Senhores e serviçais

José Paulo Gascão    23.Mar.07    Colaboradores

O império norte-americano não estende os seus tentáculos apenas aos países do Sul. Também os governos dos diversos países da UE, independentemente da forma como camuflam o seu grau de subserviência, pouco mais serão do “que diversas versões do rosto do imperialismo norte-americano na Europa.”

Quando Z. Brzezinski era Conselheiro da Segurança Nacional de Jimmy Carter ainda não tinha descoberto o tittytainment, (1) segundo ele, “uma sábia mistura de entretimento estupidificante e alimentação suficiente” que permite “manter de bom humor da população frustrada do planeta”. A divulgação da “sábia mistura”, dá-se no final de 1995, no glamoroso Hotel Fairmont em S. Francisco, onde Mikhail Gorbatchev recebe “quinhentos homens políticos, líderes económicos e científicos de primeiro plano”. Pelos serviços já prestados, “em sinal de reconhecimento, os mecenas norte-americanos [já lhe tinham criado] uma fundação”…(2)

Dos convidados, nenhum era português.

O objectivo era encontrar soluções e prevenir inevitáveis lutas contra a previsão de “dispensar” 80% da mão-de-obra mundial. (2)

É uma nova barbárie para onde nos querem levar.

Normalmente, a não presença portuguesa seria um motivo de natural alegria. No entanto, a persistente cavalgada do PS para a direita e a sua defesa do neoliberalismo, num percurso perto do fim da fusão ideológica com o PSD, faz adivinhar que não foi por vontade própria que os portugueses estiveram ausentes do Hotel Fairmont, mas tão só por, apenas, serem considerados executores de planos alheios.

Se o convite de Gorbatchov se destinava aos verdadeiros detentores do poder no mundo, o grupo Bilderberger, é uma das estruturas disponíveis, onde se faz, travestida de debate de ideias, a passagem de decisões aos executores. Intimamente ligado à Trilateral, também criada por David Rockfeller que propôs a sua ratificação aos Bilderberger na reunião de 1972 (3), as suas reuniões foram, desde o início, dirigidas pelo príncipe Bernardo da Holanda, um ex oficial das SS, que se demitiu em 1976, por ter recebido luvas da Lockeed.

Ligações perigosas

Com presidentes dos EUA (Ford, Carter, Clinton…) entre os seus membros, dirigido por um quadrunvirato liderado por David Rockfeller, de que também fez parte Giovanni Agnelli (FIAT), não admira que o convite para uma reunião dos Bilderberger provoque um silencioso e pacóvio orgulho nos políticos portugueses convidados. Mas quem é David Rockfeller, norte-americano, senhor do petróleo e da banca?

David Rockfeller «contrololava o comité de doações da Chase Manhattan Bank Foundation (…), membro do Conselho de Relações Exteriores (…) e amigo pessoal de Allen Dulles e Tom Braden [ambos da CIA, de que o primeiro foi chefe máximo]. “Amiúde, reunia-me mais ou menos oficialmente com David, com autorização de Allen, para comentar o que fazíamos – recordava Braden. Pensava tal como nós, e apoiava com força tudo o que fazíamos. Era da mesma opinião que eu de que a única maneira de ganhar a guerra-fria era a nossa [CIA]. Por vezes dava-me dinheiro para coisas que não figuravam no nosso orçamento. Entregou-me muitíssimo dinheiro para coisas em França. Recordo que me deu 50.000 dólares para alguém dedicado a promover a unidade europeia entre os grupos juvenis. Este indivíduo apresentou-me o seu projecto e comentei-o com David, que me deu, sem hesitações, um cheque de 50.000 dólares. A CIA nunca o soube”. Estas transacções por fora deram um novo significado à prática de corso da responsabilidade do governo, e foram um inevitável passo na semiprivatização da política exterior estadunidense durante estes anos de guerra fria». (4)

“Semiprivatização da política exterior” é um eufemismo, a política dos EUA há muito é dirigida pelas transnacionais, tem cada vez mais por função alargar a influência destas, que o dinheiro não tem cor, mesmo que seja tingido de sangue, como acontece no Iraque, pelo domínio planetário do petróleo.

Portugueses na Bilderberger

Pinto Balsemão, uma presença constante nas reuniões com excepção de 1990, é desde 1988 o representante dos Bilderberger em Portugal, e quem propõe os portugueses a convidar – 39 no total até 2005.

Retirando os 4 representantes de bancos e grupos monopolistas, Ricardo Salgado, Vasco Pereira Coutinho, Vasco de Mello e Artur Santos Silva, os convites reflectem o poder político executivo em Portugal: durante o consulado de Cavaco Silva, 1988 a 1994, os convites são todos para o PSD. As presenças de Vítor Constâncio em 88 e Brederode Santos em 93, apenas confirmam a regra. De 1994 até 2005, são os turnos de predominância PS, embora as excepções sejam mais: António Borges, Mira Amaral, M. Rebelo de Sousa e Morais Sarmento.

Que os Bilderberger não dormem em serviço, prova-o a comparação entre o ano em que os políticos portugueses participaram e as responsabilidades políticas que assumiram a seguir: os últimos 4 primeiros-ministros de Portugal (Guterres, Durão Barroso, Santana Lopes e José Sócrates) participaram no ano anterior à assunção dessa responsabilidade, sendo que Durão Barroso e António Guterres foram novamente convidados no ano anterior à sua ida para Presidente da Comissão da UE e Comissário para os Refugiados da ONU. Jorge Sampaio, participou em 99, em Penha Longa, Sintra, evitando-se, assim, o pedido de autorização justificado para deslocação ao estrangeiro.

Civilização ou Barbárie

A Humanidade vive a mais grave crise da sua existência e o perigo de uma nova barbárie é real, podendo mesmo pôr em risco a sua sobrevivência. O Deus mercado capitalista Todo Poderoso, longe de regular as relações entre os homens, distorce-as, acentua a desarmonia, as diferenças sociais, provoca cada vez maiores desigualdades, acentua a concentração e a centralização da riqueza.

Nunca a Humanidade teve tanta capacidade de produção e produziu tanto efectivamente, e querem fazer-nos crer que é necessário diminuir os direitos sociais, que as políticas neoliberais são uma inevitabilidade.

É falso! São hoje verdades consabidas que não há capitalismo de rosto humano e que só uma rehumanização das sociedades inverterá o actual percurso para uma nova barbárie.

Esse novo humanismo, adequado às novas realidades só será possível quando as massas trabalhadoras decidirem assumir o seu lugar, o de sujeito da História. É pela luta, como o estão a comprovar os povos da América Latina, que se faz o caminho, é caminhando…

Até lá, como disse Samir Amin, os governos dos países europeus, pouco mais serão que diversas versões do rosto do imperialismo norte-americano na Europa.

Notas:
(1) Tittytainment, palavra composta por aglutinação de titty (tetas) e entertainment (entretinimento): versão actual do pão e circo do império romano.
(2) “A Armadilha da Globalização”, Hans-Peter Martin, Terramar, Editores, Livreiros e Distribuidores, 1998.
(3) “O Manual das Sociedades Secretas, Michael Bradley, Fubu Editores, 2005.
(4) “La CIA y La Guerra Fria Cultural”, Frances Stonor Saunders, Editorial Debate SA, Madrid, 2001.
Ver também, entre muitos outros, www.bilderberger.org e www.voltairenet.org

Este artigo foi publicado no Jornal do Fundão nº 3.162 de 22 de Março de 2007.

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