Texas contra Telavive: política estadunidense no Médio Oriente

James Petras*    20.Nov.06    Colaboradores

James Petras
“A Comissão Baker está a tentar reacertar a supremacia do mercado sobre o militar na definição das forças motrizes da construção do império, quer dizer, os interesses económicos das empresas de petróleo e o capital financeiro dos EUA sobre a dominância militar israelense na definição dos interesses estadunidenses para o Médio Oriente”

A luta no interior da estrutura de poder estadunidense entre os construtores económicos do império (doravante CEI) e os civis militaristas/Siocons [uma espécie de junção entre sionistas e neoconservadores; nota do tradutor] acerca das políticas dos EUA em relação ao Médio Oriente estão ao rubro. Os CEI têm agora uma expressão organizacional politicamente poderosa como a Comissão Baker (conhecida oficialmente como Gabinete de Estudos sobre o Iraque) liderada pelo anterior secretário de Estado, James Baker. Os CEI são apoiados por um grupo bipartidário de líderes do Congresso, sectores da elite militar tradicional, uma poderosa coligação de grupos petrolíferos do Texas e de sectores financeiros de Wall Street e potencialmente por uma larga maioria da opinião pública. Contra eles estão os civis militaristas no Pentágono, Departamento de Estado e Casa Branca (Rumsfeld, Cheney, Rice, Bolton e Bush), uma maioria decrescente de congressistas Democratas e Republicanos, os Presidentes das maiores organizações judaicas lideradas pela Comité de Assuntos Políticos Israelo-Americanos (AIPAC em inglês) e seus aparatchiks influentes nos mass media e numerosas frentes políticas de base (comités de acção política).

O que está em jogo é de tremenda importância para o futuro da política estadunidense; não só no Médio Oriente, que é o imediato catalisador de disputas entre ambos os lados, mas toda a maneira como a política externa dos EUA é formulada e como os EUA conseguirão defender e expandir o seu império global.

Crises e oportunidades: a base do confronto

Inúmeros factores têm convergido para precipitar esta confrontação intra-elites. Primeiro e o mais relevante é a prolongada, dispendiosa guerra impossível de vencer do Iraque. A política Siocon-civil-militarista (ZCCM em inglês) de invasões coloniais e de ocupação militar com o propósito de destruir os inimigos de Israel e aumentar o seu domínio no Médio Oriente tem enfraquecido os esforços dos EUA para sustentar a sua dominação global. A vasta absorção de recursos militares, tropas, reservas e sistemas logísticos de suporte face a uma guerra de guerrilha interminável, tem enfraquecido severamente a capacidade de Washington em aplicar força militar para intimidar ou intervir noutros locais estratégicos ou noutros países em conflito. As perdas militares no Iraque minaram o apoio público doméstico para presentes e futuras intervenções militares de apoio da construção do império. A persistente resistência política e militar à vasta ocupação militar dos EUA diminuiu o factor de intimidação tão necessário para a prossecução da diplomacia imperial. Numa palavra, a guerra do Iraque tem sido um constrangimento maior à construção, defesa e apoio político e económico doméstico do império, um factor principal na cristalização da Comissão Baker.

Em segundo lugar, a política da ZCCM de promover a supremacia de Israel no Médio Oriente é enormemente prejudicial para as maiores companhias petrolíferas e financeiras dos EUA. Exactamente quando os títulos da grande imprensa ligada à grande finança «rios de dinheiro inundando o Golfo trazem uma explosão das empresas de investimento», «o Dubai tenciona criar um fundo para explorar a liquidez no Golfo», «seguradores mundiais vêem ricos filões serem minados na Arábia Saudita» (Financial Times, 19 de Outubro de 2006, p.4), a Casa Branca e o Pentágono planearam novos e desestabilizadores confrontos militares com a Síria e o Irão, potencialmente arrebanhando centenas de biliões de dólares em investimentos lucrativos, contratos e juros. O inteiro aparelho político Siocon é só a maior força nos EUA arrastando o Congresso e o Executivo para acções militares que colocam em risco os lucros potenciais de petrolíferas, bancos de investimento, seguradoras e outros sectores chave da elite económica dos EUA. O paradoxo é que muitos dos ricos investidores bancários desejosos de obter algo dos filões do Médio Oriente são exactamente os mesmos grupos que financiam a AIPAC e os Siocons militaristas. Isto levanta preocupações de pressões cruzadas, jogos duplos, lealdades tribais e acenos com dólares!

