Socialismo do Século XXI

Samir Amin*    08.Nov.07    Colaboradores

Samir amin
Comunicação apresentada no II Encontro Civilização ou Barbárie, realizado em Serpa nos dias 5, 6 e 7 de Outubro de 2007.

O meu intento não é de formular aqui o «que será» ou o que «deverá ser» o socialismo do século XXI. Qualquer formulação desse tipo iria ao encontro da leitura do marxismo a que eu adiro: que o socialismo (ou melhor o comunismo) só pode ser o produto da luta de classes e dos povos explorados e dominados, não a iniciação de um «projecto intelectual» concebido em Pavance.

No entanto é necessário formular alguns grandes princípios que constituem a base de partida de uma reflexão apoiada na análise de desafios e na importância das lutas (indissociáveis uma da outra). Os princípios formulados no Apelo de Bamako (Janeiro de 2006) constituem na minha opinião uma base adequada, portanto relembro-os em linhas gerais
(i) construir um mundo fundado sobre a solidariedade dos seres humanos e dos povos;
(ii) construir um mundo fundado sobre a afirmação plena e total dos cidadãos e na igualdade dos sexos;
(iii) construir uma civilização universal que ofereça à diferença em todos os domínios o seu pleno potencial de desenvolvimento criador;
(iv) construir a socialização pela democracia;
(v) construir um mundo fundado no reconhecimento do estatuto não mercantilista da natureza e dos recursos do Planeta, dos terrenos agrícolas;
construir um mundo fundado sobre o reconhecimento do estatuto não mercantilista ;
afirmar a solidariedade dos povos do Norte e do Sul na construção de um internacionalismo sobre uma base anti-imperialista

O leitor encontrará o apelo de Bamako, publicado em numerosos sítios da Internet, enunciando estes princípios, a que aliás aderiram muitos movimentos em luta.

Sem dúvida alguns afirmarão por sua vez que estes princípios já surgem nas exigências do comunismo, que na tradição marxista, implicam a emancipação total da alienação mercantilista. Prosseguir o debate neste sentido é certamente necessário, mas não deveria constituir um obstáculo à vontade de construir estratégias de luta comuns.

Outros, ainda mais intransigentes, expressarão nos seus receios, que esses princípios não inspirem uma perspectiva que dê credibilidade à possibilidade de um capitalismo de rosto humano. Em contraponto acho que os avanços na sua direcção só podem ser o produto de vitórias conseguidas contra a demonstração da lógica imanente da acumulação do capital. Nesse sentido elas constituem etapas incontornáveis na longa estrada do socialismo. A menos que se agarrem à ilusão de «tudo, já» e ao mito da Revolução (em substituição de avanços revolucionários), que, por um toque de varinha mágica, o consiga obter.

O momento actual é caracterizado há uma trintena de anos por uma ofensiva do capitalismo (sempre «liberal» por natureza, imperialista de acréscimo (também por natureza) que toca todas as classes dominadas, no Norte, como no Sul, e mais singularmente todos os povos do Sul (a periferia do sistema capitalista mundial). Esta ofensiva é multidimensional, tenta impor uma gestão económica de mercados desregulados em favor do capital, tenta desmantelar as conquistas sociais, reprimir pela violência as resistências populares, conduzir «guerras preventivas» contra países recalcitrantes. A ofensiva é conduzida pelo conjunto dos centros imperialistas (a «triade»: Estados Unidos, Europa e Japão), concentrados sob a liderança de Washington.

O momento de euforia do capital e do imperialismo — passado à ofensiva sob a bandeira do neo-liberalismo e da globalização — foi de curta duração (1990-95). Rapidamente as classes populares entraram no combate de resistência a essa ofensiva.

Sim, de uma maneira geral, esta primeira vaga de lutas surgiu no terreno da resistência e da resposta à ofensiva em toda a sua multidimensionalidade evocada mais alto. A resistência é contínua e, segundo as circunstâncias, as lutas desenrolam-se no aspecto principal do desafio imediato com que os povos se defrontam. Nesse sentido a reivindicação de uma regulamentação de mercado aqui, da promoção dos direitos das mulheres, da defesa do ambiente, da defesa dos serviços públicos, da defesa da democracia como as resistências armadas às agressões dos Estados Unidos e dos seus aliados no Médio Oriente (Iraque, Palestina, Líbano) são indissociáveis umas das outras.

