Trump junta no Golfo Pérsico a doutrina de Obama com a doutrina Carter

Nazanín Armanian    19.Jul.19    Outros autores

Para os EUA, o Golfo Pérsico é um nó geoestratégico fundamental. Desde o final da 2ª Guerra Mundial que ali se instalaram, mantendo-se graças a uma enorme força militar de ocupação e à aliança com alguns dos regimes mais reaccionários à face da Terra. Hoje, se a presença militar aumentou ainda, manter essas alianças pode tornar-se mais difícil. Os povos não aceitam para sempre ser dominados, e as classes dominantes podem encontrar junto de outros parceiros melhores vantagens económicas. Infelizmente, para os EUA resta sempre o caminho da guerra.

“Se qualquer movimento de jogadores no tabuleiro piora a situação para todos, a única forma de ganhar é não jogar” diria a teoria dos jogos, embora o imperialismo viciado em guerra actue por inércia, porque faz parte da sua natureza. E a guerra que os EUA estão a preparar contra o Irão será um jogo de soma zero, já que envolve um terceiro jogador: nada menos do que o colosso chinês. Portanto, mais do que nas vastas fronteiras terrestres do Irão, semeadas com bases militares dos EUA, é no Golfo Pérsico (GP) e no Oceano Índico que estão tendo lugar as provocações para uma guerra contra o Irão, onde a China tem grandes interesses.
Apesar de Donald Trump e Ali Khamenei insistirem em que não procuram a guerra, John Bolton lançou uma movimentação militar esmagadora sob o pretexto de um relatório do Masad (um dos inventores das armas de destruição em massa no Iraque!), para acusar Irão de planear ataques terroristas nestas águas. A tensão aumentou com o estranho evento no dia 20 de Junho, quando um drone americano (possivelmente) viola o espaço aéreo do Irão e os Guardiões da Revolução Islâmica (GRI) o abatem. Quando o mundo esperava uma reacção contundente dos EUA, o seu presidente volta novamente a troçar da inteligência de quem o ouve contando ter ordenado o bombardeamento do Irão, mas que dez minutos perguntou a alguém que passava por ali “quanto iranianos irão morrer?” “150, senhor”, respondeu esse alguém. Portanto, «Pare o bombardeamento!” ordena o compassivo Trump (que sem pestanejar já matou milhares de civis na Síria, Iémen e Iraque), por ser ‘desproporcional,’ uma vez que o Irã poderia ter abatido uma aeronave tripulada que se seguiu o drone, mas não o fez, pelo que o mesmíssimo presidente dos Estados Unidos agradece aos iranianos. Perguntas:
- É possível que Trump não tenha avaliado as baixas humanas, os danos materiais do bombardeamento e a possível reacção do exército iraniano antes da ordem?
- É proporcional a sua ameaça de que seria o “fim oficial” do Irão - isto é, 80 milhões de almas - no caso de Teerão abandonar o acordo nuclear?
- É possível que o drone quisesse provocasse uma reacção militar do Irão, sem a autorização de Trump, e que ele impedisse uma maior escalada? Há também rumores no Irão de que a acção imprudente do GRI foi sem a permissão de Khamenei.

Porquê no Golfo Pérsico?

