Terra incógnita: A solidão de Bush, o fracasso dos falcões e o desinchar das bolhas*

Jorge Beinstein**    06.Sep.07    Outros autores

Apesar de lhe faltar mais de um ano para abandonar a Casa Branca, a actual situação actual de Bush é a de um presidente em estado terminal. A oposição, semanalmente, aumenta o seu acosso parlamentar, os seus aliados republicanos abandonam-no um após o outro, seu assessor vedeta, Karl Rove, desertou, a bolha imobiliária continua a desinchar mostrando um futuro obscuro para a economia norte-americana e provocando sucessivas abanões bolsistas globais. O seu companheiro de aventuras, Tony Blair, deixou o cargo de primeiro-ministro na Grã-Bretanha – o que em Washington gera crescentes temores sobre um possível deslocamento dos ingleses em direcção à União Europeia, enfraquecendo seus laços atlantistas e distanciando-se da estratégia euro-asiática dos falcões [1]. Além disso, começaram a circular declarações de funcionários e “filtrações” mediáticas quanto a cenários elaborados no Pentágono de retirada rápida das tropas estadunidenses do Iraque [2]. A esse nível, e no conjunto do sistema de poder dos Estados Unidos, já quase ninguém duvida do fracasso da aventura iraquiana e, enquanto o sector mais extremista dos falcões sonha com um milagroso “golpe de força” dentro do Iraque ou por um ataque ao Irão, o Império esboça recuos que lhe permitam preservar a sua presença no Médio Oriente. As vendas massivas de armas aos regimes amigos da região é um dos meios empregados. O governo estadunidense acaba de fazer um acordo de venda de 20 mil milhões de dólares aos estados do Golfo (incluídos 10 mil milhões à Arábia Saudita), 30 mil milhões de dólares a Israel e 13 mil milhões de dólares ao Egipto. Associando os “interesses estratégicos” dos Estados Unidos com os interesses comerciais das empresas beneficiadas com essas vendas [3], os funcionários envolvidos no negócio, obviamente, receberão as respectivas “recompensas” (curiosa mistura de corrupção com fanatismo imperialista).

Por outro lado, o chamado plano Biden-Gelb de dividir o Iraque em três partes (uma sunita, outra xiita e uma terceira curda) acumula apoios no establishement, o que implica o êxito (de modo algum assegurado) da estratégia de guerra étnica desenvolvida pelos ocupantes, a concretização do plano lhes permitiria (teoricaamente) retirar-se com relativamente poucas baixas, uma vez que a resistência iraquiana ficaria submergida num mar de conflitos locais. Em meados do ano passado, o senador democrata Joseph Biden e Leslie Gelb, presidente emérito do Concelho de Relações Exteriores, publicavam no New York Times um texto repleto de cinismo onde, tomando como precedente o “vitorioso” desmembramento da Jugoslávia, propunham esquartejar o Iraque. Para completar o sinistro coro, nada menos que David Walker, titular do “Government Accountability Office”, fez em 7 de Agosto passado uma conferência onde expôs o paralelismo entre a decadência do império romano e a actual situação dos Estados Unidos [4].

As duas bolhas imperiais estão a desinchar ao mesmo tempo: a financeira, centrada no mercado imobiliário (ainda que as suas consequências sejam muito mais amplas), e a militar, apoiada nas guerras do Iraque e do Afeganistão (passo decisivo na delirante estratégia de conquista da Eurásia). A interacção entre ambos os fracassos é evidente, surgem como os aspectos mais visíveis, por ora, da degradação geral da sociedade norte-americana que apenas pode ser compreendida na sua totalidade. Assim, é possível explicar comportamentos sectoriais (militares, políticos, financeiros e outros) aparentemente desmedidos, incoerentes, por vezes claramente estúpidos, mas que integram uma dinâmica superior marcada pela decadência. E como os Estados Unidos são as doentes coluna vertebral e cabeça do capitalismo mundial, os seus arrepios afectam (expressam) o conjunto do sistema. Daí, as interrogações sobre o seu futuro terem alcance planetário.

Contra-ataque imperial?

