Síria: O escândalo dos «Grupos armados não estatais» do sr. Ban Ki-Moon

Bachar al-Jaafari*    09.Nov.15    Outros autores

Realizou-se em 27 de Outubro de 2015 mais uma reunião do Conselho de Segurança da ONU consagrada à situação na Síria. O secretário-geral adjunto para as questões humanitárias, Stephen O’Brien, tomou como base o relatório mensal preparado sob os auspícios do seu chefe, Ban Ki-Moon. Mais uma vez o enviado permanente da Síria junto da ONU teve que desmontar o conteúdo de mais um relatório tendencioso, descrever a situação real e dar às coisas o seu verdadeiro nome. Publicamos essa intervenção.

Senhor Presidente
«A loucura consiste em fazer sempre a mesma coisa e esperar um resultado diferente», dizia Einstein. Contudo, sessenta anos passados sobre o seu falecimento, certos governos não parecem ter interiorizado esta verdade e persistem em cometer os mesmos erros, assentes sobre os mesmos cálculos errados, esperando a cada vez obter resultados diferentes
Está provado que a ingerência externa nos assuntos internos dos Estados apenas conduz à sua destruição, engendrando em consequência crises humanitárias e o caos, transformando-os em fábricas de produção de extremistas e de terroristas.
Foi exactamente o que se passou quando destruíram o Iraque, a Líbia e outros países. É exactamente aquilo que se passa desde que expediram contra nós Daech, Jabhat al-Nosra, Khorassan e outros ainda; com o terrorismo a possuir, doravante, um Estado ou um Califado, como alguns gostam de o qualificar.
Apesar disso, os mesmos governos que já se depararam com a lógica que diz que as mesmas causas produzem os mesmos efeitos insitem em aplicar à Síria a mesma receita envenenada e a utilizar os mesmos slogans mentirosos, ignorando as devastações que se têm sucedido à sua ingerência, cuja amplitude é reconhecida por todos, incluindo por aqueles que as planificaram. São testemunho disso as recentes declarações do ex. primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Tony Blair reconhecendo, vinte e dois anos depois da invasão do Iraque pelos Estados Unidos, que ela se fundamentava em «informações falsas» e mentirosas.
Estamos claramente na obrigação de constatar, catorze anos depois do ataque terrorista contra o World Trade Center em Nova Iorque, que as estratégias postas em prática no quadro da «Guerra contra o terrorismo» criaram cem Bin Laden em vez de um, e que dezenas de organizações em vários países adoptaram a ideologia da Al-Quaeda, em vez de uma só no Afeganistão, e que o terrorismo se propagou até aos países dos seus próprios criadores e promotores.

