Segurança e repressão para o ajustamento com el FMI

Julio C. Gambina    07.Ago.18    Colaboradores

O governo de Macri fez regressar o FMI à Argentina, confirmando com esse aval a sua política de retrocesso social e de empobrecimento das camadas populares. Política que não pode instalar-se sem um acréscimo da repressão. O descontentamento popular vem mobilizando impressionantes manifestações de massas. Não têm ainda a força e a unidade de objectivos capaz de derrotar a ofensiva. Mas são a condição necessária para que tal seja conseguido.

Foi impressionante o dispositivo repressivo de segurança para isolar da mobilização popular o conclave em Buenos Aires dos responsáveis económicos e financeiros do G20.

Com efeito, para que pudessem reunir-se este fim-de-semana os ministros da economia e os presidentes dos bancos centrais do G20 mais os organismos internacionais, especialmente o FMI, tiveram que cercar vários quarteirões à volta do Centro de Convenções da Cidade.

Sábado pela manhã, em Conferencia de Imprensa conjunta entre Christine Lagarde e Nicolás Dujovne, a primeira tinha assinalado que o FMI dialogava regularmente com a sociedade civil. Tinham-lhe perguntado se o organismo internacional aceitaria conversações com sindicatos e organizações sociais.

Fica claro que se trata de um diálogo de surdos, típico de amos ou patrões, que apenas proferem discursos unicamente destinados a ser convalidados pelos súbditos ou parceiros afins. Não aceitam outra linguajem senão a que promove a submissão ideológica ou o temor das armas e da repressão.

“Vamos bem” disseram os titulares do Fundo e da Política económica da Argentina. Dito em simultâneo com uma inflação de 3,7% em Junho e de 16% entre Janeiro e Junho, projectando uns 32% para todo o ano.

¿A quem vai bem esta subida da média dos preços? Aos poucos em condições de estabelecer preços, caso dos grandes produtores e exportadores ou dos sectores da alta especulação com taxas de juro entre 40 e 60% nos seus investimentos milionários.

Ilusões macristas

Mas fiquemos tranquilos porque Macri previu que no próximo ano de 2019 a inflação será 10 pontos mais baixa, quer dizer, quase a mesma que a elevada taxa de inflação de 2017.

Em rigor, outra ilusão que se vende à população, como aquela que previa o crescimento no segundo semestre de 2016, e que depois passou para o próximo ano, 2017.

Trata-se sempre de um imaginário futuro, enquanto passa o ajustamento regressivo. O projecto de Cambiemos assenta no discurso vazio (para a maioria da sociedade) de um futuro melhor por vir.

A ilusão do crescimento do PIB, da chegada dos investimentos, ou da baixa dos preços é apresentada enquanto a realidade transita por outro caminho. Estabelece-se, por exemplo, um tecto aos salários nas negociações paritárias e deterioram-se os rendimentos populares da maioria da sociedade.

Não só há menos recursos para a maioria da população, como também se afecta a actividade económica, com um crescimento previsto de 0,4% para o ano e prognósticos de baixa do PIB à volta de -1,5% para todo 2018.

É a base com a qual se organiza o orçamento do ajustamento para 2019 no qual pretendem espartilhar as províncias.

Com estas perspectivas de crescimento baixam-se as expectativas para resolver o problema do emprego de milhões de despedidos e da jovem geração que pretende ingressar no seu primeiro emprego.

Inflação e recessão são o resultado da política económica do governo, convalidada no acordo com o FMI.

O organismo insiste que o Plano é do Governo Macri e que o Fundo avaliza e financia. São parceiros no ajustamento social, condição da possibilidade de viabilizar a rentabilidade futura dos investimentos.

A inflação e a recessão não são ilusões. São a realidade de uma política que apenas tem perspectiva se se confirmar uma distribuição regressiva do rendimento e da riqueza.
Em outros momentos do desenvolvimento capitalista, entre 1930 e 1980, o processo de acumulação foi obrigado pela correlação de forças no mundo a satisfazer, ainda que desigualmente, a reivindicação salarial e o lucro.

Mas nas condições actuais do desenvolvimento capitalista, a acumulação apenas atende o objectivo do lucro. Por isso, as classes dominantes arremetem com força contra os direitos sociais, laborais e sindicais.

É a luta de classes em tempos contemporâneos, que o processo de mudança política na região latino-americana e caribenha no início do século alertou, e em consequência do qual actualizou os mecanismos de uma ofensiva favorável à rentabilidade do capital.

Fortalecer o poder de reivindicação social

A ofensiva do capital instalou-se com força desde começos dos anos setenta e generalizou-se como “neoliberalismo”, para além da polémica que o termo em si mesmo gera, já que a política hegemónica neste tempo não é nova nem liberal.

Para contrariar essa ofensiva e a consequente iniciativa política requer-se restabelecer a capacidade de reivindicação social por direitos, à alimentação, à educação e à saúde, à energia e à democracia participativa e comunitária, à paridade de género e à diversidade sexual; ao direito à vida e por consequência à despenalização do aborto, entre muitos direitos a reivindicar.

As mobilizações contra o FMI encheram as ruas do país na sexta-feira e no sábado, e acumulam na grande batalha de denuncia das políticas que emanam dos governos do G20 e dos organismos internacionais, que se reunirão em Buenos Aires em conclave de presidentes nos próximos dias 30/11 e 1/12.

Constitui um desafio articular o fragmentado protesto que o descontentamento social anima. Caso contrario, a ilusão macrista poderá continuar a disputar o consenso eleitoral para além do presente período de gestão de governo.

A mobilização popular é a condição necessária, ainda não suficiente, para gerar um horizonte alternativo à política repressiva, de ajustamento e reestruturação regressiva do Governo Macri que o FMI avalisa e financia.

Buenos Aires, 21 de Julho de 2018

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