A primeira interrogação refere-se à possibilidade de um contra-ataque do Império. Poderíamos imaginar que os falcões encurralados estariam tentados a desencadear um golpe de sorte procurando reverter a péssima situação actual. Durante todo o ano passado, esta hipótese adquiriu alguma verosimilhança. A crescente agressividade da Casa Branca para com o Irão, o seu compromisso com a invasão militar israelita do Líbano, seus actos hostis contra a Rússia levavam a pensar numa aventura militar em preparação. Alguns autores recordavam-nos histórias anteriores como a invasão do Canal de Suez, em 1956, pela França e Inglaterra, dois impérios coloniais em declínio, cujos dirigentes tinham perdido qualquer percepção da realidade, o que os levou ao fracasso. Segundo Michael Klare, as elites imperiais decadentes costumam tomar decisões disparatadas uma vez que sobrestimam o seu poderio (descendente) subestimam o poder (ascendente) dos seus inimigos e, finalmente, perdem as estribeiras diante de reais ou imaginários desafios destes últimos [4]. Ingleses e franceses acreditavam então que podiam dobrar facilmente Nasser, de quem não aceitavam as reivindicações nacionalistas, mas o mundo havia mudado e os estados colonialistas sofreram uma humilhante derrota política. Agora os Estados Unidos encontrar-se-iam diante de uma situação semelhante: negar-se-iam a registar a magnitude, a importância (geo)estratégica da sua derrota no Iraque e o facto de que a sua gigantesca maquina bélica estar a perder rapidamente a capacidade de dissuasão que tinha na década passada. Além disso, o caos financeiros em que estão submersos impedi-los-ia de perceber que perderam peso económico global e que o seu endividamento vertiginoso os torna cada vez mais dependentes da rede financeira internacional e das decisões monetárias da União Europeia, do Japão e da China.

De qualquer forma, o rápido enfraquecimento do governo Bush vai reduzindo a sua capacidade operacional e é muito provável que essa tendência se acentue nos próximos meses (o que não elimina completamente a possibilidade de uma agressão imperial desesperada, como demonstra a sua recente fanfarronada de classificar como organização terrorista os “Guardas da Revolução” do Irão).

Entretanto, é necessário olhar para além do bunker de Bush e do aspecto exclusivamente militar do tema. O “complexo industrial-militar” tradicional mudou muito nos últimos anos. Actualmente faz parte de uma rede de interesses, mais ampla e mais complexa, que abrange também negócios financeiros, energéticos, de segurança privada, etc. Trata-se de um sistema muito concentrado que (sobretudo) a partir do fim da guerra-fria conseguiu ganhar o grosso da elite política norte-americana. Um dos pilares da referida cooptação foi a ascensão hegemónica de uma “cultura” financeiro e mafiosa, claramente parasitária. Prisioneira de visões simplistas, deslumbrada pelo gigantismo do mega aparelho militar, olhando o “inimigo” do cima (por exemplo: as populações do Iraque ou do Irão), este é visto como um pequeno objecto, um modesto formigueiro que pode ser manipulado ou exterminado a seu bel prazer. Acrescentemos a isto que, apesar de os candidatos à presidência do Partido Democrata criticarem Bush pelo desenvolvimento da guerra no Iraque não deixam de mostrar os dentes nos casos do Irão ou do Paquistão-Irão [6].

Também poderíamos abordar o tema a partir da deformação “financeira” da realidade, que provoca fantasiosas imagens, onde enormes quantidades de fundos derrubam todas as barreiras culturais e políticas.

Num caso (militarismo) a realidade é simplificada até ao extremo sob a convicção de que a força bruta pode tudo, no outro (visão mercantil do mundo) a deformação não é menos grosseira (”o poder do dinheiro é irresistível”). Em princípios do século XXI encontramo-nos perante a decadência total da elite dominante (central) do mundo, que combina o mais elevado refinamento consumista e tecnológico com o primitivismo intelectual. Não é a primeira vez que tal se verifica na história da humanidade.

A minha conclusão é que o militarismo imperial-mafioso não tem que desaparecer com Bush. Ele foi gerado ao longo de um prolongado período anterior (marcado, na década passada, pela primeira Guerra do Golfo, pelos intermináveis bombardeamentos sobre o Iraque, pela guerra do Kosovo, pelo incessante desenvolvimento de bolhas especulativas, etc.) e tem sólidas raízes entre os dirigentes dos partidos democrata e republicano.

Além disso, a sua dependência energética obriga o capitalismo norte-americano a pressionar cada vez mais os países possuidores dos referidos recursos. Não se trata só da sua descendente produção petrolífera estar confrontada com recursos globais que tenderão a diminuir no curto prazo. Trata-se também da “solução” (parcial, efémera) encontrada: os biocombustíveis, cuja expansão significaria, de facto, a apropriação de vastas extensões territoriais da periferia, reduzindo drasticamente os fornecimentos alimentares desta última. Em qualquer dos casos, para sobreviver, o Império comporta-se como um vampiro, “necessita” de depredar cada vez mais o mundo subdesenvolvido e disputar essas presas às outras potências (União Europeia, Japão, China). Na realidade, a irrupção dos biocombustíveis leva o Império a uma recomposição estratégica, a olhar para novos espaços, ou melhor, a reclassificar a sua hierarquia de interesses em certas zonas da periferia. Economias agrícolas, antes subdesenvolvidas e colocadas num plano secundário, estão a passar para primeiro plano na escala de prioridades. É o caso das grandes extensões de terras férteis da América Latina.

