Sê jovem e cala-te!

Rémy Herrera    02.Jun.18    Outros autores

Mais informação das lutas em França. Estudantes do ensino secundário e do ensino superior combatem as «reformas» privatizadoras e antidemocráticas de Macron. E, como outros sectores em protesto, são alvo da repressão e da violência policial. Num quadro em que persiste uma ampla mobilização social, essa repressão, em vez de intimidar, reforça a vontade de luta.

No passado dia 22 de Maio, na sequência de uma manifestação da função pública em Paris à qual se juntaram ferroviários e estudantes, cerca de uma centena de jovens – muitos dos quais menores, alguns deles com apenas 14 anos! – foram detidos pelas forças da ordem quando protestavam e ocupavam um liceu (o liceu Arago) da capital.

Antes de colocados sob prisão, uns sessenta de entre eles estiveram amontoados como gado num furgão da polícia durante mais de quatro horas, sem terem autorização para prevenir as suas famílias, para beber, ou para utilizar as instalações sanitárias. No seguimento destas interpelações, traumatizantes para os adolescentes e angustiantes para as famílias, muitos destes jovens foram levados - algemados - perante um juiz, em procedimento de urgência.

Que delito tinham então cometido estes jovens rebeldes? Tinham decidido – e tinham tido a coragem de o fazer – opor-se (sem causar qualquer dano excepto um vidro partido) à “reforma” neo liberal do sector da educação que o Presidente Macron quer impor. Uma das jovens interpeladas declarou: «Fiquei chocada pela agressividade das forças da ordem e as condições de detenção. Quiseram fazer de nós um exemplo para deter a mobilização dos jovens, mas eu vou continuar a estar mobilizada, mesmo mais do que já estava».

Desde há meses que os sindicatos estudantis de esquerda afirmam a sua recusa de ver a educação mercantilizada – quando no sistema francês o ensino público ocupa um espaço preponderante -, as despesas com a educação aumentadas – os cursos do ensino superior eram até há pouco tempo (quase) gratuitos -, a selecção para a entrada na universidade generalizada – o acesso era, até à promulgação de uma lei recente, garantido a todos após concluído o bacharelato. Eles rejeitam o facto de cada vez mais jovens oriundos de camadas desfavorecidas verem - por falta de dinheiro - interdito prosseguir estudos e estarem assim condenados ao desemprego. Numerosos docentes estão também mobilizados. Todos reivindicam mais meios para o sector educativo, asfixiado pela política de “rigor.”

Apenas é tolerada a comédia da democracia burguesa. E nem sempre. Num teatro de Paris (o teatro do Odéon, célebre por ter sido ocupado pelos estudantes em Maio de 1968), era apresentado a 7 de Maio um espectáculo destinado a rememorar os acontecimentos de há 50 anos. Tudo decorria na normalidade…até estudantes reais (de hoje) irromperem pela sala de espectáculo e disporem-se a usar da palavra para explicar ao público as razões das suas contestações actuais. A direcção do teatro, de cabeça perdida, chamou a polícia que evacuou, manu militari e perante o mal-estar geral, os jovens desmancha-prazeres!

Há qualquer coisa que está a atrapalhar no reino de Macron. Essa coisa é talvez o povo, que recusa a sorte que lhe querem reservar. Um povo que, lentamente, toma consciência de que o desmantelamento dos serviços públicos não representa qualquer progresso, que as «reformas» que os media a soldo da finança gabam não passam de destruições. Um povo que, penosamente, aprende a levantar-se para de novo se por em marcha. Tudo isso exigirá tempo. Mas está claro que nós, os que não queremos mais ser enganados, somos numerosos.

O ministro do Interior, Gérard Collomb, já o compreendeu, sem dúvida. Em 27 de Maio anunciou: «Se se deseja preservar o direito de manifestação, que é uma liberdade fundamental, é necessário que as pessoas que desejam exprimir a sua opinião possam também opor-se aos «vândalos», e não serem apenas, pela sua passividade, de algum modo cúmplices do que se passa [os estragos ocasionados]». Condicionar o direito de manifestação em França à transformação em polícias dos «manifestantes vulgares», como ele lhes chama, que belo projecto de sociedade!

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