Da perspectiva de defender os interesses globais dos EUA, estar amarrado militarmente no Iraque a longo prazo, não só é contraproducente como tem criado uma crise política. O consenso doméstico entre a elite política relativamente à compatibilidade do imperialismo com a democracia, tem sido partido em pedaços [torn asunder] por causa da manutenção da guerra. O bloco de poder ZCCM vale-se cada vez mais de poderes autoritários de guerra totalmente à margem da ordem constitucional existente, desprendendo-se da fachada de legitimidade do sistema político existente.

A Comissão Baker está a tentar reacertar a supremacia do mercado sobre o militar na definição das forças motrizes da construção do império, quer dizer, os interesses económicos das empresas de petróleo e o capital financeiro dos EUA sobre a dominância militar israelense na definição dos interesses estadunidenses para o Médio Oriente.

Para os deterministas económicos, para quem a política externa é apenas o resultado não mediado de poderosos interesses económicos, o falhanço do governo dos EUA em afundar um mendigo, ou seja um Estado militarista minúsculo [Israel, nota do tradutor] que vive a alimentar-se do Tesouro estadunidense a toda a hora, em favor das grandes empresas petrolíferas dos EUA que procuram contratos de biliões de dólares com os países árabes, é um mistério inexplicável. Inexplicável porque estes deterministas económicos estão tanto intencionalmente cegos ou deliberadamente preferem ignorar o poder político da ZCCM em tomar as rédeas dos interesses económicos globais dos EUA. A continuar este estado de coisas a crise política do império agravar-se-á – tanto ao nível doméstico como internacional – e perder-se-ão as maiores oportunidades económicas da economia global.

O Império contra-ataca

A relativa passividade e/ou impotência dos defensores primeiros do Império estadunidense, em relação à ZCCM, aquando da invasão do Iraque pode ser atribuída a uma série de factores. Em primeiro lugar, temos a extremamente bem organizada e sistematizada penetração da ZCCM na administração Bush. Armada com uma “missão”, uma intensa e uma altamente motivada convicção na acção militar como árbitro supremo da expansão imperial, os civis militaristas conjugaram forças com os Siocons que abraçaram com igual zelo a sua missão em usar o poder militar dos EUA para aumentar a dominação de Israel no Médio Oriente, prioridade central da política externa estadunidense.

Durante a longa marcha através das instituições nos últimos 25 anos a ZCCM foi capaz de penetrar e controlar todas as posições chave do Pentágono, Departamento de Estado e Casa Branca. Enquanto havia algumas objecções disseminadas por vozes marginais – nomeadamente oficiais, militares na reforma, conservadores tradicionais, pacifistas e gente de esquerda – poucos foram capazes de apreender a configuração de poder Siocon especialmente depois do 11 de Setembro. Mais importante, os construtores económicos do império estavam sem uma alternativa de liderança política e acreditaram na estratégia da “Guerra ao Terror” dos civis militaristas como a estratégia de segurança necessária e na reclamação do Pentágono e dos Siocons que a invasão do Iraque iria resultar numa vitória rápida e completa (com enormes benefícios para todos). Os construtores económicos do império acostumados a lidarem com colegas pró-Israel muito bem informados e competentes no mundo financeiro, assumiram que os estrategas político-militares da mesma corrente daqueles também fossem igualmente competentes em “publicitar e dirigir” a política imperial. O que a elite económica não previu foi o facto de os Siocons não partilharem as suas prioridades políticas: a política Siocon não estava dirigida para a criação de um regime estável e amigo dos interesses económicos dos EUA mas em destruir fisicamente qualquer país árabe ou muçulmano capaz de desafiar a dominação de Israel na região. Destruindo o Iraque para a Grande Dominação Israelo-Americana significava o desmembramento da República Iraquiana, a imposição de um regime colonial brutal por parte dos EUA e a gradual introdução de regimes etnicamente puros que fossem sujeitos aos interesses de Israel e estivessem abertos às companhias petrolíferas externas. A promessa em relação a estas últimas seria um conjunto de dividendos e clientelismos de forma a segurar o apoio das grandes petrolíferas ou a neutralidade relativa a uma política pró-Israel.