Nestas lutas de resistência os povos inovaram.

Sim, a cultura política dominante da esquerda tinha sido marcada nos séculos XIX e XX por praticas fundadas na organização vertical hierarquizada dos partidos, dos sindicatos, das associações. Nas circunstâncias da época os movimentos que animaram — transformações sociais radicais e reformistas, revoluções, libertações nacionais — transformaram o mundo, num sentido geralmente favorável às classes populares e aos povos dominados.

No entanto os limites e contradições próprios destras formas de acção apareceram em força a partir dos anos 1980-1990. O défice democrático dessas formas, indo até à autoproclamação «de vanguardas» armadas do conhecimento «científico» e da estratégia «eficaz», estão na origem de decepções ulteriores: reformas e revoluções levaram ao poder regimes de que o menos que se pode dizer é que com frequência não mantiveram as suas promessas, frequentemente degeneraram, por vezes em direcções criminosas.

Esses revezes tornaram possível a retoma do capital dominante e do imperialismo a partir dos anos 1980-1990.

Muito das antigas forças políticas da esquerda organizada ficaram afastadas destas primeiras lutas, tímidas diante da agressão, por vezes ligadas a opções liberais e imperialistas. O movimento foi pescado por «novas forças», por vezes de um modo quase «espontâneo». Na sua demonstração estas forças promoveram o princípio fundamental da pratica democrática: recusando a hierarquia vertical, promovendo formas horizontais de cooperação na acção. Este avanço da consciência democrática deve ser considerado como um progresso «civilizacional».

As lutas de resistência registaram vitórias incontestáveis. Elas fisgaram (só fisgaram) o revés da ofensiva do capital e do imperialismo. Este revés está patente em todas as dimensões desta ofensiva.

O projecto norte-americano de controle militar do planeta, indispensável para garantir o «sucesso» da globalização no terreno, as guerras «preventivas» executadas para assegurar a efectividade ( invasão do Afeganistão e do Iraque), a ocupação da Palestina, a agressão contra o Líbano) já sofreram revezes políticos.

O projecto económico e social dito neo-liberal, concebido para dar um apoio forte e estável à acumulação do capital — assegurar a taxa de lucro máximo a qualquer preço —, é segundo os próprios (Banco Mundial, FMI, OMC, União Europeia) incapaz de impor as suas condições. Está em «pane» — o ciclo de Doha da OMC está num impasse, o FMI em falência financeira, etc. A ameaça de uma crise económica e financeira brutal está na ordem do dia.

4. Mas, não há razão para nos congratularmos com este êxito. É insuficiente para transformar as ligações de forças sociais e políticas a favor das classes populares, e assim, ficam vulneráveis enquanto o movimento não passar da resistência defensiva à ofensiva. Só essa pode abrir o caminho à construção da alternativa positiva — «um outro mundo possível» e melhor, claro está.

O desafio que enfrentam os povos em luta está inteiramente situado na resposta que darão à questão aqui colocada: nos termos expressos com força por François Houtart; passar da consciência colectiva dos desafios à construção de agentes sociais activos da transformação.

A progressão é e será difícil. Pois implica a radicalização das lutas e a sua convergência na diversidade (para utilizar a fórmula do Forum Mundial de Alternativas) nos planos de acção comuns, os quais implicam uma visão estratégica política, a definição de objectivos imediatos e a mais longo prazo (a perspectiva que para nós define a alternativa é a do socialismo do Século XXI).

A radicalização das lutas não é a do retórica dos seus discursos, mas a articulação destes no projecto alternativo que eles se propõem para substituir os sistemas de poder social actual: construir hegemonias sociais (alianças e compromissos de classes) que se imponham como alternativas às hegemonias sociais no poder (as das alianças dominadas pelo capital, imperialismo e as classes locais compradoras a seu serviço). Para lá de uma vaga «coordenação» das lutas (ou até simplesmente de trocas de pontos de vista) que não permita transcender o seu esmagamento (e desse facto a sua fraqueza), a convergência só pode ser o produto de uma «politização» (no bom sentido do termo) em movimentos fragmentados. Essa exigência é combatida pelo discurso da «sociedade civil não politizada», «uma ideologia directamente importada dos Estados Unidos», que continua a exercer os seus estragos.

