Será que os EUA aumentarão a intensidade da guerra em vez de pagarem as suas dívidas? *

William Buckler    05.Mar.07    Colaboradores

“O problema é que os EUA possuem todos os meios estratégicos para fazer a guerra, enquanto que qualquer outra nação mais pequena, numa situação de deficit comercial e de endividamento idêntica, seria forçada a um reequilíbrio e ao pagamento das dívidas, em vez de, simplesmente, não pagar a dívida. Economicamente, os EUA têm vivido numa “realidade desconectada” há décadas. O seu tempo acabou”.

Numa entrevista televisiva recente, talvez num momento de falta de atenção, o Primeiro-Ministro britânico, Tony Blair, concordou com a afirmação do entrevistador de que a situação no Iraque era um desastre. O pessoal encarregado da Comunicação, do número 10 da Downing Street, tem, desde então, tentado explicar essa afirmação.

O CUSTO DAS GUERRAS BUSH

O Serviço de Pesquisa do Congresso avança números, relativamente ao custo da ocupação do Iraque, do Afeganistão e de outras actividades de terror, na ordem dos 507 biliões de dólares. A campanha norte-americana afegã custou, pelo menos, 88 biliões de dólares; o Iraque engloba o resto dos custos. Estes custos ultrapassaram o custo da inflação-ajustada da Guerra da Coreia, que foi de 361 biliões de dólares. Em 2007, os números ultrapassarão, certamente, os 531 biliões de dólares gastos no Vietname e aproximar-se-ão, apenas, dos custos dos EUA (uma vez mais, a inflação-ajustada), durante a II Guerra Mundial.

CORTAR E FUGIR – ESTILO GOP

A nova maioria democrática no Congresso terá de fazer face a um negócio do orçamento militar, inacabado, norte-americano, superior a 460 biliões de dólares. A presente maioria republicana no Congresso deseja, simplesmente, continuar a “gastar” resoluções em vez de assinar os seus nomes nas facturas. Isto quer dizer que o Partido Republicano “cortou” e “fugiu” das suas responsabilidade fiscais, relativamente às guerras que o Presidente do seu Partido iniciou. Tal é um problema a resolver pelos Democratas quando estes chegarem, em Janeiro de 2007. No início de 2007, o Presidente Bush enviará uma conta ao Congresso que poderá exceder os 130 biliões de dólares, consequência das contínuas guerras travadas no Iraque e no Afeganistão.

VIVER NUMA REALIDADE DESCONECTADA

Por todo o mundo anglófono vivemos tempos de moralidade absurda. Os criadores desta absurdidade são 3 homens – George Bush, Tony Blair e o australiano John Howard, o qual enviou uma pequena equipa de Aussie Diggers para o Iraque. Esses homens são os responsáveis pela morte de dezenas de milhares de pessoas. A invasão e ocupação que fizeram no Iraque tornaram esta terra, situada entre os dois rios da Mesopotâmia, num ossuário.

Quer tomemos em consideração o estudo de Lancet que avança o número de 655.000 mortos, no Iraque, quer consideremos a última estimativa do governo iraquiano que avança com o número de 150.000 mortos ou, ainda, a estimativa de Bush de 30.000 mortos iraquianos (números fornecidos publicamente, há aproximadamente um ano), a questão principal continua a ser a de que esses homens são os responsáveis por uma terra de chacina e de morte.

Porque será, então, que esses homens continuam a ser tratados pela sociedade civil com gentileza, e mesmo com respeito, como Chefes de Estado e de governo, no mundo anglófono? Na verdade, esses homens são os responsáveis por um morticínio.

A GUERRA LONGE E A PAZ AQUI

Viver nas sociedades civis do mundo anglófono – especialmente, nos EUA, na Grã-Bretanha ou na Austrália – é viver como se não existissem guerras, excepto nos noticiários. As pessoas continuam a sua vida de todos os dias como se a chacina no Médio Oriente não existisse. Estas pessoas não fazem face a taxas de guerra nem a um racionamento que, normalmente, acompanham uma guerra. O recrutamento obrigatório é, também ele, inexistente, mesmo se de tal se começa, agora, a falar nos EUA. Em tempos de sanidade económica, um governo que faz a guerra deve constringir o consumo, para que possa utilizar todos os seus recursos. Deve, ainda, aumentar as taxas, recrutar jovens, homens e mulheres, e decretar trabalho obrigatório devido à guerra.

