Seis anos de guerra no Afeganistão - Entrevista a Tariq Ali*

Sherry Wolf*    28.Dic.07    Outros autores

“Muito longe de ser uma «boa guerra» o Afeganistão está a transformar-se numa guerra asquerosa e desagradável, e não há maneira das forças dos Estados Unidos ou de outras potências ocidentais serem capazes de permanecer ali por muito tempo”

Sherry Wolf (SW) – Agora completa-se o sexto aniversário da guerra dos Estados Unidos no Afeganistão, a qual é vista por muita gente como a batalha «boa» na «guerra contra o terror» o que a diferencia do Iraque. É assim?
Tariq Ali (TA) –
Argumentei sempre que esta guerra era essencialmente uma vingança grosseira para devolver o golpe imediatamente depois dos ataques do 11 de Setembro — e poder mostrar à população dos Estados Unidos, por parte dos líderes políticos, que «nós estamos atarefados a defender-nos». Não houve outro propósito que não fosse uma vingança, olho por olho.

O segundo propósito desta guerra, como Bush explicou detalhadamente, era capturar Osama bin Laden «vivo ou morto». Estas foram as suas palavras exactas, que não deveríamos esquecer. Fora essa, não havia outras razões para a guerra.

Não havia dúvida de que eles iam conquistar o país. Por um lado, a aliança do Norte não ia resistir, nem tão pouco os iranianos que eram muito fortes no Afeganistão ocidental. Os líderes iranianos eram hostis aos talibans pelas suas próprias razões oportunistas, portanto, subiram para o carro e disseram: Bem, não podemos desfazer-nos desses tipos, mas se os americanos o fizerem, esperamos os acontecimentos.

Por outro lado, havia o regime militar paquistanês, sem o qual os talibans não teriam permanecido no poder, e que tinha estado a apoiar os talibans logística e militarmente, em todos os sentidos.

Dado que os Estados Unidos iam usar as bases militares do Paquistão, o regime pediu para manter durante algumas semanas o seu pessoal militar fora do Afeganistão antes dos Estados Unidos o invadirem. Nestas duas semanas decisivas, supostamente, Osama bin Laden e a direcção da al-Qaeda também abandonou o Afeganistão.

Assim os Estados Unidos invadiram Kabul com a ajuda da NATO, mas não tiveram a qualquer dificuldade porque não houve a menor resistência. Assim surgiu a pergunta: Que iam fazer com o país?

Não podiam apanhar Osama, embora tivesse havido duas semanas de histeria mediática sobre «encontrar as grutas de Tora Bora e propaganda desse tipo. Lançaram estas bombas e o que aconteceu? Nada. Destruíram as grutas, mas a presa tinha escapado.

Portanto que fazer agora? É óbvio que bin Laden abandonou o país e foi para as zonas tribais entre o Paquistão e o Afeganistão, onde as tradições de hospitalidade são muito fortes e não seria entregue.

Os Estados Unidos impuseram um regime marioneta no Afeganistão. Lembremos que Zalmay Khalilzad era então conselheiro chefe de Bush no Afeganistão e trouxe um dos compinchas que trabalhou para a companhia petrolífera Unlocal, Hamid Karzai, para ser presidente do Afeganistão. Bingo: rapidamente conseguimos um país.

O problema tornou-se logo evidente para o Ocidente: estes planos não podiam ultrapassar Kabul e Kandahara, as duas grandes cidades no Sul, e isso apenas durante o dia. Em todo o lado, a oeste do país, as forças pro-iranianas tinham-no sob controlo. E no norte, as antigas repúblicas soviéticas, ainda sob a influência de Moscovo, eram comandadas.

Portanto que iam fazer com o país? A resposta era: nada

(SW) – Os Estados Unidos têm algum tipo de apoio dentro do Afeganistão?
(TA) –
Não há dúvida que muitos afegãos se alegraram com a queda dos talibans – algumas pessoas pensaram, bem, ao menos teremos alguma paz e tranquilidade, e talvez comida. Foi também essa a opinião de alguns comentaristas liberais do Paquistão.

Alguns de nós discutimos com eles, dizendo que os talibans podiam ter sido desalojados, mas que aconteceria agora? Alertámo-los que no diz respeito à infra-estrutura social, nada ia mudar para a maioria dos afegãos. É isso exactamente o que aconteceu nestes seis anos. O que a gente subestimou é que as ocupações imperiais sob o neoliberalismo reflectem as prioridades da nova ordem capitalista, privatizar tudo nos seus próprios países. Portanto o que aconteceu é que este dinheiro foi colocado aqui — e este dinheiro foi usado por Hamid Karzai e seus compinchas para construir uma elite no Afeganistão.

No coração de Kabul, nas melhores terras de que puderam apropriar-se, a elite esteve e está a construir grandes mansões protegidas pelas tropas da NATO diante de toda a população da cidade e do campo.

Custa cerca de 5 mil a 6 mil dólares construir uma casa barata para uma família de cinco ou seis membros, mas a elite não o fez. Gastou milhões de dólares a construir grandes mansões. Sabe Deus por que o fizeram já que necessitam de uma guarda permanente da NATO para viver numa dessas mansões. E serão retirados delas logo que os exércitos ocidentais se retirem.

Isso originou uma grande crise e surgiram os casos de inocentes assassinados pelo gatilho fácil das tropas dos Estados Unidos.

