Sinkiang, um pequeno exercício de verificação!

Michele Janss    23.Jul.20    Outros autores

Há muito que, para o imperialismo EUA e seus aliados e lacaios, a guerra se conduz também no terreno noticioso e mediático. Como a China é agora um dos grandes alvos, recrudescem as campanhas. Uma das actuais é sobre a “esterilização” forçada das mulheres uigures. A sua origem, obviamente, é uma instituição ligada à CIA, mas isso não impede a ampla difusão global de tal coisa. Ou, talvez melhor: é principalmente isso que justifica o empenhado envolvimento dos media dominantes nessa campanha.

Um estudo recentemente publicado e difundido pelas agências de notícias afirma que a China realizaria na sua região de Sinkiang uma política extremamente coercitiva de controlo de natalidade, com esterilizações forçadas visando principalmente a comunidade uigur.

De onde vem esta informação?

A imprensa retomou amplamente e comentou este anúncio. Algumas mulheres teriam sido forçadas a implantar um DIU. Como o DIU é um método contraceptivo muito mais facilmente reversível do que uma injeção de hormonas, por exemplo, estamos longe da esterilização. Essa contradição nos termos deveria alertar-nos para a seriedade deste estudo. Ultimamente, temos visto muitas declarações falsas, exageradas ou contraditórias sobre a China, a situação internacional é tensa, não seria preciso mais para colocar algumas questões. A primeira: de onde vem então esta nova onda de informações sobre a China que de repente invadiu os media?

A aprofundada investigação da Associated Press que pretende revelar a situação no Sinkiang provem afinal de um único relatório, publicado pela Jamestown Foundation e assinado por Adrian Zenz. Este é apresentado como “investigador independente”, antropólogo e supervisor na Escola Europeia de Cultura e Teologia.
Analisemos um pouco.

Fonte

A investigação foi publicada pela Jamestown Foundation (1), que se define como um grupo de reflexão cuja missão é informar e educar os decisores sobre os acontecimentos e as tendências em sociedades que são estratégica ou tacticamente importantes para os EUA. A China e a sua província de Sinkiang são, portanto, reconhecidas aqui como tacticamente importantes para os EUA. Todavia, a fundação foi objecto de critica pelos seus supostos vínculos com a CIA. Nos anos 80, contava entre os seus directores Dick Cheney e a esposa de Frank Carlucci, então nº 2 da CIA. O seu actual presidente, M. Howard, trabalhou para Zbigniew Brzezinski (2), bem como na Embaixada dos Estados Unidos em Moscovo. A Jamestown Foundation é abertamente anti-russa, anticomunista e tem laços estreitos com os neoconservadores norte-americanos.

Nas numerosas declarações à imprensa sobre Sinkiang, nunca há é feita menção da origem puramente “think tank pro EUA” das informações.

Quem é Adrian Zenz?

Adrian Zenz, é apresentado como investigador independente, detentor de um doutoramento e supervisor na Escola Europeia de Cultura e Teologia (3) em Korntal, Alemanha, especializado em políticas chinesas relativas às minorias étnicas na China. Mas Zenz é também é um “born again christian” (”cristão nascido de novo”), declarando-se em conexão com Deus. Os adeptos “nascidos de novo” costumam, ao que parece, afirmar ter uma relação pessoal com Jesus Cristo. Zenz anuncia a queda do capitalismo e vincula as ideias actuais sobre igualdade de gênero e a proibição de castigos corporais ao poder do Anticristo (4).

Seria também investigador na Victims of Communism Memorial Foundation. Quanto à Escola Europeia de Cultura e Teologia, onde ele trabalharia, ela declara oferecer um programa de ensino desenvolvido por missionários para missionários que permite “reflectir sobre as questões teológicas sob a autoridade das Escrituras”. Estamos longe de trabalhos universitários científicos!

Os media “descodificadores” não descodificam

No entanto, os media apresentaram este trabalho com a maior seriedade, sem revelar a personalidade do autor e o contexto da sua publicação.

Contentando-se com um “investigador alemão”, os canais informativos dominantes não parecem ter analisado a origem das declarações sobre Sinkiang.

