Três horas na Europa

Correia da Fonseca    22.Dic.11    Colaboradores

Correia da FonsecaHá uma outra Europa: a do secular humanismo, a que em Paris ofereceu ao mundo uma trilogia libertadora e o primeiro código de direitos humanos, a Europa das insurreições contra todas as tiranias, a Europa dos povos. Mas a que surge nos noticiários é a falsa Europa comandada pelos executivos do capitalismo transnacional, especulativo e agiota.

1. Receio que estas duas colunas venham a ser, desta vez, uma espécie de crónica de Natal antecipada, ou que no mínimo alguma coisa de natalício nelas se infiltre ainda que com hálito laico que será bem-vindo. E a coisa explica-se porque de algum modo decidi oferecer a mim próprio uma espécie de prenda de Natal a que de súbito me senti com direito, depois de horas e horas, para não dizer que anos e anos, a suportar programas de televisão medíocres e imbecis, quando não tóxicos e de facto criminosos. Se me permitem, eu conto. Foi o caso que num dos dias da passada semana me apercebi de que o Mezzo, canal sobretudo de música dita clássica, embora não só, estava a transmitir «Les Années de Pélerinage», de Liszt, numa interpretação de Bertrand Chamayou. Durante uns minutos fiquei ali, diante do televisor, com uma vontade danada de ficar, mas num outro canal chamava-me a repetição de um debate que não podia perder, já havia sido mau ter falhado a primeira transmissão, pelo que tive de trocar Liszt e Chamayou pela troca de razões ou sem-razões entre dois supostos politólogos entre os muitos que abundam na televisão portuguesa. Abalei, pois, para o meu dever, mas ficou-me na boca o gosto amargo da frustração. Ora, aconteceu que um ou dois dias mais tarde soube que o Mezzo iria repetir a transmissão de «Les Années» durante a tarde de sábado. Não hesitei, logo ali decidi não perder a oportunidade e faltar a eventuais deveres alternativos, fossem eles quais fossem. Afinal, o Natal estava próximo e as prendas não hão-de ser apenas para os garotos. A questão poderia ser que a peça de Liszt demora perto de três horas a executar e três horas são por vezes muito tempo. Ainda assim, não hesitei, e não estou nada arrependido, muito antes pelo contrário.

2. Foram três horas que tenho por inesquecíveis. A tarde estava cinzenta e fria, resolutamente mal encarada, mas esse cenário exterior talvez até tivesse reforçado o sentimento de conforto que a música de Liszt me proporcionava. Como era esperável, o jovem Bertrand Chamayou pareceu-me notabilíssimo, e é-o decerto, mas é claro que o melómano razoavelmente ignorante que sou não pode arriscar-se a ter opinião sobre um virtuose do piano. O que me parece importante que aqui fique dito e sublinhado é que não é preciso uma grande cultura musical para que a grande música seja um factor verdadeiramente precioso de bem-estar, de momentos de verdadeira felicidade. Acontece que Liszt nem sequer é um dos compositores que prefiro, mas não podemos passar a vida a ouvir apenas os autores predilectos, método aliás óptimo para ficarmos de gosto estreitinho e anquilosado. E comecei a sentir, com razão ou sem ela, que aquela música e aquele pianista eram a Europa verdadeira, a que vale a pena integrar e onde não mandam a Merkel, o Sarkozy e as agências norte-americanas de rating. Porque música daquela é a civilização que, aliás, a barbárie dominante já em larga medida colocou em desuso.

3. Aconteceu, pois, que durante perto de três horas me senti verdadeiramente na Europa e me orgulhei de ser europeu. Graças ao húngaro Franz Liszt, ao francês Bertrand Chamoyou, ao canal parisiense Mezzo e à televisão, cidadã do mundo. Lembrei-me então de uma frase já antiga do suíço Denis de Rougemont: «(…) a Europa, essa Grécia ampliada». Seria, pois, a Europa do secular humanismo, a que em Paris ofereceu ao mundo uma trilogia libertadora e o primeiro código de direitos humanos, a Europa das insurreições contra todas as tiranias; não a falsa Europa comandada pelos executivos do capitalismo transnacional, especulativo e agiota, de que eu voltaria a ter notícias lá para a noite, quando chegassem os noticiários. Os dedos de um jovem de Toulouse percorriam as teclas do Steinway and Sons e eu estava grato à TV. Nem sequer me lembrava de que a televisão do meu País dá claros sinais de não gostar da melhor música, que nunca me ofereceria as quase três horas de «Les Années de Pélerinage» a pretexto de que aquela música não tem público. O que é verdade. Porque mais de meio século de televisão portuguesa reduziu a população telespectadora à condição de consumidora acrítica de estórias sem densidade, de concursos toscos ou rascas, de futebol, de informação sempre com sotaque norte-americano. É também um cinzentismo, mas não o que naquela tarde, lá fora, forrava o céu: é um cinzentismo que nos entra pelos olhos e pelos ouvidos, que gota a gota se nos infiltra no entendimento. E acaba por nos impedir de sermos verdadeiramente europeus.

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