Tempestade no deserto*

Jorge Cadima    24.Nov.18    Outros autores

O assassínio do jornalista Khashoggi no consulado saudita em Istambul desencadeou uma vaga internacional de indignação. Em boa parte pelo caracter planeado e atroz de que se revestiu. E em parte também porque deu azo a intensas e complexas manobras de bastidores, num mundo capitalista em que surgem cada vez mais rivalidades e fracturas internas. Tal como têm os «seus» ditadores, os EUA têm também os «seus» assassinos, aos quais dão ou não cobertura conforme a oportunidade.

O sórdido assassinato de Khashoggi no consulado em Istambul trouxe à ribalta a feroz ditadura pró-americana na Arábia Saudita. Há natural indignação. Mas durante décadas houve silêncio oficial face a uma das mais brutais ditaduras, que nem finge ter liberdades, eleições, partidos ou sindicatos. Que sempre reprimiu, torturou, chicoteou, decapitou e matou impunemente. Que há 3 anos leva a cabo uma assassina guerra contra o Iémen, cujos 30 milhões de habitantes enfrentam uma catastrófica crise humanitária.

A indignação nem existiu quando em Novembro o Primeiro-Ministro libanês e aliado saudita (!) foi sequestrado na Arábia Saudita e obrigado a ler o seu discurso de demissão na televisão. Nem quando «centenas de homens de negócios influentes – muitos deles membros da família real – foram presos pelo governo no [hotel] Riyadh Ritz-Carlton» até entregarem os seus bens, tendo «pelo menos 17 sido hospitalizados por abusos corporais e um morrido sob detenção com […] sinais de maus tratos» (NY Times, 11.3.18).

Os telejornais bocejaram com indiferença. Já quando o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman (MbS) visitou os EUA, Reino Unido e França, a música foi outra. Nos EUA encontrou-se com toda a nata (azeda) do país, desde Trump aos CEOs da Goldman Sachs, Microsoft, Apple, Amazon, Walt Disney, e até mesmo Oprah Winfrey. Comprou muitas armas para prosseguir a guerra contra os povos do Iémen e da Síria e preparar a guerra contra o Irão. As televisões, entusiasmadas, garantiram-nos que o jovem era um modernizador, deixava as mulheres conduzir e reabria cinemas. A modernização parece ter-se estendido às técnicas usadas no consulado em Istambul. A «troika da tirania», assegura-nos o Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA – e a TV – está alhures: na Venezuela, Nicarágua e Cuba (Fox News, 1.11.18).

O conluio não é só negócios. As petro-ditaduras do Golfo sempre desempenharam um papel chave na política imperialista. Nos anos 70 acordaram vender petróleo exclusivamente em dólares, permitindo aos EUA retirar-se do padrão ouro mas manter o dólar como moeda de reserva internacional. Nos anos 80, o Congresso dos EUA proibiu o seu Governo de financiar bandos terroristas como os Contras na Nicarágua e a Arábia Saudita passou a financiar a subversão. Tal como no Afeganistão, na Síria e muitos outros países.

As águas andam agora agitadas, com clivagens que, por toda a parte, fracturam o mundo capitalista. O assassinato foi divulgado pelos turcos, irritados pela tentativa de golpe de Estado, pelo namoro interesseiro dos EUA aos curdos e pelos ataques sauditas ao Qatar e à Irmandade Muçulmana. A gravação que alegadamente existe, mas não foi ainda divulgada, estará a ser usada numa sórdida negociata, de desfecho imprevisível.

Sacudindo o incómodo capote, a CIA agora acusa MbS (NY Times, 16.11.18) e diz que queria outro príncipe herdeiro. Mas a chefe máxima da CIA, Gina Haspel, subiu ao cargo por ter dirigido um centro de tortura, nessa espécie de arquipélago de ‘consulados de Istambul’ que a CIA espalhou pelo «mundo livre». E há sempre o plano B: no famigerado mapa do Médio Oriente publicado no Armed Forces Journal em 2006, também a Arábia Saudita era retalhada em cinco partes.

*Este artigo foi publicado do “Avante!” nº 2347, 22.11.2018

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