Trump, Charlottesville, Chemnitz e a luta

Fred Goldstein    09.Oct.18    Outros autores

Ninguém sabe nesta altura como é que vai resultar a luta entre Trump e aliados, por um lado, e as forças anti-Trump dentro da classe dominante, por outro. Mas seria fatal para os progressistas e revolucionários confiar na reaccionária classe dominante para derrotar Trump.

Para muitos progressistas, Donald Trump parece estar de rastos. Esperam que o sistema o deite abaixo. Existe uma grande expectativa de que o Partido Democrático tenha ganhos eleitorais e consiga a oportunidade de o desacreditar mais.

Existe uma crescente demonstração pública da corrupção de Trump. Muitos do seu círculo privado confessaram-se culpados ou foram acusados de mentir, lavar dinheiro e fraude fiscal e/ou bancária. Há uma sua crescente ansiedade raivosa expressa nos tweets contra a investigação Mueller. E também o seu isolamento social da classe dominante, conforme demonstrado pela sua exclusão das altamente anunciadas super-patrióticas e militaristas cerimónias fúnebres por John McCain que duraram uma semana.

Mas, a marcha fascista em Charlottesville, Va., de agosto de 2017 e o recente motim fascista anti-imigrante de Chemnitz, na Alemanha, mostram como é ilusório o ponto de vista de que a derrota de Trump vai resolver o problema a reacção racista.

Ninguém sabe nesta altura como é que vai resultar a luta entre Trump e aliados, por um lado, e as forças anti-Trump dentro da classe dominante, por outro. Mas seria fatal para os progressistas e revolucionários confiar na reaccionária classe dominante para derrotar Trump.

Além disso, ainda que a derrota política de Trump seja importante, não será fundamental porque não vai tratar das forças racistas, misóginas, xenófobas, nacionalistas e chauvinistas que Trump conjurou e consolidou numa base reaccionária. Esta base não vai desaparecer, seja o que for que aconteça a Trump. Os trabalhadores e oprimidos terão ainda que enfrentar esta massa reaccionária. O que vai ser preciso no futuro é derrotar o trumpismo, não apenas nas urnas, mas no terreno.

Charlottesville — o fascismo mostra o rosto

O mundo teve um vislumbre das forças que emergem à volta de Trump no ano passado em Charlottesville, quando o Klan e os nazis unidos com outras forças fascistas em “Unir a Direita” armaram uma parada com tochas no campus da Universidade da Virgínia em defesa da estátua de Robert E. Lee, general comandante da escravocracia durante a Guerra Civil.

Foi morto um manifestante antifascista, um negro foi brutalmente espancado e muitos foram feridos enquanto a polícia observava passivamente. Trump recusou-se a denunciar os fascistas e finalmente afirmou que havia boa gente “de ambos os lados.”

Felizmente, o movimento recuperou deste assalto e forçou a remoção de estátuas da Confederação em muitas cidades, desde a Louisiana até ao Texas. As forças da Unir a Direita receberam um importante revês quando o movimento derrubou uma estátua da Confederação em Durham, N.C.

Devido à resistência militante, o comício da “Unir a Direita 2” em Washington, D.C. no primeiro aniversário de Charlottesville no último 10 de Agosto foi um fiasco.

Forças pró-Confederação em posições elevadas

No entanto, até que ponto as forças racistas pró-Confederação estão infiltradas na classe dominante foi o que ficou demonstrado pela reacção da administração da Universidade da Carolina do Norte ao recente derrube da estátua confederada em Chapell Hill, N.C.

A estátua do soldado da Confederação foi derrubada por estudantes depois da sua campanha para conseguirem que as autoridades a removessem não ter dado resultado. Depois de derrubada, a universidade e o conselho de governadores decidiram que devia ser recolocada no campus. Entretanto, foram emitidos mandatos de captura contra os estudantes que se manifestaram.

Este incidente ilustra como a simpatia pró-Confederação se encontra profundamente imbuída na classe dominante 150 anos depois da Guerra Civil. Chapell Hill é considerada uma instituição liberal. Estados de todo o Sul e noutras zonas aprovaram leis proibindo a remoção de estátuas sem consentimento expresso da sociedade histórica do Estado, independentemente dos sentimentos de sectores da população. afro-americanos ou anti-racistas progressistas. Colégios e universidades liberais da Ivy League (Grupo de instituições académicas privadas de carácter elitista – N.T.) recusaram igualmente ceder neste assunto.

O racismo e o rosto do fascismo nos EUA

A origem deste racismo subjacente que penetra a sociedade capitalista americana recua até à traição ao povo escravo após a Guerra Civil por parte da vitoriosa classe capitalista do Norte.