Liberation, Express, France 24, RTL (e tantos outros) qualificam simplesmente Adrian Zenz como investigador alemão ou como especialista em políticas chinesas. “O investigador alemão independente Adrian Zenz foi um dos primeiros a apresentar indícios convincentes sobre existência de uma rede de campos de internamento no Sinkiang” (5), pode ler-se no Le Monde. Para uns media que pretende “descodificar” a informação e aconselhar, através do seu decodex o leitor inocente, não se pode dizer que a verificação das fontes seja sistematicamente aplicada! Quando uma agência noticiosa publica um tal comunicado, ele é reproduzido por um grande número de jornais e entregue sem prevenção aos leitores. O que gera, num círculo verdadeiramente vicioso, um grande número de artigos cuja fonte é Zenz, criando assim artificialmente, pela lei da quantidade, um “especialista”.

Entre as algumas raras publicações mais claras, o Wall Street Journal revela (6): KORNTAL, Alemanha - As investigações de um antropólogo “cristão nascido de novo “que trabalha sozinho num exíguo escritório num subúrbio alemão mergulharam a China e o Ocidente num de seus maiores confrontos sobre direitos humanos desde há décadas”. É quase o único jornal que não apresenta Zenz como investigador ou especialista. Interrogamo-nos por outro lado se o seu escritório é realmente exíguo …

Vejamos como a RTBF (rádio e televisão belga francófona) tratava o assunto dos internamentos em Março de 2019:
“Desde 2014, o Sinkiang aniquilou 1.588 grupos violentos e terroristas, prendeu 12.995 terroristas, apreendeu 2.052 artefactos explosivos, sancionou 30.645 indivíduos culpados de 4.858 actividades religiosas ilegais e confiscou 345.229 cópias de material religioso ilegal”, de acordo com o documento do governo. Estes números não puderam ser verificados independentemente pela AFP. (…)

Segundo Adrian Zenz, perito em segurança na China na European School of Culture and Theology (Alemanha), existiriam agora até 1,5 milhões de pessoas internadas no Sinkiang. Este número “baseia-se no facto de que existe toda uma gama de diferentes estruturas de internamento, muitas das quais tiveram uma expansão espectacular em 2017, mas também em 2018 (…) e nas taxas crescentes de internamento entre Cazaques e outras pequenas minorias muçulmanas”, disse ele à AFP. (7)

Existem portanto números do governo chinês, duvidosos porque não podem ser verificados. Em contrapartida os números de Adrian Zenz, apresentado aqui como perito, não são qualificados como igualmente inverificáveis e poderiam mesmo ser explicados por toda uma gama de estruturas de internamento, de resto não especificadas.

Um novo pretexto manhoso?

Os Estados Unidos declararam abertamente guerra à China. Ora, como nos recorda o bem conhecido ditado, a primeira vítima da guerra é a verdade. Instrumentalizar a sorte de minorias para desestabilizar um país? Em Washington não falta experiência. Portanto, é aconselhável dar provas de espírito crítico face à molhada de informações sobre a China, sobretudo quando a fonte é tão duvidosa.

O Sinkiang tem sem dúvida sido teatro de numerosos atentados islamistas e o separatismo uigure, num contexto de guerra comercial entre a China, os EUA e a UE, agrada ao campo ocidental. Resta esperar que um “born again christian” não venha colocar um qualquer pretexto-tipo-Colin-Powell debaixo do nariz de políticos guerreiros gulosos de confrontos armados, punitivos ou comerciais.

Notas:
1 https://jamestown.org
2 Destacado artesão da política externa agressiva dos EUA (apoio aos mujahidins afegãos), autor de «O grande tabuleiro de xadrez» e «The Choice: global Domination or Global Leadership»
3 Mas não se encontra o nome de Adrian Zenz no site da escola: https://www.awm-korntal.eu/page/european_school_of_culture_and_theology.html
4 Zenz, Adrian; Sias, Marlon L. (November 2012). Worthy to Escape: Why All Believers Will Not Be Raptured Before the Tribulation. WestBow Press. pp. 30–47. ISBN 978-1-4497-6906-2.
5 https://www.lemonde.fr/international/article/2019/11/25/ouigours-le-but-des-centres-de-reeducation-est-d-endoctriner-et-de-changer-une-population-entiere_6020408_3210.html
6 https://www.wsj.com/articles/the-german-data-diver-who-exposed-chinas-muslim-crackdown-11558431005
7 https://www.rtbf.be/info/monde/detail_la-chine-dit-avoir-arrete-pres-de-13-000-terroristes-au-xinjiang?id=10173911

Fonte: https://www.investigaction.net/fr/xinjiang-petit-exercice-de-verification/

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