O CRÉDITO GLOBAL E AS INTERMINÁVEIS GUERRAS NO ESTRANGEIRO

No Domingo, 26 de Novembro de 2006, a guerra norte-americana no Iraque entrou no seu 1347° dia, o que excede o envolvimento dos EUA em toda a II Guerra Mundial. Continuamos, por outro lado, a não ser capazes de ver um fim para as duas guerras que os EUA iniciaram no Iraque e no Afeganistão. Economicamente, a Administração Bush patrocina as suas guerras, não através do aumento de taxas, mas através de empréstimos assustadoramente elevados, como o mostra o seu actual deficit.

A economia dos EUA, a economia civil, afunda-se nos seus empréstimos elevadíssimos, como o aumento das dívidas privadas, nos EUA, também o demonstram. A combinação destes dois tipos de empréstimo aparece no comércio dos EUA e nos deficits da conta corrente com o resto do mundo, sendo financiado pela China, pela Índia e pelo resto dos países “desenvolvidos” do mundo, assim como pela economia do “3° Mundo”. Historicamente, este novo fluxo do dinheiro é exactamente o contrário do que acontecia nos velhos tempos. Antes, era o capital das nações ricas que exportava capital para as nações menos desenvolvidas. Hoje, as nações pobres em capital exportam o que ganham com as suas exportações para o supostamente capital “rico” dos EUA.

O PONTO PERIGOSO DOS EUA – O FLUXO DE DINHEIRO

O Departamento do Tesouro verificou que o fluxo líquido do capital dos EUA, a longo termo, caiu para 65.1 bilião de dólares, em Setembro de 2006, depois de uma revisão de 114.4 biliões de dólares, em Agosto. O deficit comercial dos EUA era de 6.8%, em Setembro, totalizando, então, 64.3 biliões de dólares. Isto é um número que merece atenção! Em Setembro, houve dinheiro suficientemente fresco que entrou no sistema financeiro dos EUA para prover de fundos o deficit comercial desse mês. No entanto, quando esta situação mudará e fundos estrangeiros insuficientes entrarão nos EUA, para prover de fundos os seus deficits externos, o alarme soará em todo o mundo da finança. A partir desse momento, a Administração Bush não poderá financiar as suas guerras externas nem o consumidor americano poderá financiar o seu consumo. Quando um escoamento (outflow ) de fundos estrangeiros, por enquanto colocados no interior dos EUA, começar, será, então, seguido por uma devastação financeira, monetária e económica.

Qualquer escoamento (outflow) substancial de fundos estrangeiros levará a que um controle apertado das condições de crédito seja feito, no interior dos EUA. Quando muitos dos actuais credores (holders) estrangeiros de dólares americanos decidirem partir, o valor da venda do dólar americano cairá no mercado internacional. Em termos económicos, o FED será confrontado com a alternativa de defender o dólar americano com taxas de interesse superiores e, desta forma, enviar a economia dos EUA para uma recessão certa, ou com a alternativa de defender a economia interna dos EUA, através da baixa das taxas de interesse, o que acelerará o voo de capitais estrangeiros e colocaria, dessa forma, o dólar americano numa situação de risco. Essa situação é, no actual momento, inevitável.

UMA NOTA DE AVISO GLOBAL

O afluxo (inflow) de capital líquido a longo termo, no mês de Setembro de 2006, não foi suficiente para cobrir o deficit da conta corrente dos EUA, a qual se elevou a 70 biliões de dólares, por mês. Em Setembro, os EUA estavam em deficit relativamente aos fluxo (flow) do financiamento internacional, consequência dos seus duplos deficits – o deficit da conta corrente e o deficit comercial. Esta é uma outra versão da realidade desconectada – desta vez, no campo da finança norte-americana.

Encontrar a causa de tal situação não é difícil. A Administração Bush atingiu o limite máximo (ceiling) da dívida nacional dos EUA, que de 5.95 TRILIÕES de dólares, em 2001, passou para 8.7 TRILIÕES de dólares, em 2006. Tal representa um aumento de 3 TRILIÕES de dólares, ou seja, de 51% em 5 anos. O problema é que as pessoas em Washington pensaram que esta “política” da dívida poderia continuar indefinidamente.

