Spain is different

Manuel Loff    28.Oct.19    Outros autores

A expressão era da propaganda turística do franquismo nos anos 1960. A remobilização furibunda do nacionalismo espanhol e a forma como aparelho judicial e Governo têm lidado com o caso catalão fazem com que a Espanha volte a ser diferente — se é que alguma vez deixou de o ser.

Spain is different. Era o que dizia a propaganda turística do franquismo nos anos 1960. A remobilização furibunda do nacionalismo espanhol e a forma como aparelho judicial e Governo têm lidado com o caso catalão fazem com que a Espanha volte a ser diferente — se é que alguma vez deixou de o ser. Desde há dois anos que, enfrentando um movimento cívico e político que, pelo apoio popular, diversidade política e persistência, não tem paralelo na Europa dos nossos dias, o Estado espanhol tem-se desmultiplicado em algo patéticas juras de democraticidade, feitas por juízes ofendidos com a recusa da justiça alemã, belga ou britânica em extraditar exilados por crimes de “rebelião” e de “sedição”, descritos pelos espanhóis com linguagem de século XIX; ou por um primeiro-ministro a autoelogiar-se na ONU por, ao Æm da bagatela de 44 anos, exumar os restos mortais de um ditador genocida (à luz do direito internacional) de dentro de um mausoléu (que, de resto, Æcará intacto) em que o perpetrador se faz acompanhar dos restos das suas próprias vítimas; ou por políticos exaltados que repetem, mão no peito, que “em Espanha ninguém é perseguido pelas suas ideias”. Parece que voltámos aos anos 1960 e 70, quando Franco enfrentava a condenação internacional contra a prisão de sindicalistas e estudantes e as execuções de “terroristas”. Então, como agora, o Estado espanhol tinha de explicar quem era ao mundo; agora como então faz um discurso vitimista, queixando-se de uma nova lenda negra contra a Espanha. À escala internacional, o Estado espanhol tem-se empenhado em provar que aceitar reconhecer o direito à autodeterminação da Catalunha seria um perigoso precedente numa democracia, esquecendo-se, claro, do Quebeque ou da Escócia, e invertendo toda a lógica: a autodeterminação só é genuína em democracia; as ditaduras só à força e/ou quando quebram (como em Portugal) é que a aceitam. A estratégia espanhola é a do medo: aceitar o precedente catalão seria abrir a caixa de Pandora de qualquer “unidade nacional”, como se houvesse Catalunhas em todo o lado, comunidades de 7,5 milhões de pessoas com uma reiterada identidade histórica, cultural e política, com 80% a reivindicar o direito à autodeterminação e metade a querer ser independente. Não admira que o Governo espanhol se tenha empenhado a fundo para conseguir que o novo patrão da política externa da UE seja o seu próprio ministro dos Estrangeiros (Josep Borrell), um socialista que, contrariando camaradas de partido quedefendiam um indulto para os presos políticos, insistia ser antes necessário “curar o corpo social e passar bem o desinfetante” (16.12.2017) — o mesmo “desinfetante” que, supõe-se, tem sido aplicado nas manifestações destes dias em Hong Kong, no Chile, no Equador, no Líbano… O Governo espanhol acha que por todo o lado se aceita que um tribunal condene a 13 anos de prisão quem não matou, sequestrou ou torturou, mas fez desobediência cívica. Isto acontece no único país europeu onde se mantém em vigor uma lei que amnistia todos os crimes praticados por uma ditadura. Ou onde o próprio Governo organizou uma guerra suja até 1987 e se protegem torturadores até hoje mesmo. Em vários outros países europeus tem-se evoluído, como em Espanha, para a criminalização do direito de manifestação — mas Macron ainda não se atreveu a acusar de “rebelião” organizada os “coletes amarelos”. Em muito lado confunde-se opinião com “incitamento ao terrorismo”, sobretudo envolvendo minorias islâmicas; em Espanha isso pode acontecer a cantores, bonecreiros, jovens nas redes sociais. Sete jovens que se envolveram numa rixa num café foram acusados de “terrorismo” e “crime de ódio” por terem andado à pancada com polícias alcoolizados (Altsasu, Navarra). Acima de tudo, em nenhum outro país europeu (salvo a Turquia) foram presos por “rebelião” representantes do povo democraticamente eleitos (e reeleitos já na prisão), ou processados dezenas de funcionários, autarcas, manifestantes e, mais extraordinário, comandantes de polícia politicamente anódinos! A Espanha é diferente. E os espanhóis — os que gostam que seja, e os que se desesperam por isso — sabem-no. A questão é que não quer parecer e, pelo contrário, jura ser “uma democracia moderna”, como diz Pedro Sánchez. Se (ainda) o for, contudo, é graças a quem, entre outros, todos os dias se enfrenta a um nacionalismo que acha que a unidade nacional está acima dos direitos humanos.

Fonte: Jornal “Publico” 24.10.2019

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