, a eleição de candidatos que fazem as campanhas em nome do anti-imperialismo para, uma vez eleitos, tudo esquecerem. Ernesto Cardenal, ex Comandante da Revolução Sandinista denuncia o percurso recente de Daniel Ortega, atribuindo-lhe a vontade de que tudo mude para tudo fique na mesma.

Os sandinistas não devem confundir-se: a FSLN de Daniel Ortega não é o sandinismo, mas sim a sua traição. Votar em Daniel é votar em Alemán

Eles têm um pacto que não foi dissolvido.

Por esse pacto Daniel governou junto com Alemán. Eles controlam o Supremo Tribunal de Justiça, a Assembleia Nacional, o Ministério Público, a Procuradoria dos Direitos Humanos e o Conselho Supremo Eleitoral. A esse pacto se deve que Alemán, condenado a 20 anos de prisão, esteja em liberdade e Byron Jerez tenha sido absolvido de tudo. Por isso, Alemán pode roubar descaradamente tudo o que lhe apeteceu, sem nenhuma oposição sandinista, e ao mesmo tempo enriqueceram desmesuradamente os do bloco de empresários sandinistas, mantiveram-se os mega-salários, não houve oposição às imposições do Fundo Monetário e do Banco Mundial. E daí a pobreza em que estamos.

Repararam na plataforma de governo de Daniel, além da aliança com Alemán? Estão lá contras (dos que torturaram e assassinaram) e somozistas e guardas da EBBI. Daniel teve mesmo contactos com “El Chigüín”, que disse que lhe causou muito boa impressão. Sandinistas: Votem no verdadeiro sandinismo!
O verdadeiro sandinismo é o do partido de Herty Lewites, seu candidato espiritual, o de Mundo Jarquín, escolhido por ele, e Carlos Mejía Godoy. Da comandante guerrilheira Dora María Téllez, presidente do partido, e dos comandantes da Revolução Henry Ruiz (Modesto), Víctor Tirado López e Luis Carrión, da comandante guerrilheira Mónica Baltodano, do comandante guerrilheiro Hugo Torres, do comandante guerrilheiro René Vivas, Víctor Hugo Tinoco, Sergio Ramírez, Gioconda Belli, Luis Enrique Mejía Godoy, Luis Rocha, Fernando Cardenal, Carlos Tünnermann, Miguel Ernesto Vigil, Daisy Zamora, Vidaluz Meneses e tantos outros escritores, artistas, embaixadores e ministros de governo da revolução; os que não participaram da piñata e os que não pactuaram com o inimigo, e muito povo humilde.

A bandeira do sandinismo de Daniel (que nunca tinha aceite Sadino) é que não há inimigos. UNIDA, NICARÁGUA TRIUNFA é o lema da sua campanha, que está por todo o país. Três palavras curtas que são três grandes mentiras. É admirável que, em tão poucas palavras, haja tanta mentira. UNIDA é uma palavra falsa. Daniel desuniu o sandinismo. Expulsou Herty por tentar apresentar-se como candidato do seu partido. E o seu caudilhismo afastou milhares de militantes do partido. NICARÁGUA não quer aqui dizer nada. Para Daniel essa palavra é ele e a Rosario e o pequeno grupo da “panelinha”. TRIUNFA é uma palavra que não tem sentido, quer apenas dizer que seria o triunfo dele e da Rosario e dos comparsas da “panelinha”. enquanto toda a Nicarágua perde.

E falar de “Nicarágua unida” não é revolucionário. União de exploradores com explorados? União com ladrões? Com somozistas? Com criminosos? Abraço de ricos e pobres, com os ricos sendo sempre ricos e os pobres sempre pobres? É isto a revolução? É isto sandinismo? A paz que pregam é traição. Como a do Espino Negro. Recordemos Sandino: “A luta continua”.

O programa Ortega-Murillo está cheio de palavras de amor, reconciliação, união, piedade religiosa, mas no fundo o que há é rancor, desejo de vingança, prepotência, intolerância. Detrás dessas palavras transparece a falta de ética, a hipocrisia e loucuras da copaneira.

Outra aliança de Daniel foi a que fez com o Cardeal Obando, que odiou visceralmente o sandinismo e tanto dano lhe causou, e foi graças ao seu anti-sandinismo que chegou a Cardeal. Encheu-nos de espanto essa campanha na rádio, na televisão e nos grandes painéis espalhados por toda a parte: Obando, príncipe da reconciliação, a FSLN apoia-te. Como também a petição de Daniel para que fosse atribuído o Prémio Nobel da Paz a esse campeão do anti-sandinismo e protector dos contra. E é a Daniel que se deve o facto de o presidente do Conselho Supremo Eleitoral ser Roberto Rivas, o protegido de Obando.