Senhor Presidente,
A situação humanitária na Síria decorre desta mesma constatação, sendo sabido que certos governos pretendem querer remediá-la ao mesmo tempo que continuam a recusar a prioridade à luta contra o terrorismo, que persistem nas suas medidas económicas unilaterais e coercivas contra o povo sírio, que continuam a denegrir o papel do governo sírio a ponto de recusarem a sua oferta de coordenação tanto no plano da assistência humanitária como no da sua guerra contra o terrorismo. De tal forma que, passados dentro em pouco cinco anos, está claro para o mundo inteiro que a situação e os sofrimentos do povo sírio se agravaram a tal ponto que uma parte deste povo foi obrigada a deslocar-se e mesmo a emigrar.
Por conseguinte, se queremos verdadeiramente obter resultados positivos e permanentes no que diz respeito à situação humanitária na Síria, será necessário empreender alguns passos nesta direcção.
- O primeiro passo consistiria em concentrar-nos sobre a causa principal que engendrou esta situação, ou seja, sobre a emergência e a propagação do fenómeno terrorista, sempre apoiado a partir do estrangeiro, aplicando as resoluções imperativas 2170, 2178 e 2199 do Conselho de Segurança relativas a este assunto, com a plena cooperação do governo sírio.
A obstinação daqueles cuja única preocupação é difamar o governo sírio, o presidente sírio e o exército sírio, preferindo a cooperação com o demónio terrorista à colaboração com o Estado sírio para o combater, é absurda e não tem qualquer enquadramento nas regras do pensamento e do comportamento, ou nos princípios das ciências políticas e estratégicas.
Um absurdo que se salda pela expedição, a partir de mais de uma centena de países, de dezenas de milhares de mercenários terroristas estrangeiros para a Síria e o Iraque; isto, de acordo com nove relatórios saídos deste respeitado Conselho e dos Comités de luta contra o terrorismo que lhe estão ligados .
Com efeito, Daech, Jabhat al-Nosra e as suas irmãs não vieram do nada, vieram daqueles qua adoptaram, financiaram, treinaram, facilitando o seu transporte nos seus aeroportos e fronteiras, disponibilizando os vistos necessários, ajudando-os a movimentar através de mediadores turcos o petróleo e as antiguidades roubadas. Não podem ser qualificados de «oposição síria armada não estatal». Não são outra coisa senão «terrorismo internacional»!
Por conseguinte, é necessário acabar com este tipo de expressões inexactas, do mesmo modo que com as práticas de certos governos que continuam a financiar, armar e treinar estes terroristas.
Não pode falar-se de acabar com os sofrimentos dos sírios, e portanto com a crise humanitária na Síria, fazendo silêncio sobre a actuação da Turquia e da Jordânia que continuam a fazer dos seus territórios lugar de residência e de passagem para mercenários terroristas estrangeiros.
Não pode falar-se em acabar com o sofrimento dos sírios manifestando a preferência por regimes como os da Arábia Saudita, do Qatar e outros, que apoiam abertamente e muito generosamente estes mesmo terroristas, em lugar de reforçarem os fundos do «Plano de resposta humanitária». Um plano que apenas foi financiado em 35% do necessário, apesar de todos os espectaculares congressos realizados por todo o lado, ao mesmo tempo que os Estados Unidos declaram ter gasto meio milhar de milhões de dólares no «Programa de treino da oposição moderada síria», da qual apenas cinco elementos ficaram à sua disposição enquanto os outros se passaram para o campo dos terroristas de Al-Nosra, que confiscou as armas e os equipamentos que lhes tinham sido graciosamente fornecidos. Meio milhar de milhões de dólares teriam sido suficientes para preencher uma larga parcela do défice de financiamento da assistência humanitária prevista.
- O segundo passo consistiria em apoiar a guerra contra o terrorismo que ajudará a resolver a crise humanitária na Síria, contribuindo também para acelerar a solução política, que deve assentar no diálogo entre sírios e sob direcção síria, sem qualquer ingerência estrangeira, de modo que fiquem garantidas a independência, a unidade e a integridade territorial da Síria; isto de acordo com o conteúdo da declaração de Genebra, de todas as resoluções do Conselho de Segurança relativas à Síria, e antes de tudo segundo as disposições da Carta das Nações Unidas e os princípios do direito internacional.
Senhor Presidente
- A este respeito, gostaria de recordar que o governo sírio anunciou, pela voz do seu ministro dos Negócios estrangeiros, em plena Assembleia geral das Nações Unidas, o seu consentimento em participar nos «Grupos de trabalho» propostos pelo emissário da ONU na Síria, sr. Staffan de Mistura, e isto porque acreditamos na necessidade de uma solução política.
O problema reside no encarniçamento de certas partes no sentido de fazer fracassar o processo político e de apostar no estrangeiro, exactamente como foi o caso da iniciativa do sr. Mistura consistindo no «congelamento» das zonas de combate em Alepo, e antes disso quando das conversações preparatórias da Conferência de Genebra 2, e ainda antes com o plano de Kofi Annan. O que não os impede de pretenderem, injustamente, que o governo sírio rejeita a solução política quando, como deveis estar recordados, foram eles a recusar estas iniciativas.
E eis que o último relatório do Secretário-geral das Nações Unidas, que é o vigésimo da série dando conta a cada trinta dias da aplicação das resoluções 2139 / 2165 / 2191 por todas as partes do conflito na Síria é, mais uma vez, parcial e politizado, e contém numerosas lacunas e inexactidões.
Em resposta dirigimos ontem uma carta à Presidência do Conselho de segurança e também ao Secretário-geral, mas limitar-me-ei a sublinhar que este relatório omitiu os bombardeamentos aéreos da chamada «Coligação» que atingiram civis inocentes e diversas infra-estruturas na Síria: estradas, pontes, refinarias de petróleo, escolas, hospitais.
Estes ataques nem sequer pouparam a única central eléctrica que abastece a cidade de Alepo, nem um centro para crianças necessitando de cuidados especiais na cidade de Raqqa, centro que foi destruído, e dezenas das crianças ali acolhidas mortas! Tudo isto a pretexto de atacar o Daesh, quando após mais de um ano da sua guerra contra esta organização não temos assistido senão ao aumento do número destes terroristas expedido do estrangeiro e à expansão das suas zonas ocupadas.
Perante um tal relatório do Secretário-geral, a pergunta que se impõe é porque é que o Secretário-geral recorreu a fontes anónimas que, manifestamente, não procuram mais do que pescar em águas turvas e perturbar o esforço conjunto da Rússia e da Síria que se batem contra o terrorismo de Daesh, Jabhat al-Nosra e outras organizações terroristas; tendo a Rússia intervido a solicitação do governo sírio e em conformidade com as disposições da Carta das Nações Unidas e do direito internacional, o que levou ao recuo dos grupos terroristas em mais de uma das regiões que até agora controlavam?