Enquanto a ZCCM foi bem sucedida na destruição do Iraque como Estado e como economia viáveis, assim cumprindo os objectivos de Israel relativamente à guerra, os construtores económicos do império assistiram ao completo e total desvendar das promessas não concretizadas pelos Siocons. A invasão levou a uma guerra de guerrilha popular prolongada. A desenhada perspectiva sionista de destruição das instituições estatais iraquianas (com Paul Bremer a despedir todo o pessoal militar e funcionários do Estado iraquiano) levou à formação de centenas de milhares de ex-soldados, oficiais e polícias anteriormente armados e treinados a juntar-se à Resistência iraquiana. A instabilidade regional e a hostilidade em relação aos interesses económicos dos EUA multiplicaram-se. À medida que em todo o Médio Oriente, e não só, que a ZCCM eram os mestres da política dos EUA para a região e que a prioridade de Washington era fazer as guerras de Israel, levou a que os EUA se tornasse num Estado pária no Médio Oriente, tal como o parceiro Israel.

A deslocada confiança de convergência de interesses entre os construtores económicos do império e a ZCCM rapidamente se desvaneceu quando os custos económicos e políticos começaram a pesar nas mentes dos ideólogos e subsequentemente dos líderes políticos da elite económica. Numerosas respostas ao acaso enfraqueceram os alvos mais vulneráveis e óbvios dos Siocons. Inicialmente eram os conservadores tradicionais que faziam soar o alarme nacionalista, apontando para o controlo dos Siocons da política dos EUA no interesse de Israel. Uma outra crítica, se bem que menos difundida, é a crítica de alguns intelectuais de esquerda nas páginas web. Antigos dirigentes da CIA e FBI, bem como coronéis e generais na reforma com laços às suas anteriores agências atacaram os Siocons, referidos como neo-cons, por mentirem e falsificarem dados mesmo antes da guerra. Operacionais Siocon no topo dos escalões do Pentágono (Wolfowitz e Feith) afastaram-se dos cargos.

O FBI prendeu 2 membros principais da AIPAC por espiarem para Israel. A opinião pública estadunidense, graças à Internet e a outras fontes alternativas de informação. Apesar de todos os enviesamentos pró-Israel nos media, a opinião pública registou uma maioritária visão de que a invasão do Iraque foi do interesse de Israel e não dos EUA. Os civis militaristas mais destacados, Cheney e Rumsfeld, tornaram-se os políticos mais detestados da Administração actual.

Apesar destes reveses no seu pessoal, o aparato da ZCCM manteve-se intacto. A AIPAC continua a reunir todos os membros líderes do Congresso e dirigentes do Partido e do Executivo na sua conferência anual. O Congresso ainda aprovou quase unanimemente a invasão israelense do Líbano, aprovou um apoio de 3 biliões de dólares a Israel (o subsídio anual) e apoiou entusiasticamente os ataques e bloqueios de Israel ao governo Palestino democraticamente eleito de Gaza. Rumsfeld, Cheney, Bush, Rice e o resto dos presidentes das maiores organizações judaicas nos EUA continuam o propósito de vitória na guerra do Iraque e com novas estratégias de guerra contra o Irão, Síria, etc. mesmo que a popularidade de Bush caia e que o número de soldados americanos mortos na guerra ultrapassem os 3000 e que as fraquezas económicas dos EUA sejam cada vez mais evidentes. O amplo e disperso criticismo da elite económica finalmente cristalizou-se, particularmente entre os construtores económicos do império, corporizados em James Baker, confidente de longa data da família Bush e “homem de confiança” nos círculos financeiros e petrolíferos EUA/Médio Oriente.