A convergência na diversidade e a radicalização das lutas encontrarão as suas expressões na construção incontornável de «etapas» (de que alguns nem querem ouvir o termo evocado, já que lhes parecerá sinónimo de compromisso e de oportunismo) permitem avanços da democratização associados (e não dissociados) do progresso social, e a afirmação da soberanidade dos Estados, das nações e dos povos, impondo formas de globalização negociada e não imposta unilateralmente pelo capital e o imperialismo.

Estas definições de conteúdo da construção alternativa não serão certamente aceites por todos.

Alguns acham que a democracia política, quer seja dissociada do «problema social» (submetida às exigências do mercado), vale mais do que nada. Mas os povos da Ásia e da África não parecem no conjunto dispostos a bater-se por esta forma de democracia dissociada do progresso social e até mesmo associada no momento actual à regressão social). Preferem muitas vezes ligarem-se a movimentos para religiosos/étnicos muito pouco democráticos. Podemos lamentar-nos; seria melhor colocar a pergunta. A democracia não pode nem ser exportada (pela Europa) nem imposta (pelos Estados Unidos). Ela só pode ser o produto da conquista dos povos do Sul através das suas lutas pelo progresso social, como foi o caso e é da Europa.

Tudo isso implica que sejam aprofundados os debates a respeito da democratização das sociedades. Falo de «democratização», no sentido do carácter do processo contínuo da sua progressão, e não de democracia que inspira a adesão a formulas feitas propostas pelo modelo da democracia representativa ocidental. Uma democracia, de resto em recuo como poderemos afirmar a respeito da construção europeia. Na perspectiva do socialismo as formulas associando o progresso social e a prática autêntica da democracia na condução de lutas e na gestão de poderes alternativos que permitem utilizar serão inventadas pelos próprios povos.

A própria menção de nação, de independência nacional e da soberanidade originam em alguns uma crise aguda de urticária. O soberanismo é quase classificado como uma tara do passado. A nação é para atirar para o lixo, a globalização já a tornou obsoleta. Popular nas classes médias europeias (por razões evidentes ligadas aos problemas da construção de ME) esta tese não encontra qualquer eco no Sul (nem nos Estados Unidos ou no Japão!)

A visão «não nacional» (ou pós nacional) evocada procede da ideia que a globalização (ou regionalização) constitui de resto o nível decisivo nas transformações possíveis, tendo o nível nacional já perdido essa capacidade. Por outras palavras a ideia que a procura de avanços «num único país é ilusória». A ideia é menos nova do que parece e junta-se em parte à crítica dirigida já ao projecto de «construção do socialismo num só país».

Não sou dessa opinião (ainda que partilhe o ponto de vista crítico do socialismo num só país, embora os avanços nesta direcção pudessem ser realizados num só país). Não creio que os avanços prévios às escalas mundial e regionais sejam possíveis, dada a desigualdade de condições que os permitam aqui e não ali.

Voltaremos a este assunto, evidentemente a propósito da Europa.

A transformação por etapas não exclui a afinação da perspectiva a longo termo. Para uns, como o autor destas linhas, esta é a do socialismo do século XXI; outros, recusam o socialismo para eles já definitivamente poluído pela sua prática no século passado.

Mas, mesmo quando o princípio da convergência for admitido, a sua realização será difícil. Pois trata-se de conciliar os avanços da prática democrática adquirida em e por lutas (renunciar necessariamente à nostalgia de movimentos «comandados» pelas «vanguardas» e as exigências de unidade na acção, modestas ou ambiciosas segundo as conjunturas locais (nacionais).

O princípio da convergência necessária não é aceite por todos. Algumas correntes ditas autonomistas, inspiradas mais ou menos por formulações pós modernistas recusam-no. Os movimentos que inspiram devem ser respeitados como tais; fazem parte da frente de luta. Alguns pretendem mesmo que o movimento seja disperso, construa por si mesmo a alternativa, pretendendo até que o «sujeito individual» esteja já em via de tornar-se o agente da transformação (a visão teórica de Negri). Os pensadores das correntes autonomistas afirmam poder mudar o mundo sem tomar o poder. A história dirá se será possível ou não. Podemos assim não aderir a esta tese teórica. É provavelmente o caso de muitos dos movimentos populares poderosos engajados em grandes lutas. Podemos também pensar (esperar?) que as organizações herdadas do passado — partidos políticos, sindicatos, etc. — sejam capazes de se transformar no sentido da prática democrática exigida.

