Stiglitz, ideólogo do capitalismo*

Albano Nunes    28.Ene.12    Outros autores

Albano NunesFalando em Portugal, e um momento particularmente delicado da luta dos trabalhadores e do povo português, Stiglitz colocou-se explicitamente do outro lado da barricada. Aqui fica o registo e o aviso à navegação. Nada de distracções. A social-democracia, seja qual for a sua variante, o que procura é salvar o sistema, não combatê-lo e muito menos superá-lo.

O capitalismo tem assumido no tempo e no espaço diferentes formas de existência e os seus ideólogos nunca falaram a uma só voz. E se há tempos de grande unanimismo e «pensamento único» como aconteceu nos anos de celebração triunfalista das trágicas derrotas do socialismo, outros há em que a crise do capitalismo e o desenvolvimento da luta de classes alimentam divergências reais no seio da classe dominante, nomeadamente entre as duas grandes correntes históricas que a sustentam, a «liberal/conservadora» e a «social-democrata/keynesiana».
Perante a instabilidade e a incerteza do quadro internacional, a perspectiva de um longo período de recessão económica e a possibilidade de um novo crash ainda mais destruidor, é essa a situação actual. Muitos se apercebem que a hegemonia do grande capital financeiro e especulativo, as violentas políticas de «austeridade» conduzidas pelo FMI e pela UE, a manipulação da espiral da dívida para estrangular o desenvolvimento e provocar o empobrecimento de países soberanos, o desemprego em massa e a falta de medidas para o combater, o aprofundamento das desigualdades, tudo isto não só contraria o objectivo da recuperação económica como leva no bojo inevitáveis explosões de descontentamento social com o questionamento dos próprios fundamentos da ordem capitalista.

É isto que faz correr reputados economistas e publicistas que criticam as políticas «ultra-liberais», denunciam a «falta de transparência» e os «excessos» da especulação financeira, lamentam a ausência de «consciência social» das políticas dominantes, insistem na necessidade de maior «regulação» do sistema bancário e preconizam um «governo europeu» e mesmo um «governo mundial» que previna a eclosão de crises (como se estas não fossem inerentes ao próprio sistema de exploração capitalista) sem entretanto irem às raízes da situação, e preocupando-se muito pouco com fenómenos tão perigosos como o espezinhamento das soberanias nacionais, o avanço do nacionalismo xenófobo e fascizante ou o aumento dos perigos de guerra.

Vem isto a propósito da recente estadia em Portugal de Joseph Stiglitz, Prémio Nobel da economia e ideólogo de referência, bem conhecido pelas suas posições críticas em relação a numerosos aspectos das políticas neoliberais. Muitas das suas declarações e posicionamentos, até por virem de alguém que tem estado bem por dentro do sistema – vice-presidente e economista-chefe do Banco Mundial, conselheiro de presidentes dos EUA, relator de comissões da ONU sobre a reforma do sistema monetário internacional ou alterações climáticas – têm contribuído para desmontar atoardas e ajudado a combater as políticas mais reaccionárias. E durante a sua visita a Portugal ouviu-se preocupações e críticas certeiras, nomeadamente quanto à imperiosa necessidade de políticas orientadas para o crescimento económico, que podemos subscrever sem dificuldade. Mas ouviu-se também declarações de branqueamento das funestas políticas governamentais e mesmo de apoio ao monstruoso acordo cozinhado entre o governo, o patronato e a UGT no preciso momento em que era assinado.

Vinda de um dos grandes corifeus ideológicos do sistema uma tal posição não surpreende, mas a sua gravidade não pode deixar de ser assinalada. Num momento alto da ofensiva do capital Stiglitz toma partido contra os trabalhadores e o povo português. Podendo ao menos ter evitado comprometer-se numa atitude que ainda por cima é de aberta ingerência na vida interna portuguesa, não o fez. Numa questão central na aguda luta de classes que se trava no nosso País, e num momento particularmente delicado dessa luta, Stiglitz, que é frequentemente apresentado como «neo-keynesiano», colocou-se explicitamente do outro lado da barricada. Aqui fica o registo e o aviso à navegação. Nada de distracções. A social-democracia, seja qual for a sua variante, o que procura é salvar o sistema, não combatê-lo e muito menos superá-lo.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 1991, 26.01.2012

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