Outros impérios?

Nunca é demasiado insistir que a crise norte-americana não pode ser entendida se não a virmos como parte de um fenómeno mais amplo, mundial. O chamado processo de “globalização” que se desenvolveu a partir da década de 1970, chegando ao seu momento de glória nos anos 1990 (sob a hegemonia financeira e estadunidense), impôs a articulação de uma intricada rede de interdependências económicas entre os países centrais que abarcaram o conjunto da periferia. O extravasamento financeiro, que inclui endividamentos públicos e privados colossais, tanto nos países centrais como nos periféricos, e saques destes últimos, resultaram numa crise crónica de super-produção que se prolonga há pelo menos quatro décadas [7].

Assinale-se também que a hegemonia norte-americana, sobretudo dos anos 1990 até a actualidade, assume um aspecto duplo: por um lado é a de uma potência que opera como mega-sujeito (parasita) da economia global, impondo os seus privilégios consumistas ao resto do mundo do qual extrai bens e serviços em troca de papéis-dólares que se foram desvalorizando. Mas também se trata de uma enorme lixeira mundial para onde se dirigem fundos e mercadorias que a crise de super-produção não permitia colocar em nenhum outro mercado comparável. As burguesias do Japão, Alemanha, Coreia do Sul ou China não fizeram outra coisa senão conceder uma espécie de “crédito” muito suave e por tempo indefinido ao seu grande cliente. Os chineses e os japoneses acumularam gigantescas “reservas” em dólares ou títulos do Tesouro dos Estados Unidos em troca das suas mercadorias, os europeus colocaram nos Estados Unidos enormes excedentes financeiros, os países petrolíferos como a Arábia Saudita. Dito de outro modo, os Estados Unidos são ao mesmo tempo parasitas e tábua de salvação do capitalismo mundial, do qual absorvem toda classe de excedentes financeiros e produtivos. A dívida total dos norte-americanos, pública e privada, aproxima-se dos 50 mil milhões de dólares (ultrapassa o Produto Bruto Mundial). Dela, 10 mil milhões correspondem a dívida para com os credores externos [8].

As turbulências financeiras de Agosto de 2007, centradas nos males da economia norte-americana, arrastaram bolsas e bancos da Europa e da Ásia e assim voltará a acontecer no futuro. Trata-se um único navio global à deriva, ainda que a sua tripulação seja bastante heterogénea, o que gera uma imagem confusa de acordos e rivalidades, tropeções e acções concertadas.

Recentemente, os chineses ameaçaram os norte-americanos com a chamada “opção nuclear” (desdolarizar as suas reservas) se estes adoptasserm medidas comerciais proteccionistas contra a indústria chinesa. Mas se esta ameaça se concretizasse verificar-se-ia uma queda financeira planetária, da qual ninguém ficaria a salvo (em primeiro lugar a própria China, cujo sistema depende da sua din^mica exportadora).

A União Europeia (o par França-Alemanha) não simpatiza com a invasão estadunidense do Iraque, mas não deseja uma derrota do Império que poderia redundar numa perda de controlo quase completa do Médio Oriente por parte do Ocidente. A China manifestou a sua oposição à aventura iraquiana, mas as suas compras massivas de títulos do Tesouro dos EUA serviram para financiar essa guerra. A Rússia levanta o seu punho militar como resposta à hostilidade norte-americana e ameaça os satélites europeus da super-potência (e de vez em quando lança um berro aos outros estados europeus, tentando condicioná-los). Contudo, o renascimento russo depende das suas exportações energéticas, dependentes por sua vez da saúde da economia internacional e sobretudo dos seus clientes da Europa. Ainda que os russos olhem para Leste (tentando diversificar mercados), aí encontrar-se-ão com a China e o Japão, dependentes do poder de compra dos Estados Unidos.

As grandes potências estão condenadas a lutar entre si e ao mesmo tempo a realizar acordos destinados à sobrevivência comum. Duas conclusões surgem de imediato: primeiro, o declínio económico e político dos Estados Unidos afecta negativamente as demais potências e, em consequência, essa facto inevitável acabará por debilitá-los a todos. Segundo, o desenvolvimento do processo geral de degradação levará cada vez mais necessários e difíceis os acordos financeiros, comerciais e políticos entre os países centrais. É evidente que o futuro não copiará o século XX, quando o declínio do Império inglês abriu caminho para a ascensão dos Estados Unidos e da Rússia. Proporá, sim, diferentes cenários de despolarização ou uma multipolaridade frágil (mais ou menos caóticos ou efémeros).

