Teias

Jorge Cadima    19.Abr.21    Outros autores

O jornal online do BE publica um texto atacando os que condenam a intervenção imperialista na Síria. Trata-os de “imbecis” porque o que ali há, acham eles, é uma genuína revolta popular. Quem queira entender melhor a natureza do BE deve dar atenção às suas posições sobre questões internacionais. Bastará, aliás, acompanhar muitas das votações dos seus eurodeputados, por vezes tão próximas ou coincidentes com posições que nada têm “de esquerda”.

Vivemos tempos perigosos, de potencial catástrofe desencadeada pelo imperialismo. Mas o jornal online do BE decidiu divulgar um texto com o polido título «O “anti-imperialismo” dos imbecis». Tenta-nos convencer que, se anteriores guerras dos EUA eram más, na Síria há uma genuína revolta popular.

A sério? Segundo o actual Presidente dos EUA, os aliados dos EUA no Médio Oriente «despejaram centenas de milhões de dólares e milhares de toneladas de armamento a todos quantos combatessem Assad. Mas quem estava a ser apoiado era a al-Nusra e al-Qaeda e os elementos extremistas do jihadismo vindos de outras partes do mundo». Foi assim, segundo Biden, «que surgiu o ISIS» (CNN, 6.10.14). Biden nomeou a Turquia e os Emirados. Calou o papel dos EUA e Israel. Mas o New York Times (2.8.17) informa sobre a «guerra secreta da CIA na Síria» com «um dos mais caros programas secretos da história» que durante 4 anos custou mais de mil milhões de dólares para «armar e treinar rebeldes sírios», tendo «algumas das armas fornecidas pela CIA acabado nas mãos dum grupo rebelde ligado à Al-Qaeda». Trump, no seu estilo, afirmou que «vamos ficar com o petróleo» da Síria (ABCnews, 28.10.19). Por maiores que fossem as razões de protesto, é isto uma genuína revolta popular?

Isto é o programa de sempre de subjugação imperialista. Documentos dos serviços secretos anglo-americanos revelam planos de 1957, antes de Assad ou seu pai serem Presidentes, para «financiar um “Comité Síria Livre” e armar “facções políticas com capacidade paramilitar”» enquanto «a CIA e o MI6 instigavam levantamentos internos» e «encenavam falsos incidentes de fronteira» para criar «um pretexto para uma invasão da Síria» (Guardian, 27.9.03). O General Wesley Clark revelou que em 2001 havia planos para «abater sete países em cinco anos», entre os quais a Síria.

O texto promovido pelo BE ataca «meios de comunicação social e jornalistas pouco recomendáveis» por «difundir propaganda perniciosa e desinformação». Coincidência ou não, tem data de 27 de Março, 16 dias após uma importante Declaração denunciando «preocupantes desenvolvimentos que lançam sérias e sustentadas suspeitas» sobre a investigação da Organização para a Proibição das Armas Químicas (OPCW) do alegado ataque químico em Douma, que serviu de pretexto para bombardeamentos da Síria pelos EUA, Reino Unido e França (couragefound.org). A lista de subscritores é digna de registo. Além do primeiro Presidente e quatro outros funcionários importantes da OPCW, há gente marcada pelas anteriores mentiras das guerras imperialistas. Como os ex-vice Secretários Gerais da ONU Denis Halliday e Hans von Sponeck, que se demitiram pelas sanções contra o Iraque anteriores a 2003; o Coronel Wilkerson, ex-Chefe de Gabinete de Colin Powell, MNE dos EUA no tempo das patranhas sobre o Iraque; e um ex-Chefe de Estado Maior da Marinha de Guerra do RU, Lord West of Spithead. Esta extraordinária Declaração foi silenciada na comunicação social de regime. Se a conhecemos, muito se deve aos meios que o texto publicado pelo BE ataca. Tal como a entrevista do ex-Embaixador inglês na Síria (thegrayzone.com, 20.3.21).

Num tempo de propaganda belicista, controlo férreo da comunicação e redes sociais e perseguição a quem denuncia as mentiras de guerra, como Julian Assange, Chelsea Manning, John Kiriakou ou, já com Biden, Daniel Hale (RT, 6.4.21), os ataques publicados pelo BE levam água ao moinho dos crimes actuais do imperialismo.


Fonte: https://www.avante.pt/pt/2472/opiniao/163795/Teias.htm

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