Sementes ao vento

Correia da Fonseca    24.May.12    Colaboradores

Correia da FonsecaO governo tem em andamento - como de costume sob o guarda-chuva da troika – uma vasta operação de decapitação do Poder Local, os órgãos de poder mais próximos do povo. Vai ainda mais longe do que a troika exige, numa prova de que o que está em causa é o ajuste de contas reacionário com tudo o que Abril permitiu conquistar.

1. Na mais recente emissão do programa “Portugal Português” (TVI24), estiveram dois autarcas de opções políticas opostas mas posições convergentes quanto à questão que ali iria ser abordada. Os autarcas eram Maria Emília de Sousa, presidente da Câmara de Almada (CDU), e João Paulo Barbosa de Melo, da Câmara de Coimbra (PSD). O tema que lhes foi proposto foi o da imposição pelo governo de uma drástica redução de 23% no número de cargos dirigentes nas empresas municipais existentes no País, de norte a sul. Note-se que esta decisão excede em 8% a percentagem de 15% que a intromissão estrangeira fixou como objectivo, isto é, também neste caso o governo português optou não apenas por ajoelhar perante a prepotência externa como por dar sinais de estar disposto a lamber-lhe as botas: 8% sobre a base de 15 corresponde a um acréscimo voluntário de 53%!. Mas quem quiser entender as raízes desta prestimosa aquiescência deverá lembrar-se de que o Poder Local e a sua necessária autonomia de gestão têm vindo a ser alvos permanentes da hostilidade da direita e até, aparentemente para lá dela, do constante bombardeamento sobre o Poder Local desencadeado pelos media de facto pela direita controlados. É compreensível que assim tenha vindo a ser: é no Poder Local que mais visivelmente tem sido provada a eficácia de uma gestão pública de esquerda ao serviço das populações; é o Poder Local que mais próximo está do Povo, essa realidade incómoda que a direita instalada no governo ainda não conseguiu exterminar nem sequer reduzir ao silêncio. De onde o recurso à intriga, à utilização de uma forma peculiar de calúnia que consiste em induzir o alargamento a uma dimensão nacional, na ordem dos mais de trezentos municípios, do descrédito resultante de irregularidades de vária ordem e diferentes dimensões havidas numa ou duas dezenas deles, se tantos. Contra essas irregularidades, provadas ou não, vêm à televisão vociferar regularmente sujeitos de competências e inocências por provar, e esses recados ao longo de décadas reiterados condicionaram inevitavelmente o juízo de largas camadas da população acerca dos autarcas que afinal elas próprias elegeram. Com isto, ficou a situação madura para que mais um golpe anti-autárquico pudesse ser desferido. Aqui está ele: a eliminação de 23% das funções dirigentes. O mesmo é dizer: uma vasta operação de decapitação semeada a favor do vento que antecipadamente foi tornado favorável.

2. Contra este desaforo se coligaram, digamos assim, os convidados do “Portugal Português”, Maria Emília e Barbosa de Melo, mas é claro que as suas palavras e razões irão diluir-se no largo mar de suspeitas diariamente disparadas contra autarquias e autarcas. Para mais, não apenas a demagogia tem muita força em terra onde a cultura do civismo e a reivindicação do rigor sempre foram cuidadosamente dispensados pelos que deveriam implementá-los, mas também porque nesse terreno deserto de valores a inveja floresce em abundância. E é tanto e de tal modo assim que bem se pode dizer, ainda que já pisando evidentemente os territórios da ironia, que, embora o marxismo tenha ensinado que a luta de classes tem vindo a ser o motor da História, no nosso País o motor da História parece por vezes ser a inveja. Mas porventura não só ela, talvez também a ambição de inventar o mítico “golpe de sorte” ou a suposta “ideia providencial” que à escala individual nos garanta o atalho para o êxito. E será aí, nesse cruzamento entre individualismo e esperteza, que parece incrustar-se um estímulo de que a televisão se fez agora arauto e elemento divulgador: o convite para que, no quadro do “empreendedorismo” agora muito preconizado, até pelo senhor Presidente da República (ele próprio, reconheçamo-lo, exemplo vivo de um empreendedorismo triunfante), surjam muitas “ideias de negócio”. É, como facilmente se reconhece, mais uma sementeira lançada a favor do vento, aqui sob uma forma específica: a de que o capitalismo continua a ser uma boa coisa, fonte de muitos e gigantescos sucessos individuais, sob condição de ter a ideia que será como o “Abre-te, Sésamo!” capaz de escancarar a caverna dos tesouros. Assim se iludem as gentes. Assim se tenta adiar a História.

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