Os exércitos do Norte ocuparam os estados esclavagistas do Sul. Houve um período de Reconstrução de 1865 a 1877. Foram garantidos direitos de voto às pessoas anteriormente escravas. Muitos afro-americanos foram eleitos para diversos órgãos estatais e locais. Durante o breve período de Reconstrução, foi criado um Bureau de Homens Libertados e foram aplicados aos afro-americanos pelas forças militares de ocupação americanas direitos de propriedade e outros direitos como o direito a processar, a participar num júri, etc.

Este período de Reconstrução terminou abruptamente em 1877 com a retirada das forças dos Estados Unidos após o Compromisso Hayes-Tilden, no qual foi dada a presidência a Rutherford B. Hayes em troca da retirada das tropas do Sul.

O domínio político do Sul pela anterior escravocracia foi restabelecido. Os anteriores escravos foram resubmetidos e forçados a uma forma de feudalismo ou esclavagismo rural chamado partilha de produção. Os linchamentos alastraram. Foi aplicada uma segregação racista rígida. Os grandes proprietários mais uma vez tomaram conta do Sul e isso durante 100 anos.

Não houve qualquer tentativa por parte da classe capitalista do Norte no sentido de purgar o Sul do racismo e dos funcionários racistas. Não houve qualquer campanha de reeducação entre a população branca. Não foram destinados quaisquer recursos à transformação antifascista do Sul. Os capitalistas do Norte ficaram satisfeitos com a construção de linhas de caminho-de-ferro e de navegação e com a criação de bancos para aproveitamento da escravatura da terra dos afro-americanos. O racismo não apenas foi reforçado no Sul com a violência e os linchamentos do Ku Klux Klan, os Códigos Negros, a segregação Jim Crow, os impostos censitários, etc., como prevaleceu no Norte.

Chemnitz, a queda do muro de Berlim e o fim da des-nazificação

Fascistas, direitistas e racistas anti-imigrantes de todas as espécies foram mobilizados neste país por Donald Trump. Ele fomentou o seu racismo anti-imigrante até um nível mundial. Esta tendência anti-imigrante, de direita reflectiu-se igualmente na Europa entre as forças fascistas e pró-fascistas. Trump assemelha-se muito à direita europeia.

A 28 de Agosto, o mundo assistiu ao horrível espectáculo de uma horda de milhares de nazis e simpatizantes anti-imigrantes chegando de todas as partes da Alemanha para ocuparem as ruas da cidade alemã de Chemnitz à caça de imigrantes “como lobos”, conforme o New York Times descreveu a 31 de Agosto.

A horda foi formada após a imprensa capitalista ter desencadeado o acontecimento com o título “Homem de 35 anos anavalhado na cidade.” Correram rumores de que o homem atacado protegia uma mulher de um assalto sexual por parte de imigrantes. Até a polícia teve que mais tarde declarar esse rumor falso.

Na noite seguinte, cerca de 8 mil racistas ocuparam o centro da cidade e caçaram todos os que suspeitavam de ser imigrantes. Houve saudações nazis com “Sieg Heils”, banidas na Alemanha, e cânticos de “Apanhamos todos.”

A publicação burguesa alemã Der Spiegel relatou que “a polícia na Saxónia é regularmente mencionada nos títulos quando, por exemplo, impede os jornalistas de trabalhar ou não mobilizam suficientes agentes, obrigando-os a assistir passivamente aos tumultos extremistas nas ruas.” (Der Spiegel, 31 de agosto)

Chemnitz era antes chamada Karl-Marx-Stadt durante o período da República Democrática Alemã, antes da queda do muro de Berlim em 1989 e da restauração do capitalismo quando a Alemanha Ocidental anexou a Alemanha Oriental em 1990. É a terceira maior cidade do Estado da Saxónia no sueste, com uma população de 250 mil habitantes.

Des-nazificação na Alemanha Oriental socialista

Depois da ocupação da Alemanha de leste pelo Exército Vermelho em 1945, o Partido Comunista fundiu-se com o Partido Social Democrata, tornando-se o Partido Socialista Unificado. Em 1949, foi criada a RDA no seguimento da criação da Alemanha Ocidental. O novo governo, ao contrário do que aconteceu na Alemanha Ocidental ou República Federal capitalista, deu início a um vigoroso programa de des-nazificação.

No Ocidente capitalista, altos quadros nazis mantiveram as suas pensões e obtiveram cargos oficiais. “Um total de 25 ministros, um presidente e um chanceler da República Federal Alemã – como a Alemanha do pós-guerra é oficialmente conhecida.” (Der Spiegel, 6 d Março de 2012) A lista foi finalmente forçada a tornar-se pública pelo Partido da Esquerda.

A RDA, sob liderança socialista, adoptou uma atitude completamente oposta. Era sem dúvida muito difícil construir um Estado e uma sociedade com uma população que tinha vivido debaixo de Hitler durante 12 anos. Contudo, a tentativa foi feita.

