Sindicatos britânicos comprometem-se pela primeira vez a confrontar o ‘apartheid’ israelita

Bernard Regan    14.Oct.20    Outros autores

Não teve suficiente divulgação esta importantíssima decisão do recente Congresso dos Sindicatos Britânicos. Importante pelo seu significado e repercussão futura, igualmente importante por ser tomada num dos países em que é mais violenta a campanha que pretende fazer equivaler anti-sionismo a anti-semitismo. Um muito valioso reforço na solidariedade internacionalista para com o povo palestiniano, que justifica e merece a solidariedade dos trabalhadores de todo o mundo.

Uma moção do Congresso Sindical Britânico instando os seus membros “a unir-se à campanha internacional para deter a anexação e acabar com o apartheid” poderia encorajar os sindicatos de todo o mundo a desempenhar um papel importante no movimento internacional de solidariedade para com a Palestina, tal como fizeram contra o Apartheid na África do Sul.

Em 15 de Setembro, o Congresso Anual dos Sindicatos (Trade Union Congress, TUC), representando cerca de 6 milhões de membros no Reino Unido, aprovou uma moção que reafirmou a sua solidariedade com a luta do povo palestiniano pelo direito à autodeterminação, condenando a ocupação e as políticas expansionistas do governo israelita.

A resolução expressou oposição aberta às ambições anexionistas do governo de Netanyahu, apoiado pela administração dos Estados Unidos e apelou ao fim da cumplicidade do governo britânico. Exigindo a cessação do bloqueio de Gaza e apoio ao “direito de regressar dos refugiados palestinianos”, comprometeu o TUC a “comunicar a sua posição a todas as outras centrais sindicais nacionais nas Confederações Sindicais Europeia e Internacional e exortá-los a aderir à campanha internacional para deter a anexação e pôr fim ao apartheid”.

O que é distintivo na resolução é que, ao apelar ao fim do “apartheid”, identificar as práticas do Estado israelita em relação ao povo palestiniano como institucionalmente discriminatórias, contestando assim a normalização de relações actualmente adoptada, por exemplo, pelos Emirados Árabes Unidos e pelo Bahrein e promovida pela Casa Branca.

O internacionalismo tem uma longa tradição no movimento sindical britânico. Na década de 1860, os operários das fábricas na área de Manchester recusaram-se a trabalhar com algodão importado produzido por mão de obra escrava nos estados do sul dos Estados Unidos, apesar das dificuldades que, em consequência, as suas famílias sofreram. Voluntários, muitos do movimento sindical, lutaram na Guerra Civil Espanhola contra os fascistas. Na década de 1960, os sindicalistas foram dos primeiros a responder ao apelo do Congresso Nacional Africano para um boicote à África do Sul. É esta tradição que encontra eco na solidariedade expressa ao povo palestiniano.

Quando posta em prática, a decisão do TUC pode constituir uma significativa contribuição para a construção do movimento de solidariedade internacional e encorajar sindicatos em todo o mundo a desempenharem um papel importante na campanha, como fizeram na campanha contra o Apartheid na África do Sul.

O compromisso do TUC foi o produto do trabalho de apoiantes da Campanha de Solidariedade à Palestina e de sindicalistas ao longo de muitas décadas. Os sindicatos foram reconhecidos como importantes devido ao seu potencial de ganhar milhões de pessoas para a campanha por justiça para os palestinianos. Acresce que os sindicatos são significativos porque alguns são filiados ao Partido Trabalhista e podem, portanto, dar uma contribuição vital para garantir que a voz dos palestinianos e de seus apoiantes não é silenciada por apologistas pró-Netanyahu dentro do próprio Partido.

Ao longo de mais de três décadas, esse trabalho resultou em a Palestina deixar de ser preocupação de uma pequena minoria, para se tornar uma causa com apoio esmagador nos sindicatos. Embora tenham ocorrido avanços num pequeno número de sindicatos no início da década de 1990, o apoio da maioria dos sindicatos foi cimentado pela adopção de uma moção em 2006 que definiu a agenda política para os anos subsequentes.

A moção, apresentada pelo Sindicato dos Bombeiros, expressou apoio a:
• o direito do povo palestiniano à autodeterminação;
• o direito dos refugiados palestinos de regressar à sua terra natal;
• a retirada das tropas israelenses de todos os territórios ocupados; e
• a remoção do “muro do apartheid” ilegalmente construído.

A partir daí, o TUC encorajou todos os seus sindicatos a filiarem-se na Campanha de Solidariedade com a Palestina (PSC), e desde aquela data houve inúmeras reuniões de ramos sindicais que ouviram oradores palestinianos e delegações britânicas que regressavam discutir a situação do povo palestiniano. Centenas, senão milhares, de sindicalistas visitaram a Palestina histórica, encontrando-se com trabalhadores, comunidades e activistas para se informarem melhor sobre as questões resultantes das brutais acções do Estado israelita e da sua tropa. Essas viagens incluíram encontros com uma ampla gama de activistas palestinianos e visitas a muitos campos de refugiados, centros culturais, escolas, universidades, pessoas enfrentando a demolição de habitações, crianças presioneiras, membros de comunidades beduínas e activistas palestinianos no interior de Israel.

Esta coorte de peso, trazendo o seu próprio conhecimento em primeira mão da situação, tornou-se eficaz defensora da causa palestiniana e mobilizadora para acções empreendidas pelo PSC. Sempre que possível, procuraram desenvolver essa solidariedade política em acções práticas de apoio humano.
Os sindicatos têm estado centralmente envolvidos na campanha contra todas as formas de racismo, incluindo contra a islamofobia e apoiando as mobilizações em torno de Black Lives Matter. Ao mesmo tempo, aqueles que apoiam os palestinianos entendem que não há contradição entre a oposição militante ao anti-semitismo enquanto mantém uma posição de apoio intransigente aos direitos dos oprimidos palestinianos.

O desafio agora é continuar a desenvolver este trabalho, apelar no Partido Trabalhista a que assuma esta campanha e exigir que os governos britânicos acabem com a sua cumplicidade com a opressão do governo israelita ao povo palestiniano e rejeitem a intervenção do presidente Trump ou de qualquer futura administração dos EUA no sentido de frustrar o direito do povo palestiniano à autodeterminação.

Fonte: https://mondoweiss.net/2020/10/in-a-first-british-trade-unions-commit-to-challenging-israeli-apartheid/

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