DIRECTAMENTE DA BOCA DO CAVALO

Dizem que nos dizem, mas escondem sempre. Um relatório recente feito pelo “New York FED” alertou para o facto de que cada uma das 6 recessões (reconhecidas como tal), desde 1968, foram precedidas pela queda do rendimento do Tesouro dos EUA, nos dez anos precedentes, durante períodos superiores a três meses.

O crunch completo é atingido 12 meses depois como consequência dos efeitos tardios do “emagrecimento” monetário. “Não houve falsos sinais” – disse o relatório FED. A curva americana relativa aos rendimentos é negativa há três meses e meio. Se o “New York FED” tem razão, uma recessão económica em 2007 é certa.

CONHECER AS VERDADEIRAS ESCALAS DA ECONOMIA REAL

Em 2005, último ano a cujos dados temos acesso, todos os novos empréstimos privados feitos pelas famílias (households) americanas elevam-se a 1.241 TRILIÕES de dólares. O Fed estimou, ainda, que a queda da equidade das hipotecas (mortgage) excedeu os 700 biliões de dólares anualizados durante a primeira metade de 2006. O que é necessário, aqui, notar é que o total desta soma emprestada pelos consumidores americanos eleva-se a 11% do total da economia americana, numa base GDP.

Actualmente, devido ao estouro da bolha de habitação americana, a chance de os americanos poderem utilizar as suas casas como uma máquina de multibanco, em 2007, será pequena. O gasto dos consumidores representa 70% da economia americana. Se os consumidores não puderem emprestar, então não poderão gastar, o que levará a uma recessão profunda.

Em termos duros, se os americanos que emprestam, que gastam e que consomem tivessem de, repentinamente, deixar de fazer empréstimos, toda a economia americana contrair-se-ia mais de 10%. Esta queda/recessão seria mais profunda do que qualquer outra das recessões que os EUA sofreram desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Uma tal recessão económica teria, principalmente, dois efeitos secundários. O primeiro, seria uma grande contracção dos afluxos (inflows) federais e estatais, o que conduziria a uma explosão certa dos orçamentos dos deficits, tanto ao nível federal como ao nível estatal. O segundo efeito seria uma onda de falências pessoais, familiares e outras, o que abalaria as bases de todo o sistema financeiro mundial. Qualquer sistema financeiro de uma nação torna-se “crítico” (ou seja, desfaz-se (meltdown)) quando os maus empréstimos (bad loans) excedem o próprio capital daqueles que emprestam.

UM PEQUENO INTERLÚDIO NAS RESERVAS FRACCIONAIS BANCÁRIAS

O seu início moderno verificou-se na velha cidade de Londres. Os banqueiros de Lombard Street descobriram que as notas que escreviam às pessoas que neles tinham depositado dinheiro (por exemplo, “O Sr. Smith depositou a soma de 10 libras, em moeda”) começou a ser utilizado pelos seus próprios clientes como uma forma de “moeda alternativa”. Não demorou muito tempo até que muitos destes banqueiros começassem a fazer circular as suas próprias notas bancárias – todas diziam: “Pagar ao Titular desta nota a soma de 10 libras, em moeda”. Depois, os banqueiros descobriram que com essas notas circulando livremente na cidade, era fácil pôr em circulação algumas notas adicionais como empréstimos. Estas eram notas descobertas. Os banqueiros não tinham, com eles, moeda suficiente para reembolsar/amortizar todas as notas emitidas. A reserva fraccional bancária tinha, então, nascido.

Com ela nasceu, também, o “ciclo de crédito”, ou seja, períodos durante os quais havia mais novos créditos do que pessoas a pagarem empréstimos por liquidar. Esta situação trouxe com ela expansões de crédito e o “boom and bust” (prosperidade e estouro) do ciclo económico.

Actualmente, os bancos estão muito mais desenvolvidos do que nesses primeiros tempos da finança. Hoje, o FED afirma que os bancos americanos deveriam depositar 10% de todos os seus empréstimos – as “reservas”. O BIS, o Bank for International Settlements, afirma que os bancos deveriam conservar 8% do seu próprio capital para compensar o total dos empréstimos feitos. No entanto os bancos podem, eles próprios, emprestar 4% desse valor. Isto significa que os bancos internacionais possuem um capital, que lhes pertencente de facto, que equaliza 4% de todos os empréstimos feitos.

Imaginem, então, queridos leitores, o que aconteceria se esses bancos perdessem 10% do total dos seus empréstimos por liquidar.