O Painel de Baker

A força da configuração de poder Siocon é evidente até na maneira e composição das deliberações do painel, em que James Baker III formulou as presentes alternativas à actual política dos EUA para o Médio Oriente. O painel de Baker é bipartidário, incluindo antigos líderes congressistas Republicanos e Democratas, directores da CIA, membros reformados do Supremo Tribunal de Justiça, um ex-Secretário da Defesa e outros notáveis. Em segundo lugar, o painel não inclui um único ideólogo Siocon, algum ex-membro da Administração Bush, apesar de alguns estarem espalhados pelas chamadas tabelas de especialistas envolvidas nos quatro grupos de trabalho. A táctica de Baker pretende ser inclusiva o suficiente para representar várias camadas da opinião das elites para ter o seu apoio quando o seu relatório for apresentado ao Presidente, Congresso e ao público. Ao mesmo tempo, é um painel suficientemente selectivo para minimizar a influência dos Siocon. Em terceiro lugar, a Comissão Baker tem como seu objectivo estratégico a subordinação da política militar à construção económica do império, em vez da actual abordagem de prejudicar a política económica às missões ideológicas e conquistas militares dos Siocons. Isto em termos práticos significa dar maior espaço para acções diplomáticas, alianças políticas heterodoxas baseadas em interesses económicos comuns e perseguir o estabelecimento de contratos e acordos economicamente lucrativos com as nações árabes e muçulmanas. Em quarto lugar, a Comissão Baker não tem nem virá a procurar atacar directamente a estrutura de poder dos Siocon ou sequer questionar os civis militaristas que conduzem a Máquina de Guerra de Bush. Pelo contrário, o painel colocará à disposição uma série de alternativas políticas que implicitamente apontam para uma nova Administração – livre do garrote israelense na política de Washington relativamente ao Médio Oriente e defenda em primeiro lugar e acima de tudo a construção do império estadunidense sem os constrangimentos de Israel.

A táctica de ignorar o bloco no poder Siocon ao mesmo tempo que se edifica uma alternativa é uma operação delicada dado o poder dos lobbies judaicos em manipular, recorrendo à amplificação proporcionada pelos seus acólitos no Congresso e nos media, aproveitando para lançar o epíteto do “anti-semitismo” contra os críticos. Assim a Comissão Baker irá reiterar a afirmação ritual de apoio à segurança de Israel e de massivo apoio externo, ao mesmo tempo dando relevo a uma maior pressão a Israel para resolver o problema palestiniano. Até onde Baker chegará na questão palestiniana, irá depender muito do grau de legitimidade que sentir para enfrentar a campanha de calúnias orquestrada pelos Siocons. Irão os Abe Foxmans da ADL ter a lata de acusar alguém altamente cotado pelas elites do establishment de anti-semitismo e de não apoiar a política israelense de limpeza étnica?

Se Baker se moveu metódica e prudentemente para uma reorientação da política dos EUA fora do âmbito da ZCCM, ele fez isso ao organizar muito cuidadosamente uma equipa de investigadores, especialistas e notáveis cujos relatórios foram apresentados como uma série de propostas políticas que defendem uma “estratégia vitoriosa para a construção do império” como oposta ao corrente impasse e declínio do império. Baker sabe em primeira-mão o poder da configuração de poder Siocon e por isso é muito pouco provável que atribua abertamente responsabilidades do actual desastre à política de subordinação dos interesses dos EUA aos do Estado de Israel. Em contraste, Baker estabeleceu um aparato organizacional cuja composição exclui de facto os Siocons e dessa forma recoloca os interesses imperiais dos EUA no centro da agenda política. Da mesma forma, Baker não irá confrontar directamente Rumsfeld, Cheney, Rice, Elliot Abrams e outros civis militaristas no poder; pelo contrário, ele irá apresentar uma série de propostas que serão incompatíveis com seus mandatos. Baker está a contar na crescente maioria de Democratas e Republicanos no Congresso que questionam a política actual, uma mudança nos mass media, o crescente insatisfação junto de generais, burocratas do Departamento de Estado e oficiais do Pentágono, sectores da elite económica e um repúdio massivo da opinião pública, de modo a forçar o centro de poder Rumsfeld-Hadley-Abrams a saírem de seus cargos e substitui-los por dirigentes e conselheiros mais abertos a uma nova abordagem relativamente ao Médio Oriente.