O relacionamento de Washington com esta região que alberga quase metade do petróleo mundial passou por várias etapas:
1. Com o fim da Segunda Guerra Mundial os EUA, cuja economia não dependia do petróleo importado, estabeleceu seu controlo sobre o GP com dois objectivos:
2. a) Obter vantagens sobre a URSS (um dos principais produtores e exportadores mundiais de petróleo e gás), garantindo o acesso dos seus aliados capitalistas a essas reservas.
3. b) estabelecer o controlo sobre a Europa e o Japão, tornando-os dependentes do seu estatuto de polícia do GP: sacrificará a vida aos povos desta região, com golpes de Estado e guerras, para uma Europa de bem-estar.
4. A derrota no Vietname fará com que os EUA tire um tempo sabático e reduza a sua presença militar no GP: a doutrina Nixon proporá o projecto de Twin pillars (pilares gémeos) em que o Irão e a Arábia Saudita, armados até aos dentes, velarão pelos interesses dos EUA. Sim, o chamado “mundo livre” versus países socialistas incluiu semelhantes ditaduras.
5. Com a queda do Xá do Irão e a tomada do poder pelas forças marxistas no Afeganistão em 1978, uns EUA democratas elaborarão outra estratégia: declaram o GP feudo militar dos EUA. Assim, a doutrina Carter pretendia impedir o efeito borboleta das mudanças produzidas na zona.
- O fim da URSS, em 1991, convida Washington a consolidar o seu domínio sobre o GP, semeando a região de bases militares, para além de desmantelar o Estado iraquiano e convertê-lo numa colónia, entre outros objectivos. A ocupação do Afeganistão sob o pretexto do 11S acontece alguns meses após o nascimento da Organização de Cooperação de Xangai (SCO) em Julho de 2001, por iniciativa da China e da Rússia, que pôs fim ao efémero unilateralismo dos EUA.
- Em 2009, o presidente Obama elabora a sua estratégia: O Regresso à Ásia, o santo e a senha para conter a China, a único potência capaz de arrebatar aos EUA o seu estatuto de superpotência. Pelo que pacifica as suas relações com o Irão, assinando o acordo nuclear e armando Israel e Arábia Saudita até aos dentes, com a ideia de levar as tropas a cercar a China, assumir o controlo do Estreito de Malaca, fortalecer sua presença no Afeganistão, impedir uma aliança entre a China e a Índia (a temível Chindia) e cortar as veias que levam o petróleo para este país, lançando guerras contra o Sudão, a Líbia. Não tem sucesso de todo: Israel e Arábia farão todo o possível para reter as tropas dos EUA na zona e continuar a ameaçar o Irão. A guerra contra a Síria e o Iémen, os incessantes atentados no Afeganistão e no Iraque, e continuando a acusar Teerão de “ocultar” um programa nuclear secreto fazia parte dessa conspiração.
2016: um Donald Trump anti-chinês e a sua equipa NeoCon anti-iraniana pretenderão devolver aos EUA sua hegemonia planetária unilateral lutando contra a China e o Irão ao mesmo tempo, a partir do espaço compartilhado por ambos: o GP.
A China não representa uma ameaça militar para uns EUA com cerca de 900 bases militares fora de seu país, onze frotas navais, quase um milhão de efectivos ocupando outros países, e que com 5% da população mundial tem um orçamento militar sete vezes maior que o colosso asiático que alimenta 20% dos seres humanos que vivem neste planeta.

