Semper eadem*

Anabela Fino    10.Oct.20    Outros autores

A recente encíclica papal manifesta preocupações do Vaticano face às concepções e interesses dominantes na economia mundial. Critica o «dogma de fé neoliberal» no mercado, condena a «especulação financeira», marcada por uma «ganância do lucro fácil», reconhece que esses interesses são antagónicos dos direitos da esmagadora maioria da humanidade. Só faltaria reconhecer que aquilo que critica e condena está na própria natureza do capitalismo. Aliás, a condenação da especulação financeira talvez contenha entre linhas algum registo das embrulhadas em que o Vaticano se viu envolvido, nomeadamente com o célebre Banco Ambrosiano.

«Como pode haver tanta injustiça, tanto luxo ao lado de tanta pobreza?» A interrogação, atribuída ao religioso Francisco de Assis no século XII, quando fez votos de pobreza e começou a pregar a sua doutrina, em manifesta oposição com a vida de opulência reinante na Igreja, permanece válida.

Veja-se o que revelam os dados disponíveis mais recentes, do Relatório da Oxfam: 2 153 multimilionários dispunham, em 2019, de mais riqueza do que 4,6 mil milhões de pessoas, o equivalente a 60% da população mundial; os 22 homens mais ricos do mundo detêm mais riqueza do que todas as mulheres que vivem em África; o 1% dos mais ricos do mundo detém mais do dobro da riqueza de 6,9 mil milhões de pessoas; quase metade da população mundial vive com menos de 4,9 euros por dia.

Se o presente é negro, as perspectivas de futuro também não são brilhantes, à medida que a população mundial aumenta e envelhece: estima-se que 2,3 mil milhões de pessoas vão precisar de cuidados em 2030, o que significa um aumento de 200 milhões relativamente a 2015.
A pandemia veio ensombrar ainda mais este horizonte. A ONU prevê que mais 176 milhões de pessoas vão ficar em pobreza extrema.

É neste contexto que surge a encíclica ‘Fratelli Tutti’, dedicada à fraternidade e amizade social, assinada no sábado pelo Papa Francisco justamente junto ao túmulo de Francisco de Assis. Entre outros aspectos, o documento critica o «dogma de fé neoliberal» no mercado, considerando-o um «pensamento pobre, repetitivo, que propõe sempre as mesmas receitas perante qualquer desafio que surja»; condena a «especulação financeira», marcada por uma «ganância do lucro fácil»; aponta a necessidade de reformar a «arquitectura económica e financeira internacional»; considera que o «direito de alguns à liberdade de empresa ou de mercado não pode estar acima dos direitos dos povos e da dignidade dos pobres nem acima do respeito pelo ambiente»; apela à defesa global e urgente dos «direitos humanos mais essenciais».

Se o 1% mais rico do mundo pagasse uma taxa extra de 0,5% sobre a sua riqueza nos próximos 10 anos, diz-nos a Oxfam, seria possível criar 117 milhões de empregos em educação, saúde e de cuidado para idosos.

«Com o dinheiro usado em armas e noutras despesas militares», propõe o Papa, devia criar-se um fundo mundial «para acabar de vez com a fome e para o desenvolvimento dos países mais pobres».

Sem pretender pôr em causa a bondade das propostas, ocorre perguntar, nove séculos depois de Francisco de Assis se questionar, se não estará mais do que na hora de concluir que tanta injustiça, tanto luxo ao lado de tanta pobreza, é uma característica intrínseca do capitalismo e que nunca haverá justiça insistindo sempre no mesmo.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2445, 8.10.2020

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