Por exemplo, Bruno Bruni de la Motte de nenhum modo socialista escreveu no Guardian de Londres em 8 de Março de 2007: “Nasci e cresci na República Democrática Alemã. Os nossos livros escolares tratavam com profundidade do período nazi e do que ele fez à nação alemã e à maior parte da Europa.

“No decorrer da sua escolaridade, todos os alunos visitavam pelo menos uma vez um campo de concentração, onde um antigo internado explicava em detalhe o que se passava. Todos os campos de concentração na antiga RDA foram mantidos como locais comemorativos “para que ninguém esquecesse.” O próprio governo incluía uma boa proporção de alguns, incluindo judeus, que tinham sido forçados a fugir do fascismo de Hitler ou sido internados.

“No Leste, tiveram que ser encontrados de um dia para o outro milhares de novos professores, visto que aqueles manchados pela ideologia nazi não eram adequados para ensinar a nova geração do pós-guerra, o que resultou em haver escolas durante alguns anos com pessoal docente pouco treinado ou incompetente; todos os advogados foram igualmente substituídos….”

O nazismo revitalizado pela Alemanha capitalista

De la Motte continua, “Na Alemanha Ocidental [capitalista] milhares de oficiais de comando nazis, juízes que tinham enviado judeus e gente de esquerda para a morte, médicos que tinham feito experiências em vítimas nos campos de concentração, políticos e outros foram deixados ilesos e continuaram nas suas profissões.”

A queda do muro de Berlim e o regresso do capitalismo trouxeram uma rápida mudança. Logo de início houve manifestações contra os imigrantes. Políticos nazis e de direita voltaram a mostrar-se sob a forma de racismo anti-imigrante e xenofobia.

Não é surpresa que, passados 29 anos da restauração da exploração capitalista e com a rastejante crise económica mundial a atingir a Alemanha, incluindo jovens e a pequena burguesia, o movimento neofascista assumisse o tom de uma cruzada racista e anti-imigrante.

Nos EUA, ainda mais do que na Europa, o racismo sob uma ou outra forma tem sempre sido a ponta avançada do fascismo e o rosto da reacção política.

A classe capitalista nunca tentou erradicar o racismo

Não é por acaso que o KKK e os nazis se uniram em torno de Barry Goldwater na sua campanha para presidente em 1964. Não é por acaso que Richard Nixon começou a sua campanha presidencial em 1972 com uma “estratégia sulista” racista para trazer os Democratas sulistas para o Partido Republicano na senda do movimento dos Direitos Cívicos.

Deve também ser notado que em 1982 Ronald Reagan iniciou a sua campanha presidencial em Filadélfia, Missouri, com bandeiras da Confederação esvoaçando, numa cidade em que três trabalhadores dos direitos civis tinham sido assassinados pelo Klan em 1964 durante a campanha do direito de voto no Sul. E Bill Clinton, além de aprovar legislação racista sobre o encarceramento em massa, a pena de morte e o “terrorismo”, mostrou o seu racismo durante a campanha eleitoral ao regressar ao seu Estado de Arkansas para testemunhar a execução de um deficiente mental negro.

O fascismo na fronteira

Agora mesmo, o ICE (Immigration and Customs Enforcement = Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas – N.T.) e a Patrulha de Fronteira levam a cabo medidas fascistas contra os imigrantes separando famílias deliberadamente e encurralando trabalhadores por todo o lado.

Assim, a classe capitalista teve 150 anos para erradicar o racismo e não fez esforços sérios para tal. Os capitalistas mostraram que sentem como seu interesse de classe perpetuá-lo.

Jamais instituíram com profundidade qualquer campanha educativa anti-racista para fazer todos os alunos das escolas verem exposições fotográficas de linchamentos e relatos pelas famílias ou vizinhos das vítimas. Os bairros de escravos não foram conservados para serem mostrados em visitas obrigatórias, de modo a ninguém os poder esquecer. E, significativamente, não foi paga qualquer compensação às vítimas da escravatura, nem lhes foram entregues terras dos proprietários das plantações para quem trabalharam.

Em resumo, a classe dominante capitalista preservou sempre o racismo em vez de o eliminar, tal como a classe dominante alemã nunca fez um esforço determinado para erradicar o nazismo.

As forças revolucionárias nos EUA têm que se organizar para lutarem contra o reavivar da base racista concentrada impulsionador Trump. Os trabalhadores progressistas, revolucionários e avançados têm também de estar preparados para Mutarelli de Trump, porque o racismo anti-imigrante e anti-negros é uma arma letal que os patrões têm de reserva para os tempos de crise.

Tradução: Jorge Vasconcelos

O original encontra-se em www.workers.org

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