Quer porém se trate de grandes ou de pequenas organizações o conflito opõe a «lógica de luta» que faz prevalecer os interesses colocados em jogo pelas direcções em acção ou à espera de delas se apoderarem, a participação no poder dominante actual, e assim favorecer o «oportunismo»)

Avanços em direcções que abrem a via de construção da alternativa têm actualmente lugar na América Latina, fazendo contraste com a sua ausência, ou quase, de resto, na Europa, Ásia e África. Os casos no Brasil, na Argentina, na Venezuela, na Bolívia, no Equador e o seu êxito visível no futuro para o México, Peru, Nicarágua — são precisamente o produto da radicalização de movimentos que atingiram o nível de massa crítica eficaz e da sua convergência política.

Trata-se de «avanços revolucionários» no sentido de que morderam o isco ondulante das relações sociais e políticas em benefício das classes populares. O seu êxito está na resposta prática e real associando a democracia da gestão de movimentos e cristalização política dos seus projectos, ultrapassando o esmagamento, dominando além. Que os poderes de Estado que estes avanços produziram «colocam problemas», que arrisquem atolar-se sob a pressão de obstáculos externos aos da classes locais privilegiadas, quem o negará? Mas deveremos por isso desprezar as possibilidades que estas mudanças (do poder!) abrem aos movimentos populares? Estes poderes permitem outros avanços, fundamentados na Fassociação (e não na dissociação) de afirmação de independência nacional (vis à vis dos Estados Unidos) da democratização e do progresso social. A experiência da América latina demonstra concretamente que os seus avanços são antes de mais produto de lutas nacionais.

Estes avanços podem então, caso se multipliquem numa região, modificar a paisagem desta no proveito eventual da consolidação dos seus adquiridos. O exemplo do Mercosur ilustra-o bem. Concebido como um projecto de mercado comum inscrevendo-se na globalização capitalista (apesar da sua contradição parcial com os objectivos da potência dominante, os Estados Unidos), esta construção pode tomar um novo significado, ligada ao surgimento de novas perspectivas abertas desde a eleição de Lula, e do surgimento do projecto político anti imperialista bolivariano da ALBA.

A convergência não pode ser construída a níveis mundial e regionais se não tiver sido iniciada a níveis nacionais, pois, queiramos ou não, estas definem e enquadram os desafios concretos e é a esses níveis que se fará ou não a oscilação das ligações de forças sociais e políticas em benefício das classes populares. Os níveis regionais e mundial podem reflectir os avanços nacionais, facilitá-los sem dúvida (ou pelo menos não os impedir), mas pouco mais.

Noutros lugares a imagem da realidade, apesar das lutas, é menos vantajosa.
Na Europa a prioridade dada à «construção da União Europeia» favorece o deslize para o social liberalismo, as ilusões sustentadas pela retórica da «terceira via» e do «capitalismo de rosto humano». O «movimento» conseguirá por si só ultrapassar esses obstáculos? Pessoalmente duvido muito e penso que as mudanças decisivas de orientação do poder político constituem um começo, em particular a ruptura com Patlantismo (POTAN é o inimigo dos povos europeus). Outros têm ideias diferentes. Na Europa oriental, a caminho de tornar-se nas suas relações reais com a Alemanha e a Europa ocidental Pananálogo do que foi (e ainda é) a América Latina nas suas relações com os Estados Unidos, as ilusões são ainda maiores.

A opinião europeia — penso na que é crítica do sistema actual — está dividida entre «europeístas» e «não europeístas». Uns e outros poderiam em rigor colocar-se de acordo. A vantagem que representaria uma Europa unida, dar conteúdos diferentes a esta vantagem a de constituir uma nova super potência económica, ou de tornar-se o soco de uma Europa social. Este debate permanece abstracto porque ainda se não responderam a algumas perguntas iniciais. As condições que caracterizam os diversos participantes indefinidos pela diversidade de culturas políticas — permitem avanços realizáveis em conjunto na região? A minha resposta é negativa. O projecto europeu foi concebido desde a origem por Jean Monet, um adversário declarado da democracia) como não democrático, destinado a substituir os poderes de decisão não democráticos (disfarçados em poderes tecnocráticos, na verdade submetidos às exigências do capital dominante) aos poderes vindos normalmente do sufrágio. A União Europeia não saiu desta óptica; a expressão «défice democrático» está bem para cá dessa realidade; tudo está a funcionar para cimentar o edifício contra toda a «ameaça democrática». Nestas condições a Europa social é apenas um logro. A construção eventual desta passa pela demolição das instituições de Bruxelas, não pela sua reforma. Por seu turno esta demolição deve ser engajada ou se isso não for possível levando as outras atrás e criando assim as condições de uma construção diferente e alternativa. Se a «esquerda» não tomar iniciativas nesse sentido, então as demagogias para nacionalistas podem ir rapidamente ao poder.