Se é verdade que o propósito primeiro da Comissão Baker é retirar a definição de políticas para o Médio Oriente dos elementos mais pró-Israel e em segundo lugar subordinar as abordagens militares de construção do império aos interesses do mercado, a questão surge relativamente a que políticas estratégias, alianças tácticas, alinhamentos regionais e que propostas específicas relacionadas com a presença militar estadunidense no Iraque irá Baker lançar para cima da mesa?

O Plano de Baker

Em primeiro lugar e acima de tudo deve-se compreender que a perspectiva de Baker é como proteger a construção do império dos EUA numa escala global e, em particular, defender e expandir os interesses imperiais estadunidenses no Médio Oriente. Em segundo lugar, ele está preocupado com a restauração da capacidade militar intervencionista em face da perda assinalável de homens e de moral em resultado da invasão do Iraque. Em terceiro lugar, Baker está interessado em limitar os efeitos secundários nos Estados clientes da região face a uma eventual redução dos efectivos americanos no Iraque. Em quarto lugar, ele procura construir novas relações tácticas com os actuais adversários sem alienar Israel e subsequentemente seus agentes agressivos e vociferantes dentro dos EUA.

Com estes parâmetros Baker tem vários caminhos políticos abertos e passíveis de serem explorados.

As opções de Baker

Com quase toda a certeza, o painel de Baker não irá recomendar uma saída faseada das tropas americanas do Iraque a não ser que ocorra um colapso do exército e polícia iraquianos. Por seu lado, ele irá pressionar para uma política que inclua os principais combatentes ou insurgentes (incluindo os ex-membros do partido Baath e os pró-iranianos) num esquema de partilha de poder com a esperança de fragmentar a resistência e mesmo isolá-la e enfraquecê-la. Isto irá ser anunciado como uma “nova direcção”. Com esse objectivo Baker irá propor negociações com o Irão e com a Síria e persuadi-los para que cortem no apoio militar à resistência iraquiana, ao mesmo tempo que lhes oferece uma espécie de coexistência pacífica, deitando por terra as ameaças de intervenção militar, sanções económicas e de formação de grupos terroristas financiados e treinados pela CIA. Claramente a Síria e o Irão não irão cooperar se Washington continuar a seguir a agenda militarista de confrontação dos Siocons. Baker sabe que dentro da estrutura de poder iraniana há tecnocratas liberais, líderes económicos bem sucedidos, clérigos oportunistas, dirigentes estatais corruptos nos sectores do gás natural e do petróleo que estão abertos a negociar com os EUA e desejosos de firmar um acordo com Washington, mesmo contra os intentos dos seus colegas xiitas – se Washington oferecer uma partilha de poder no Iraque, cai por terra a sua postura beligerante e liberta-se da supremacia regional de Israel consubstanciada na política Siocon. A Síria e o Irão têm um historial de colaboração com os EUA na invasão do Iraque, antes e depois, partilhando serviços e dados de espionagem e subsequentemente apoiando o processo eleitoral orquestrado pelos EUA. É inquestionável que há sectores xiitas iraquianos que olham para o Irão para buscar apoio material e moral; que tolerem um acordo entre o Irão e os EUA que na prática continue a manter a presença militar estadunidense é muito improvável. Baker estará a descurar e a subestimar o grau de autonomia que a resistência xiita tem mantido. Um acordo EUA-Irão-Síria iria igualmente excluir uma parte significativa dos não-xiitas que continuam a ter uma grande importância na resistência (sunitas, baathistas, entre outros).