Onde os Estados Unidos ouvem tiros, lançam bombas. Alguém deveria ter-lhes dito que o Afeganistão era uma sociedade tribal, uma cultura onde se disparam armas para celebrar bodas, nascimentos… correm e disparam armas de fogo para o ar. Poderia pensar-se que os norte-americanos seriam mais compreensivos com isso, dada a cultura armamentista dos Estados Unidos, mas não acharam graça a isso no Afeganistão.

Assim os Estados Unidos começaram a bombardear as pessoas. Numa festa de casamento os Estados Unidos chegaram, bombardearam e criaram o inferno. Vitimas: 90 ou 100 assassinados, homens, mulheres e crianças. E isto multiplicou-se.

(SW) – Como é que os talibans regressaram?
(TA) –
Os talibans começaram a reagrupar-se, a rearmar-se e a lutar, e conseguiram alguns êxitos. O que também começou a suceder simultaneamente é que houve gente feliz em os ver regressar — já que ninguém mais os defendia.

Começaram a tratar dos talibans como uma organização «guarda-chuva» e a informá-los do que passava. Muitas pessoas que supostamente trabalhavam com as autoridades de ocupação dos Estados Unidos e da NATO, informavam os talibans sobre os movimentos de tropas. As operações da clássica guerra de guerrilhas começou, e os Estados Unidos responderam com mais bombardeamentos aéreos. Estava em marcha um círculo vicioso.

Se examinarmos os jornais do último ano e fizermos uma sondagem de todas as informações onde houve 60 talibans mortos, 80 talibans mortos, 90 talibans mortos, e se fizerem as contas, já teriam acabado com os milhares de supostos membros das milícias talibans (a teórica força total calcula-se ser de 10 mil).

Por outras palavras, a julgar por estas informações, já estariam eliminadas três quartas partes da organização taliban, o que está longe da verdade. Mas como os Estados Unidos estão envergonhados de matar civis, deve ser esta a versão.

Tens uma situação no país em que o irmão de Hamid Karzai, Wali Ahmed Karzai é muito conhecido como o traficante de armas e de heroína mais importante da região. Chegou a esse ponto porque o irmão governa o país.

Tens este sujeito que foi feliz dirigindo um restaurante afegão em Baltimore e vende comida cara aos estudantes da John Hopkins — e agora é o segundo chefe no país a fazer uma fortuna — um «matador» por assim dizer.

Simbolicamente, tudo isto representou um grande desastre. Assim, muito longe de ser uma «boa guerra» o Afeganistão está a transformar-se numa guerra asquerosa e desagradável, e não há maneira das forças dos Estados Unidos ou de outras potências ocidentais serem capazes de permanecer ali por muito tempo.

(SW) – Q Que esperam conseguir os poderes regionais como consequência do Afeganistão?
(TA) –
O exército paquistanês espera que o Ocidente se retire e se improvise um tipo de governo de coligação entre Karzai e o que resta dos talibans.

Isto vale a pena sublinhar. Apoiado no Ocidente, o regime de Karzai, agora mesmo, está a negociar seriamente com os talibans. Assim, os talibans que foram demonizados como a pior força que já existiu no mundo, estão agora com o beneplácito do Ocidente, a negociar porque o fazem com Karzai.

A primeira resposta dos talibans à oferta de Karzai é dizer: «nunca negociaremos convosco até as tropas estrangeiras terem abandonado o país» Ao que Karzai respondia: «Não é possível» . E pensa que não é possível porque sem as tropas estrangeiras não duraria nem 48 horas.

Mas no que respeita ao exército paquistanês, sabem que não são capazes de conseguir um acordo entre talibans e Karzai enquanto as tropas estrangeiras permanecerem na região. Os militares imaginam que quando as tropas ocidentais tiverem abandonado o país, podem controlá-lo novamente, através dos talibans e de Karzai.

Mas creio que esta possibilidade está agora excluída porque a NATO fez da ocupação um caos e porque nestes últimos seis anos, a autonomia regional emergiu como factor político principal. O Afeganistão foi sempre uma confederação tribal, mas agora está tem inclusive um carácter mais confederado.

E os iranianos e os russos não estão dispostos a permitir uma tomada do poder talibã no país consentida pelos Estados Unidos. Assim que os líderes militares paquistaneses podem aspirar a governar numa parte do Afeganistão, mas não serão capazes de o fazer no conjunto do país.

Defendi no Paquistão e em vários lugares a retirada total e imediata de todas as tropas e simultaneamente, a convocatória de uma conferência de paz dos poderes regionais envolvidos no Afeganistão — o que significa Paquistão, Irão, Rússia e Índia, que é o maior poder de todos — para erigir um governo nacional depois da retirada das tropas ocidentais que dê uma possibilidade a este país para descansar e convocar eleições para uma assembleia constituinte em dois ou três anos.

Entretanto, estes poderes regionais terão de garantir que não haja luta nem guerra civil. As pessoas deveriam entender esta ideia, porque o Afeganistão esteve em guerra permanente virtualmente desde 1979. O que se passa neste país é horrível.

É improvável que os americanos ou os paquistaneses estejam de acordo com isto, em cujo caso, a situação irá de mal a pior, na minha opinião.

Para resumir a situação no Afeganistão: é um desastre. Os Estados Unidos nunca podem ganhar a guerra e a principal razão é que os afegãos não gostam da ocupação. Os afegãos correram com os britânicos no século XIX, com os russos no século XX e agora estão em luta de novo contra os Estados Unidos e seus aliados da NATO.

*Tariq Ali é editor da New Left Review, director da Editorial Verso e membro do Conselho editorial de Sin Permiso.
Sherry Wolf é membro do Conselho editorial de Socialist Review

Esta entrevista foi originalmente publicada em Socialist Review

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