Daniel muda de roupagens a cada eleição, e faz crer que com isso mudou. A verdade é que não há nele nenhuma verdade. Traiu a revolução. Primeiro retirou do hino sandinista o verso “o ianque inimigo da humanidade”, e depois aboliu o próprio hino sandinista e substituiu-o por outras músicas. A bandeira vermelha e negra substituiu-a pela cor-de-rosa.

Com a sua demagogia (que contradiz os seus actos) Daniel enganou líderes da esquerda latino-americana, que crêem que ele representa aqui a esquerda. Por estarem longe, compreendemos que possam estar enganados, mas os sandinistas nicaraguanos não podem estar enganados.

É certo que as nossas massas estiveram por muito tempo abandonadas politicamente, e a isso se deve que muitos estejam submissos perante o caudilhismo de Ortega. Mas, ao ir votar, devem ter presente que Daniel e Alemán são sócios. Os dois actuam à margem da lei. São duas máfias. Aí está essa vergonhosa fotografia que todo o país viu: os dois juntos em primeiro plano sentados à mesma mesa, alegres como num festim.

É falso que os sandinistas devam agora “cerrar fileiras”

Como revolucionários agora devem revoltar-se.

Se vos compraram com qualquer suborno, ou se vos ameaçam com qualquer chantagem, recordem que na hora de votar, o voto é SECRETO. Esta é a ocasião de nos livrarmos dos caudilhos, Daniel e Alemán.

A quem se deve que a Cimenteira Nacional tenha sido devolvida à família Somoza?

Viram como os narcotraficantes estão vindo para a Nicarágua. Alguns vêm com todo um avião carregado de coca, que depois deixam abandonado. E não há nenhum narcotraficante preso. Cada narcotraficante capturado tem o seu preço. Muitos, para continuarem em liberdade, têm que pagar milhões de dólares. Recordem bem isto: não há nenhum narcotraficante preso.

Não acreditem nesses discursos de uma demagogia altissonante que, pela sua própria voz oca e enrolada e antiquado ritmo martelado soam a falso. Como muito bem disse Gioconda Belli: “Não podemos acreditar nas promessas dos que já nos falsearam”. Como acreditar em Daniel Ortega quando grita que está com os pobres e se apresenta nos bairros pobres num Mercedes Benz?

É triste ver guerrilheiros que admirávamos e que são agora os novos-ricos da Nicarágua. Agora são empresários milionários. Um deles é agora uma das pessoas mais ricas da América Central. E que dizer dos que num baptizado, numa festa de anos ou num casamento, gastam 15 ou 20 mil dólares? Foi para isso que se derramou tanto sangue?

Há potentados sandinistas que têm filhos no estrangeiro com bolsas de estudo que foram criadas para os pobres que não podem pagar esses estudos. Isso é tirar bolsas aos pobres. Daniel Ortega tem um filho com uma bolsa do governo espanhol que era para os pobres.

A grande gesta da FSLN, de Carlos Fonseca e de milhares de heróis e mártires está agora reduzida ao casal Ortega-Murillo, e ninguém ali manda senão eles.

Mas, se é um grande mal que a FSLN se tenha corrompido até este ponto, um mal muito maior é que essa FSLN corrompida volte a governar. Muito mau é que tivéssemos perdido a revolução, mas muito pior é uma falsa revolução. E muito pior ainda é que uma revolução falsificada nos governe.

A Frente Sandinista deve voltar a ser o que foi, para que os que morreram por essa causa não tenham morrido em vão.

Herty Lewites, o de rosto sorridente (e tão simpático que até os seus inimigos gostavam dele), estando doente do coração, arriscou a vida pelo Resgate do Sandinismo, e deu a vida por isso. A sua morte foi um grande golpe. Mas é agora o candidato espiritual desse movimento. Substituiu-o Mundo Jarquín, que ele tinha escolhido para vice-presidente. Um profissional comprometido com os pobres toda a sua vida, e que saberá governar profissionalmente, sem nenhum outro compromisso a não ser com o povo. É o único candidato com as mãos limpas, como acaba de dizer Bianca Jagger, mulher muito bela, que foi famosa em todo o mundo pela sua beleza, mas que tem uma fama melhor que é a de defender todas as causas belas do mundo. E como vice-presidente teríamos Carlos Mejía Godoy, o grande cantautor nacional da Nicarágua e grande cantor da revolução.

Cada um é livre de votar por quem quiser, mas não deve votar contra a consciência. Se é sandinista, não deve votar naqueles que traíram o sandinismo e os nossos mortos.

É o futuro da Nicarágua que está em jogo, e o do grande movimento que teve origem em Sandino.

* Foi Comandante de Frente Sandinista de Libertação Nacional
Original em Enlace: http://www.elnuevodiario.com.ni/2006/10/26/opinion/32243

Tradução de Carlos Coutinho

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