A crise

A terceira interrogação refere-se à duração e intensidade da crise actual. O pensamento conservador é teimoso e insiste em negar a realidade. No final da década passada afirmava que nos encontrávamos no meio de uma grande reconversão positiva do capitalismo, quando a simples observação dos factos nos indicava extravasamento de uma maré financeira. Agora, quando a economia mundial se encontra submersa num oceano de bolhas especulativas e sob a ameaça de uma penúria energética grave, afirma que se trata apenas do esvaziamento da bolha imobiliária norte-americana e dos seus “danos colaterais” que logo (muito breve) será superada, graças ao funcionamento do “mercado” e às sábias intervenções dos bancos centrais das grandes potências.

Mas a realidade é muito mais persistente do que essa gente. Esta crise não nasceu em 2007, vem de longe. Desde o princípio da década passada que as bolhas e perturbações financeiras internacionais se sucedem, umas após outras. Ao mesmo tempo, a massa financeira global foi crescendo em progressão geométrica. Dívidas públicas e privadas, hipertrofias bolsistas, negócios com “produtos derivados” expandiram-se muito para além do ritmo de crescimento da economia real. Por exemplo: os negócios com “produtos financeiros derivados” representavam, por volta do ano 2000, a cerca de duas vezes do Produto Bruto Mundial. Em 2006 eram oito vezes maiores. Se extrapolarmos a sua taxa de expansão média do último lustro, em 2010, essa massa especulativas representá 16 vezes do Produto Bruto Mundial.

Por trás do fenómeno financeiro encontra-se a crise de super-produção crónica que atravessa a economia global. Que encontrou uma “via de escape” (uma mesinha milagrosa) nas actividades especulativas como espinha dorsal de um sistema de saque que, sob o discurso do “neoliberalismo”, destruiu (devorou) boa parte das economias periféricas e reconverteu ao parasitismo os núcleos hegemónicos do capitalismo. Mas essa via não é infinita. A expansão da massa financeira pode ser emplastrada a seguir a cada turbulência, por fim, a metástase acaba por danificar o conjunto do sistema e torná-lo-á inviável.

Ainda que isso não seja tudo, a crise crónica de super-produção converge com a fase decendente de um ciclo muito mais longo, o da exploração dos recursos energéticos não renováveis, pilar decisivo da dinâmica do desenvolvimento industrial capitalista que lhe permite concretizar a sua reprodução ampliada, de acordo com a sua própria lógica, autonomizada dos ritmos da natureza, ou seja, oposta à mesma (e predadora da mesma). Em resumo, o que estamos agora a experimentar é a convergência histórica de duas grandes crise: a de superprodução (que chega à sua etapa de perturbação aguda) e a de subprodução ou penúria produtiva centrada, numa primeira fase, na área energética mas que (através dos biocombustíveis) começa a estender-se ao sector alimentar.

A crise financeira empurra para a recessão e a penúria energética, exerce pressões inflacionárias. Nos anos 1970 verificou-se uma pequena antecipação do fenómeno, que foi chamado “estagflação”. O termo é demasiado suave para o que vem aí.

27/Agosto/2007

Notas
[1] John Bolton, “Britain can’t have two best friends”, Financial Times, July 31 2007.
[2] Sarah Baxter, “US braced for bloody pull-out”, TimesOnline, July 29, 2007
[3] Dan Glaister, “US accused of fuelling arms race with $20bn Arab weapons sale”, The Guardian, July 30, 2007.
[4] David Walker, “Transforming Government to Meet the Demands of the 21ST Century, http://www.gao.gov/htext/d071188cg.html
[5] Michael T Klare, “Beware empires in decline”, AsiaTimes, Oct 19, 2006.
[6] Axel Brot, “Germany, the re-engineered ally”, AsiaTimes, Aug 8, 2007.
[7] Alguns autores, como Ernest Mandel, colocam a sua data de nascimento em 1968 (combinando sintomas económicos com rupturas político-culturais). Outros situam.na em 1971, quando os Estados Unidos renunciaram ao padrão dólar-ouro – o que coincidiu com o começo do declínio da sua produção petrolífera. Outros ainda em 1973-1974 quando estala a crise petrolífera internacional e se desencadeia um processo estagflacionário.
[8] Michael Douglas, “America’s Total Debt Report”, in
http://mwhodges.home.att.net/nat-debt/debt-nat.htm
*Este artigo foi-nos enviado directamente pelo autor

**argentino, economista, professor na Universidade de Buenos Aires

Tradução de Miguel Guedes

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