A China no Golfo Pérsico

Foi em 1978, quando Deng Xiaoping pôs fim à divisão maoísta do mundo entre “revolucionários e antirrevolucionários” e desideologizou a política externa da China, estabelecendo relações diplomáticas com o mundo inteiro. Desde então, o GP ganhou nova relevância para a China, em dois aspectos principais:
- Pelas suas reservas de petróleo: O ritmo do crescimento económico chinês desde 1978 não teve precedentes na história moderna. Desde 2010 é o maior consumidor de energia do mundo, e metade vem do GP. As bicicletas são substituídas por carros particulares, aumentando a dependência energética do país para mais milhões de barris de outras nações, que também os estão comprando com o yuan, assestando um duro golpe no petrodólar. A segurança do Estreito de Ormuz, onde passam diariamente 20 milhões de barris de petróleo rumo à Ásia (China, Japão, Índia, Coreia do Sul, entre outros) é vital para os seus destinatários: Pequim agradece os EUA por o manterem aberto, e não têm qualquer intenção de desafiar o poder militar dos EUA na zona. A possível autossuficiência energética dos EUA apenas os protege dos caprichos do mercado, não fará com que perca o controlo sobre as reservas mundiais. A singularidade da política de Trump é que não quer o petróleo de outros países, o que ele procura é apropriar-se dos seus clientes, entre eles a China.
- Por ser fundamental na Iniciativa da Rota da Seda (IRS). O novo modelo de negócios chinês, uma espécie de Plano Marshall, sem limite de tempo, e com investimento previsto de 1,4 milhões de milhões de dólares, que inclui cerca de 80 países, significa uma remodelação dos fundamentos do comércio global; baseia-se, diz, na sua filosofia de Taijí: “Tudo me serve e eu sirvo a todos”. Mediante a criação de parcerias entre as suas empresas e os estados ou geminando cidades chinesas com os países com base na proximidade ou complementaridade na produção de mercadorias (como a província de Hebei com o Cazaquistão, a província de Gansu com o Irão, Hubei com o Egipto, etc.), a China deslocaliza a sua mega produção, beneficiando o desenvolvimento do seu próprio país, e não o de empresas privadas. Neste avanço, entrou também na zona exclusiva dos EUA: os países do Conselho do Golfo Pérsico (GCC), que lhe fornecem petróleo e em troca recebem todos o que necessitam: desde o véu e turbante à nanotecnologia e armas: Riad comprou-lhe mísseis balísticos CSS2, sim, uma vez que a CIA comprovasse que não poderiam transportar ogivas nucleares. De facto, desde 2017, a China ultrapassou os EUA como o maior parceiro comercial da Arábia Saudita, com a qual assinou contratos no valor de 65 milhares de milhões de dólares. No Iraque, colónia militar dos EUA, a China assinou em 2019 um investimento de 10 mil milhões de dólares. A sua política de alugar portos estratégicos do mundo tem nome: Colar de Pérolas, que consiste numa cadeia de portos-chave espalhados pelo mundo, desde o Gwadar do Paquistão (que a liberta do Estreito de Malaca) até o Chabahar do Irão, que outorga um lugar privilegiado em relação à Índia. Assim, cria uma interdependência económica com o seu parceiro. A sua estratégia assemelha-se à sigilosa Longa Marcha de Mao, embora desta vez o percurso tenha o tamanho do planeta.

As medidas da China para se proteger

Face às ameaças dos EUA, a China:
- Criou uma parceria estratégica com a Rússia. A política de Trump de Nixon ao contrário, aliando-se à Rússia contra a China, não produziu resultados: desde Stalin nunca as relações entre as duas potências foram tão próximas.
- Tem a carta de ser o principal fornecedor de terras raras do mundo, além de 12.000 milhões de dólares em títulos do Tesouro dos EUA.
- Armazenou cerca de 500 milhões de barris, para o caso de…
- Traçou vários oleodutos e gasodutos desde a Ásia Central e da Rússia para o seu território. Na verdade, mesmo que uma das razões para a ocupação do Afeganistão pela NATO tenha sido apropriar-se do gás do Turquemenistão - a quarta reserva do mundo -, foi a China quem, construindo um gasoduto de 7.000 quilómetros, canalizou o Ouro Azul turcomano para o seu território.
- Tem o maior parque de energia solar do mundo e tem planos para construir novas centrais nucleares.

Teerão entre os EUA e a China

O Irã converteu-se em 1970 no primeiro país do GP a reconhecer a República Popular. Seguiram-no os países árabes nos anos oitenta e noventa, principalmente a afastar Pequim do regime do aiatola Khomeini, que recebia armas chinesas (e americanas e russas) na sua guerra contra o Iraque.
Apesar de o Irão ser fundamental na Estratégia do sul global da China, e de o petróleo iraniano ser, em comparação com os países árabes satélites dos EUA, uma aposta mais segura, o presidente Xi não vai confrontar-se com Trump, seu principal parceiro comercial, pela República Islâmica, que representa apenas 1% do comércio exterior da China. Pequim apoiou as sanções dos EUA contra o Irão por seu programa nuclear (também não vetou as que Bush impôs ao povo iraquiano nos anos 90), e recusou-se a elevar o seu estatuto de observador na OCS a ser membro de pleno direito.
A China avança sem colonizar nem ocupar países. Atinge seus objectivos através do método sereno e subtil da acupuntura, em vez de ataques cirúrgicos.
Trump, no seu empreendimento no GP, não tem um plano B: todas as opções estão em cima da mesa.

Fonte: http://blogs.publico.es/puntoyseguido/5856/trump-fusiona-en-el-golfo-persico-la-doctrina-obama-con-la-doctrina-carter/

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