Senhor Presidente
Para concluir, recordarei que a expressão «Grupos armados não estatais» para designar terroristas é, só por si, um escândalo, porque o mapa do terrorismo na Síria a contradiz tanto quanto os relatórios dos vossos sub-comités de luta contra o terrorismo.
Darei apenas alguns exemplos:
- Em Alepo, aqueles que são descritos como «Grupos de oposição armada não estatais» correspondem na realidade ao grupo Jaïch al-Fateh [Exército da conquista], criado pelos serviços secretos turcos, e que inclui facções de Jabhat al-Nosra e de Ahrar al-Cham, após estes últimos terem declarado a sua obediência aos primeiros. De outro modo, e uma vez que 1+1=2, Jaïch al-Fateh não é senão Jabhat al-Nosra, que figura na «Lista das Nações Unidas de organizações terroristas».
- No Rif-Damas é sobretudo Jaïch al-Islam [Exército do Islão] quem maltrata. É financiado pelos serviços secretos sauditas e integra tchechenos e outros mercenários estrangeiros orginários do Cáucaso ou de outros países. Declarou a sua obediência a Daesh. Por conseguinte estamos, também aqui, perante uma entidade terrorista.
- Na frente sul, Liwaa al-Yarmouk [Brigada de al-Yarmouk] é dirigida pela célula de operações MOK situada em Aman na Jordânia. Conta nas suas fileiras com 8000 salafistas jordanos e milhares de outros terroristas . Isto sem omitir os terroristas de Jabhat al-Nosra ocupando uma boa parte da linha de demarcação do lado sírio dos montes Golã ocupados, cujos feridos são abertamente recuperados nos hospitais israelitas embora seja notório que foram eles que atacaram as forças da UNFOD e raptaram um grupo inteiro de soldados filipinos e das Ilhas Fidji.
Todos estes estariam portanto designados pela expressão incessantemente repetida ao longo do relatório do Secretário-geral das Nações Unidas de «Grupos armados não estatais». Todos estes não teriam portanto nada a ver com mercenários terroristas estrangeiros?
Obrigado, Senhor Presidente

*O Dr Bachar al-Jaafari é Representante permanente da Síria junto das Nações Unidas

Fonte: http://www.mondialisation.ca/syrie-le-scandale-des-groupes-armes-non-etatiques-de-m-ban-ki-moon/5485466

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Tony Blair : No Iraque, as informações eram falsas
https://www.youtube.com/watch?v=7nsuwLTPTs0
Acção da ONU contra o terrorismo http://www.un.org/fr/terrorism/securitycouncil.shtml
A muito pró-israelita Brigada dos mártires de Yarmouk declara obediência ao Estado Islâmico e doutrina as crianças
http://www.medias-presse.info/la-tres-pro-israelienne-brigade-des-martyrs-de-yarmouk-fait-allegeance-a-letat-islamique-et-endoctrine-les-enfants/36027
Talking to the Yarmouk Martyrs Brigade
http://www.syriadeeply.org/articles/2015/10/8476/talking-yarmouk-martyrs-brigade/

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