Acrescente-se que com as reservas fraccionais bancárias, apenas uma parte daqueles que neles fizeram depósitos poderão ter o seu dinheiro de volta.

O Z-1 DO RELATÓRIO DO FED AS RESERVAS FRACCIONAIS BANCÁRIAS

O relatório Z-1 do FED que saiu a 19 de Setembro de 2006 refere algo que merece a nossa atenção. Revela o desastre da dívida americana em estatísticas bem claras. Voltando ao ano de 1999, verificamos que o total da dívida das famílias por liquidar era de 6.4 TRILIÕES de dólares. No final do segundo quarto de 2006, essa mesma dívida elevava-se a 12.3 TRILIÕES de dólares. O que significa que 5.9 TRILIÕES de dólares do novo poder de compra monetário e financeiro foi decantado do sistema financeiro americano nestes últimos anos. Apenas um sistema de reserva bancária torna tal situação possível. Os novos empréstimos podem ser criados a partir de várias reservas existentes.

Voltando ao ano de 2000, quando os lares americanos valiam 11.4 TRILIÕES de dólares, em contrapartida havia apenas 4.8 TRILIÕES de dólares de hipotecas. No segundo quarto de 2006, essa dívida hipotecária aumentou para 9.3 TRILIÕES de dólares. Na verdade, a valor do stock americano de casas é, actualmente, estimado entre 20 e 22 TRILIÕES de dólares; tal significa, apenas, que o sistema financeiro americano descobriu uma nova “magia” económica. Esta é uma maneira de aumentar a saúde económica do Homem fora do fraco ar dos empréstimos, as quais custam aos seus criadores apenas algumas entradas de computador. Mas se isto realmente funcionar, o sistema financeiro americano conseguiu ultrapassar o problema económico fundamental do Homem – o da escassez. O facto de os bens reais
económicos não serem ilimitados é o que dá valor aos bens económicos. Se os bens económicos são ilimitados – como o ar que respiramos -, então, esses bens (pelo menos por enquanto) não têm valor.

ILIMITADOS EMPRÉSTIMOS – BENS LIMITADOS – NÃO É PRECISO ECONOMIZAR

Voltando ao ano de 2005, a taxa líquida americana das economias feitas – que combina as economias feitas pelos indivíduos, individualmente considerados, pelos negócios e pelos sectores governamentais – caiu para um recorde de 0,1% do rendimento nacional.

Este é, também, um baixo recorde para uma qualquer economia global liderante, e a mais baixa da história moderna do mundo.

O RESTO DO MUNDO ADQUIRE MAIS IOUs AMERICANOS

O relatório Z-1 do FED revela, ainda, dados financeiros interessantes. Relata o que o mundo possui dos activos/fundos financeiros do dólar americano. No fim do segundo quarto de 2006, o número aumentou para 11.6 TRILIÕES de dólares! No início de 2003, o número era de 7.6 TRILIÕES de dólares. Combinando os dois parágrafos anteriores num só, fica claro que um é a imagem do outro. A conta corrente combinada dos EUA e os deficits do comércio deixam visíveis as dívidas que a actual economia norte-americana deve ao resto do mundo. Essas dívidas têm a forma de activos/fundos financeiros americanos. Essas dívidas podem ser tanto dólares americanos mantidos em contas estrangeiras como papéis de dívida do Tesouro, stocks ou títulos de crédito de todos os tipos que os credores dos EUA escolheram comprar com os dólares que ganharam.

NO ANTRO DO JOGADOR

O último relatório feito pela Swaps and Derivates Association (ISDA) revela que o total do volume por liquidar das derivativas do crédito over-the-counter aumentou de 3.5 TRILIÕES de dólares, em 1990, para 63 TRILIÕES de dólares, em 2000, e para mais de 283 TRILIÕES, este ano. O total das trocas comerciais e dos instrumentos financeiros estruturados do over-the-counter foi de 27.3% do GDP global, em 1990. Este ano é de 772.8%. O BIS refere que o mercado global de derivativas atingiu o recorde de 370 TRILIÕES de dólares, na primeira metade de 2006.

O QUE a economia americana actual produz

Durante este ano, aproximadamente 4.5 TRILIÕES de dólares de bens manufacturados serão produzidos no interior dos EUA.

