Semear nas águas

Correia da Fonseca*    12.Jun.16    Colaboradores

É este o 2º texto de Correia da Fonseca sobre as «Conversas do Tempo da Outra Senhora», título genérico de uma série de programas sobre a luta contra o fascismo em Portugal onde, como é sabido, o Partido Comunista Português assumiu o grosso das despesas. Não escondendo o facto, o canal público transmite os programas perto da meia-noite, assegurando-se assim que não vão ter grande audiência…
Como sempre, a clareza de pensamento de Correia da Fonseca é servida por uma bela e fluente prosa, que nos vem recordar a dívida, ainda em aberto, para com o movimento neo-realista português, de que os passeios no Tejo foram um preâmbulo.
Tivessem as pessoas da RTP – os que por ela dão a cara e também e principalmente os que a escondem – um pingo de vergonha e a dívida já estaria liquidada.

De todos os episódios da série «Conversas do Tempo da Outra Senhora» que já foram transmitidos sempre na «2» e sempre por volta da meia-noite, o que pudemos ver na passada segunda-feira foi sem dúvida o que no plano estético mais recompensou a coragem dos que adiaram a hora do repouso nocturno para acederem a mais algumas informações, sempre difíceis, acerca dos anos do fascismo português: filmado sempre ou quase sempre a bordo de uma fragata do Tejo, a «Liberdade», incluiu fascinantes imagens do rio entre Vila Franca e Alhandra, e só por elas já teria valido a pena o adiamento do sono.

Mas no episódio havia muito mais: intitulado «Passeios no Tejo», contava-nos como naquela zona, onde a luta clandestina contra a ditadura teve especiais intensidade e coragem, foram organizadas reuniões de figuras destacadas da cultura portuguesa e como tais encontros, sempre em maior ou menor grau conspirativo, se realizaram não em qualquer casa eventualmente sob vigilância repressiva mas sim a bordo de uma fragata vogando no rio.

Tratava-se decerto de uma questão de segurança, pois aquelas reuniões eram uma espécie de sementeira de um futuro livre, mas era também, de facto e ainda que talvez não conscientemente, uma homenagem a tradições laborais daquela zona.

A dívida

Como se sabe, foi ali que viveram e lutaram dois grandes escritores portugueses, Soeiro Pereira Gomes e Alves Redol, e que ali nasceu e se afirmou o movimento literário português que foi designado por Neo-Realismo na impossibilidade de na altura ser designado por Realismo Socialista, o que seria mais nítido e adequado.

Por razões que bem se compreende, contra o Neo-Realismo prontamente se mobilizaram forças da área cultural e não só, diversas e tão empenhadas que têm vindo a manter-se activas mesmo depois de Abril. Entretanto, porém, graças ao poder que os factos têm quando pela sua natureza são inapagáveis, e ao esforço de alguns, entre os quais se destaca António Redol, filho do escritor, e o próprio município de Vila Franca, tornou-se possível a existência do Museu do Neo-Realismo, ali sediado. Neste quadro, tornou-se difícil erradicar da memória colectiva o facto que foi (e talvez de certo modo e em algum grau continue a ser, o que é ponto a estudar e discutir) o Neo-Realismo.

De qualquer modo, basta ter visto este «Os passeios no Tejo» para entender os sólidos motivos do fascismo e seus arredores para condená-lo à morte embora sem conseguir a execução da sentença: nas imagens dos anos 40 que o telefilme nos mostrou pudemos ver Álvaro Cunhal, Soeiro Pereira Gomes, Dias Lourenço, Alves Redol, Fernando Lopes-Graça e mais alguns a quem a PIDE de bom grado teria deitado as garras, tudo gente que integrou um movimento cultural e político de primeiríssimo relevo no século XX português.

Não será preciso acrescentar muito mais para que se entenda como teria sido útil e adequado, se não necessário, que um programa assim fosse transmitido em horário que o tornasse acessível a um amplo público.

Acrescente-se, já agora, que o próprio movimento neo-realista é, pela sua importância cultural e sociopolítica, credor de divulgação e abordagens que nunca lhe foram concedidas. Por conta desse débito, tivemos agora este admirável trabalho da equipa liderada por Edgar Feldman. Foi bom. Mas também serviu para lembrar a dívida em aberto.


* Correia da Fonseca, crítico de televisão, é amigo e colaborador de odiario.info.

Este texto foi publicado no Avante de nº 2.219 de 9 de junho de 2016.

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