A “Solução Jugoslava”, ou seja, a cisão da República do Iraque em pequenos Estados clientes é uma opção, que a Comissão Baker estará a tomar em consideração muito provavelmente. Este é o plano preferido pelos falcões Democratas como Hilary Clinton, Charles Schumer e Joseph Biden. Isto envolveria a divisão do Iraque em mini-feudos liderados por clientes dos EUA e de Israel: os curdos no norte, lideres tribais sunitas no centro-oeste e um sul xiita com Bagdad completamente submetida. Isto poderia ser um esquema difícil, violento e complicado de executar porque iria implicar limpezas étnicas, desenraizando milhões de pessoas. Apesar de tudo, a altamente desigual distribuição de recursos naturais iria excluir o grupo mais combativo das fontes mais lucrativas de rendimento – os sunitas.

A solução de três Estados poderia requerer o fraccionamento do actual exército e sua reorganização através de linhas étnico-religiosas numa altura em que o conflito militar está extremamente volátil e sem a existência de alguém na resistência tendente a estabelecer algo parecido com o até agora Estado secular unificado. À parte, os líderes tribais iraquianos, os expatriados e os curdos, o processo de desconstrução nacional só iria aumentar a escalada do conflito em vez de o atenuar. O lado positivo seria o forte apoio que esta proposta poderia receber de Israel e assim de todo o lobby judaico e seus clientes – o Congresso e a Casa Branca.

Quase sem excepção, os soldados ideológicos de Israel têm levado as colunas de opinião dos principais jornais, televisões e rádios (apresentando-se como especialistas reputados acerca do Médio Oriente) a promover a cisão do Iraque em mini-Estados e a perseguir e ultrapassar a linha de assassinatos para lá dos 650.000 civis iraquianos e dos mais de 3.000 soldados americanos. Basta ler os artigos obscenos publicados na edição de 26 de Outubro no Financial Times para se perceber esta campanha cruel para obliterar completamente o Iraque do mapa e da frente de Israel (ver os artigos de Michael Rubin “Porque a saída do Iraque é a pior opção”, de Lawrence Freedman “A América tem de aprender a ter paciência” e de Richard Betts “Olhem para a Bósnia, e não para o Vietname, para uma solução realista” Financial Times, Outubro 26 de 2006, página 13). Desnecessário é dizer que é fácil para os Rubin e Freedman dos EUA e do Reino Unido pregarem por paciência numa guerra sem fim, quando os judeus são menos de 0,5% das tropas das forças armadas estadunidenses e menos ainda a sua proporção na frente de combate e com virtualmente nenhum filho ou neto dos proeminentes ideólogos Siocon entre as tropas ocupantes.

Baker irá por isso sofrer uma ofensiva ideológica em larga escala pelos soldados ideológicos de Israel instalados nos EUA, precisamente quando quase toda a gente se está a virar contra a guerra e quando cada vez mais americanos têm coragem para apontar as responsabilidades do lobby judaico. Obviamente isolados perante os americanos que se preocupam com a inutilidade de vidas perdidas, os Siocon estão a focar as suas atenções em influenciar ou neutralizar as recomendações que têm saído da Comissão Baker. Os Siocons seguem o ditado imperial britânico: governa via guerras intermináveis ou arruína através da criação de mini-Estados étnicos ou tribais.