Os dados previstos para os primeiros 9 meses deste ano mostram, igualmente, que os EUA importarão outros 1.4 TRILIÕES de dólares de bens e que exportarão aproximadamente 775 biliões de dólares, o que significa que os EUA gozarão de um stock total de bens manufacturados que representará 5.1 TRILIÕES de dólares na economia americana. Os dados críticos aqui citados dizem respeito ao actual output (saída) americano de 4.5 TRILIÕES de dólares e aos bens importados de 1.4 TRILIÕES de dólares. Estes números mostram-nos que se os EUA tivessem de contar apenas com o seu próprio output, a soma total dos bens produzidos e disponíveis para consumo, no interior dos EUA, contrair-se-ia em 31%. Inversamente, tais números também nos indicam que aproximadamente 1/3 do actual nível (standard) de vida americano é manufacturado por estrangeiros.

A questão central é a de que o output dos EUA no valor de 4.5 TRILIÕES de dólares é, na verdade, a economia americana.

É a verdadeira economia dos EUA que não só tem de fornecer aos americanos os seus bens de consumo como também tem de produzir bens manufacturados americanos que sejam exportados para o resto do mundo, de forma a prestar um serviço às enormes dívidas que os EUA actualmente possuem, no mundo. Esta questão demonstra-nos a evidência de que nenhuma nação pode suster indefinidamente um nível (standard) de vida superior em 1/3 ao seu próprio output nacional. O que se segue é conhecido; após um período de deficits comerciais e das inerentes dívidas externas, nenhuma nação pode (re)ganhar a balança nas suas trocas comerciais com o estrangeiro. Tal nação deverá, então, voltar-se para um comércio de surplus (excesso) com o resto do mundo, de forma a compensar a sua dívida acumulada. Finalmente, para resolver a situação, a nação que em tal situação se encontra, deverá conseguir um mercado de surplus (excesso) suficientemente grande para poder PAGAR a dívida que acumulou.

QUANDO A ECONOMIA INTERNA DOS EUA SE REEQUILIBRA

Uma nação que sofre de deficits crónicos, no comércio e conta corrente, tentará, de forma a resolver a situação, diminuir o consumo interno. Tal significa que os actuais níveis (standards) de vida terão de baixar, pois ter-se-á de criar um stock de bens de consumo económicos não consumidos, disponíveis para exportação. Uma vez que estes bens estarão disponíveis, terão de ser exportados, o que não aporta nenhum benefício económico directo, pois o dinheiro ganho logo é enviado para aqueles que emprestaram dinheiro à nação. O único benefício directo ganho é o de que a dívida baixa ligeiramente. No caso actual do deficit do comércio global americano no valor de 800 biliões de dólares americanos, ter-se-iam que retirar 800 biliões de dólares aos 4.5 TRILIÕES de dólares da presente economia americana e exportá-los. Esta situação requer, no entanto, uma queda interna no nível de vida americano na ordem dos 17.7%. Esses bens americanos não estariam disponíveis para consumo interno mas sim para exportação. Em termos de economia real, estas são mudanças massivas futuras na economia interna dos EUA. Mas, historicamente, todo o passado da história económica humana mostra-nos que tais mudanças aconteceram, apenas, depois de deficits comerciais prolongados contraídos por uma nação.

NÃO! NÃO PAGAREMOS

Existem, apenas, duas alternativas históricas para ultrapassar uma situação de deficit comercial. Uma, a de que a nação endividada escolha não pagar as suas dívidas externas, causando um massivo caos financeiro global, no seu interior; a outra, a de que a nação endividada escolha fazer a guerra, juntamente com os seus credores, em vez de pagar a dívida. Qual destas escolhas fará os EUA é, ainda, algo que não sabemos; são, no entanto, as únicas duas possibilidades disponíveis. Uma nação pode, por um lado, reequilibrar-se e, então, pagar as dívidas, pode não pagar a dívida ou pode partir para a guerra. O problema é que os EUA possuem todos os meios estratégicos para fazer a guerra, enquanto que qualquer outra nação mais pequena, numa situação de deficit comercial e de endividamento idêntica, seria forçada a um reequilíbrio e ao pagamento das dívidas, em vez de, simplesmente, não pagar a dívida. Economicamente, os EUA têm vivido numa “realidade desconectada” há décadas. O seu tempo acabou.

Fonte: “The Privateer”, 2006 Volume – Novembro – Número: 566.

* Tradução de Ana Saldanha

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço deste texto e o de odiario.info entre os teus amigos e conhecidos