Um debate sobre este assunto não pode ser iludido. Tem de ser abordado de espírito aberto aos argumentos de um e outro lado.

«Na Ásia e na África assistimos actualmente a derivas que qualificamos «culturalistas» que alimentam a ilusão de projectos pretensamente civilizacionais» fundados em agrupamentos para religiosos ou étnicos.

Entendo por culturalismo não o reconhecimento banal da diversidade das culturas, nem mesmo do dever de a respeitar, mas a tese segundo a qual estas constituiriam invariantes transhistóricas, o que não são, e que nesta base, estratégias de resposta às destruições da globalização capitalista imperialista pelo revirar para a autenticidade cultural (revestida de ouropéis para religiosos ou para étnicos) seriam legitimas e eficazes. Construídas em detrimento de outras dimensões da «identidade» (a classe social, a nação) estas estratégias convêm perfeitamente ao desenvolvimento do projecto capitalista imperialista; pois os regimes fundamentados nesta base não põem em questão os princípios do mercado globalizado, contentando-se em transferir os conflitos dos terrenos da realidade social para os do abstracto da «cultura». O «choque de civilizações» é uma estratégia, a do imperialismo e dos seus aliados locais compradores. Nesse sentido igualmente o discurso sobre a «diversidade cultural» vem muitas vezes em socorro deste encerramento nos impasses. Este discurso é, de resto, perfeitamente tolerado (diga-se encorajado) pelo poder do capital e do imperialismo.

A questão é de saber porque uma tese deste género regista êxitos aparentes que constatamos. A resposta que dou a este assunto acentua as insuficiências das esquerdas radicais que se alinharam em grande parte no projecto nacional popular dos regimes actuais durante a era de Bandoung (1955-80). A erosão e depois o afundamento destes regimes — previsíveis para quem lhe reconhecesse as contradições e os limites — arrastou na sua queda os das esquerdas em questão. A alternativa radical capaz de ultrapassar as insuficiências dos regimes actuais tendo perdido a sua credibilidade, foi criado um vazio na cultura política, que o culturalismo encheu. A esta razão principal acrescentarei o apoio sistemático que Washington deu aos movimentos culturalistas. Não é verdade que as ditaduras culturalistas beneficiem de um apoio indefectível dos seus povos. Não faltam sinais de resistência e de revolta.
Mas aqui como noutros lugares estas revoltas podem nascer numa perspective de reconstrução popular, abrindo caminho ao progresso do socialismo, ou produzir apenas um novo caos, ou ser ainda recuperadas por um projecto «democrático» liberal aceitável pelo capitalismo imperialista.

O paralelo entra a evolução delineada aqui pelo terceiro mundo e o desafio com que os povos europeus se confrontam hoje impõe-se. Voltaremos ao perigo «de um outro mundo possível», ainda mais selvagem que aquele que conhecemos.

A reconstrução de uma «frente dos países e dos povos do Sul» constitui uma das condições fundamentais para a emergência de «um outro mundo», não fundamentado sobre o domínio imperialista. Sem subestimar onde quer que seja o importante das transformações de qualquer natureza que encontraram a sua origem nas sociedades do Norte no passado e no presente, estas ficaram até hoje atreladas ao carro do imperialismo. Não devemos admirar-nos que as grandes transformações à escala mundial tivessem a sua origem na revolta dos povos das periferias, da Revolução russa (o elo fraco da época), da China e a frente dos Não Alinhados (Bandoung) que obrigaram, por um momento, o imperialismo a «ajustar-se» a exigências em conflito com as lógicas da sua expansão. Esta página, a de Bandoung e a da Tricontinental (1955-80), de uma globalização que foi multipolar foi virada.