Dado que sérias aberturas diplomáticas com a Síria e o Irão – já sugeridas por Baker (“a política é acerca de falar com os nossos inimigos”) – são muito improváveis face à direcção actual da Casa Branca e da ausência de um líder iraquiano com vontade e capacidade para retalhar o país, o Painel Baker estará mais inclinado a propor uma redução gradual das tropas estadunidenses da frente de combate. Isto poderá até ser uma necessidade, pois os próprios generais americanos no Iraque argumentam que os EUA não podem continuar a sustentar 140 mil soldados a ocupar o país. A “estratégia de redistribuição” não é um método de demissão mas um método para ganhar, para cooptar o apoio Democrata para a continuação da guerra até 2008, o ano das eleições presidenciais – vendo isto especialmente à luz das derrotas dos Republicanos no Senado e no Congresso. (Ter em conta que membros destacados do Partido Democrata como Clinton, Biden e Schumer querem enviar ainda mais tropas para o Iraque!). A diminuição da força das tropas dos EUA na ausência de um acordo de partilha de poder com os insurgentes e com o Irão é tendente a aumentar a fragilidade do regime e a aumentar o número de deserções/infiltrações no exército iraquiano treinado e formado pelos EUA. Uma contagem decrescente por parte dos EUA irá aumentar as probabilidades de as tropas da coligação saírem do país ainda antes da retirada das tropas americanas. Aliás, um General Britânico de topo, Richard Dannatt tomou um precedente com uma tomada de posição condenando o apoio de Tony Blair à guerra, chamando a atenção que a presença de uma coligação internacional de tropas “iria agravar ainda mais o problema da segurança no Iraque” (Daily Mail, 12 de Outubro de 2006).

A tarefa da Comissão Baker em arranjar novas políticas para conter os efeitos da invasão do Iraque é incompatível com a política crescentemente beligerante no que toca ao Médio Oriente levada a cabo pela Casa Branca. Baker não pode evitar desafiar a política dos Siocon para o Médio Oriente se ele quiser estabilizar o Iraque: ele precisa da cooperação do Irão e da Síria para cooptar insurgentes e/ou subdividir o Iraque. Nenhum alto grau de inteligência na execução de manobras, algo muito forte em Baker (como pode ser testemunhado pelos seus movimentos na eleição fraudulenta na Florida em 2000), pode evitar a dura realidade de perder uma guerra regional, em que os EUA estão até a jogar com uma parelha de cartas mais fraca. Até um certo ponto, o falhanço dos EUA aprofunda-se e a desaprovação pública nos EUA da invasão conduzida por Bush já excede os 62%. Ao mesmo tempo, à medida que a resistência à ocupação aumenta e se torna mais sangrenta, que os feridos e mortes de soldados americanos chega às centenas por mês, que a “guerra civil” mina qualquer autoridade governamental, que um importante aliado dos EUA ameaça a sua posição estratégica na região (Arábia Saudita, Jordânia e Egipto), então e só então sob o nome do império, do mercado livre e do petróleo poderá Baker virar-se contra os arquitectos do militarismo Siocon para o Médio Oriente e clamar uma saída acelerada do Iraque.

Não é necessário dizer que a opinião pública dos EUA está a milhas de um qualquer novo rumo proposto pelas elites. 50 por cento dos americanos entre os 18 e os 29 anos acredita que “o trabalho do lobby de Israel no Congresso e na Administração Bush tem sido um factor decisivo que levou à guerra no Iraque e de uma possível guerra com o Irão”. Cerca de 52% dos liberais partilha o mesmo sentimento.

As divisões na elite em torno da Administração estão a chegar ao auge: Alberto Fernandez, director de diplomacia pública no Departamento de Estado para os Assuntos do Próximo Oriente [Near Eastern] publicamente denunciou a “arrogância e estupidez” dos EUA no Iraque, exactamente depois de Bush ter dito que era necessário prosseguir no mesmo sentido. Richard Armitage, Secretário de Estado em 2001-2005, defendeu uma “saída faseada das forças americanas do Iraque”.

À medida que os civis militaristas Siocon se acocoram [hunker down] nas salas da Casa Branca e junto dos seus apoiantes financeiros, à medida que o Grupo de Estudos sobre o Iraque de Baker apresenta propostas às apalpadelas sem interlocutores no gabinete do Presidente e sem seguidores no público americano, é claro que face a uma saída consequente dos EUA da guerra, as feridas de guerra irão agravar-se e espalhar-se-ão das frentes de batalha de Bagdad para as ruas da América. Só uma derrota catastrófica no Médio Oriente levaria a um novo rumo para os EUA, fora do Iraque, mas também liberto do albatroz do lobby de Israel.

Novembro de 2006

* Este artigo foi enviado a odiario.info pelo autor, nosso amigo e colaborador especial.

Tradução de João Aguiar

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