As condições da globalização actual impedem um «remake» de Bandoung. As classes dirigentes dos países do Sul, no momento, tentam inserir-se nesta globalização, que elas esperam por vezes inflectir a seu favor, mas que não combatem. Estas dividem-se em dois grupos de «países»: os que têm um projecto «nacional» (cuja natureza — essencialmente capitalista mais disfarçado pelas concessões ou a sua ausência a favor das classes populares, mas no entanto em conflito aberto ou camuflado com as estratégias do imperialismo — tem muito a discutir), como a China ou os países emergentes da Ásia e da América Latina; os que não têm projecto e aceitam «ajustar-se» unilateralmente às exigências do desenvolvimento imperialista (trata-se então de classes dirigentes compradoras).

Alianças de geometria variável estão em vias de constituir-se entre os Estados (os governos), que começaram a surgir no seio da OMC. Não devemos desprezar as possibilidades que estas aproximações podem abrir aos movimentos das classes populares (sem cair em ilusões).

Uma frente de «povos do Sul» seria possível para lá das aproximações entre classes dirigentes? Dificultada pelas derivações «culturalistas» de nível superior e as confrontações que originam entre os povos do Sul (com bases pseudo-religiosas ou pseudo étnicas) a construção desta frente fica difícil. Seria menos problemática se e na medida em que os Estados — com um projecto «poderiam» sob a pressão dos seus povos — evoluir num sentido mais resolutamente anti-imperialista. Isso implica que os seus projectos saiam dos trilhos da ilusão que os poderes resoluta e exclusivamente «capitalistas nacionais» estão a tentar inflectir a seu favor a globalização imperialista e permitir aos seus países participar no aperfeiçoamento do sistema mundial (e não se ajustando unilateralmente a este). Estas ilusões são ainda grandes e recriadas pelas retóricas nacionais do que espera os países emergentes (em via de recuperação») desenvolvidas pelas instituições ao serviço do imperialismo. Mas na medida em que os factos desmintam essas ilusões, novos blocos nacionais populares e anti-imperialistas poderão abrir caminho e facilitar o internacionalismo dos povos. Temos de esperar que as forças progressistas do Norte o entendam e o apoiem.

7. Dois projectos de um «outro mundo» estão actualmente em construção e bem entendido em conflito, aqui camuflado, ali violento. A globalização liberal, que já falhou será necessariamente ultrapassada, mais cairá à esquerda ou à direita? É esse o problema decisivo.

O capitalismo é já um sistema social obsoleto. A manutenção dos privilégios de classe ligados à «propriedade» que o caracteriza exige doravante o abandono dos princípios da sua gestão pelos meios ditos «liberais» O «apartheid à escala mundial» é a única resposta que o capitalismo imperialista pode dar a esta contradição.

A demanda da acumulação do capital em benefício de uma minoria declinante da população do globo exige simultaneamente a aceleração da destruição dos mundos agrícolas (metade da humanidade), a partilha cada vez mais desigual do acesso aos recursos naturais do planeta (necessário para a manutenção do esbanjamento do Norte), a tutela das industrias novas do Sul pelo controle das tecnologias de produção, o seu confinamento a explorar melhor ainda a sua mão de obra a bom preço.

O bloco social hegemónico portador deste projecto é constituído pelo capital oligopolístico financeiro globalizado (que domina a aliança), os burgueses do Sul (compradores) e pode beneficiar de um apoio de largos sectores das populações do Norte (em particular das classes médias). Mas embate e vai embater cada vez mais com a resistência dos «excluídos»: a maioria dos povos do Sul, as minorias em progresso possível no Norte. O Sul continua a ser a zona das tempestades só pode ser controlado por meio da demonstração contínua de ameaças e intervenções militares das potências imperialistas, associadas a estas empresas. Essa é a racionalidade (criminosa) do projecto de Washington de controle militar do planeta e da concentração em última análise dos parceiros europeus e japoneses nesse projecto.

O capitalismo foi inaugurado, no seu início, por um gigantesco etnogenocídio. O das civilizações pre-colombianas. Podemos hoje verificar outro crime sistemático do mesmo género sobre os povos da Ásia e da África. E a vontade de preservar o monopólio das armas nucleares em benefício das potências da tríade imperialista não o mais anódino dos meios necessários para a realização desse projecto.

Este projecto está em curso. O «projecto europeu» aferrolha as escolhas dos povos deste continente e submete-os de uma forma irreversível às exigências da demanda da acumulação capitalista e do alinhamento atlântico.

*Samir Amin é amigo e colaborador de odiario.info

Tradução de Manuela Antunes

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