Um Decálogo da construção EUA do Império: um diálogo

James Petras    27.Ago.18    Colaboradores

Dez teses sobre novos e velhos meios da dominação imperialista que o autor propõe como plataforma de diálogo. O imperialismo, e em particular a maior potência imperialista – os EUA – constitui hoje a maior ameaça não apenas contra os povos mas contra toda a humanidade e o planeta que habitamos. É necessária e é urgente toda a mobilização para a luta anti-imperialista.

Introdução
Poucos, ou mesmo nenhuns, acreditam no que ouvem dizer os dirigentes políticos e os publicistas mediáticos. A maior parte das pessoas prefere ignorar a cacofonia de vozes, vícios e virtudes.
Este texto apresenta um conjunto de teses que pressupõem o enquadramento para um diálogo entre, e da parte dos que preferem abster-se nas eleições, com o objectivo de tentar que se empenhem na luta política.

Tese 1
Os construtores do império EUA – de todas as cores e convicções - praticam a táctica do burro: acenar com a cenoura e brandem o chicote de modo a impelir o governo alvo na via escolhida.
Da mesma forma, Washington faz duvidosas concessões e ameaça com represálias, a fim de os integrar na órbita imperial.
Washington aplicou esta táctica com sucesso em numerosos contenciosos recentes. Em 2003, os EUA ofereceram ao governo líbio de Muammar Kadhafi um acordo pacífico em troca de um desarmamento, do abandono dos aliados nacionalistas no Médio Oriente, África e Ásia. Em 2011, os EUA e os seus aliados europeus aplicaram o chicote – bombardearam a Líbia, financiaram e armaram forças retrógradas tribais e terroristas, destruíram as infra-estruturas, assassinaram Khadafi e deixaram sem lar milhões de Africanos e Líbios…que fugiram para a Europa. Washington recrutou aí mercenários para a sua guerra subsequente contra a Síria, a fim de destruir o regime nacionalista de Bashar al-Assad.
Washington conseguiu destruir o adversário, mas não conseguiu estabelecer um regime fantoche no quadro de um conflito permanente.
A cenoura do império enfraqueceu o adversário, mas o pau falhou na recolonização da Líbia. Para além disso os seus aliados europeus são obrigados a pagar o custo multimilionário de absorver milhões de imigrantes desprotegidos e a balbúrdia política que daí decorre.

Tese 2
A proposta dos construtores de império de reconfigurar a economia de modo a recuperar a supremacia imperial provoca inimizades internas e externas. O Presidente Trump desencadeou uma guerra comercial global, substituiu a negociação política por sanções económicas contra a Rússia e uma agenda doméstica proteccionista, e reduziu drasticamente os impostos às empresas. Provocou um conflito em duas frentes. No exterior, provocou a oposição dos aliados europeus e da China, ao mesmo tempo que defrontava um assédio permanente por parte dos globalistas e defensores do mercado livre domésticos, e das elites políticas e dos ideólogos russo-fóbicos.
Conflitos em duas frentes raramente têm sucesso. A maioria dos imperialistas de sucesso derrotam os adversários à vez – primeiro um e depois o outro.

Tese 3
A «esquerda» faz frequentemente inversão de marcha: são radicais na oposição e reaccionários no governo, caindo eventualmente no vazio entre as duas posições. Testemunhamos o colapso monumental do Partido Social-Democrata Alemão, do Partido Socialista Grego (PASOK) (e da sua nova versão Syriza) e do PT no Brasil. Cada um deles atraiu apoio de massas, ganhou eleições, formou alianças com banqueiros e com a elite dos negócios – e, perante a primeira crise, são abandonados tanto pela populaça como pela elite.
Elites astutas mas desacreditadas reconhecem frequentemente o oportunismo da “Esquerda”, e em tempo de dificuldades não têm qualquer problema em adoptar temporariamente a retórica e as reformas da “esquerda”, desde que os seus interesses económicos não sejam postos em causa. A elite sabe que a «Esquerda» faz pisca para a esquerda e vira à direita.

Tese 4
As eleições, mesmo as que são ganhas por progressistas ou gente de esquerda, tornam-se frequentemente trampolim para golpes apoiados pelo império. No decurso da década passada presidentes recém-eleitos, desalinhados com Washington, depararam-se com processos de destituição, baseados em acusações espúrias, pela via judicial ou do Congresso. As eleições proporcionam um verniz de legitimidade de um golpe militar às claras carece.
No Brasil, Paraguai, Venezuela, “legislaturas” sob a tutela dos EUA tentaram desalojar Presidentes populares. Tiveram sucesso nos dois primeiros casos e falharam no terceiro.
Quando a engrenagem eleitoral falha, intervém o sistema judicial para impor restrições aos progressistas, na base de interpretações tortuosas ou retorcidas da lei. Oposicionistas de esquerda na Argentina, Brasil e Equador têm sido perseguidos pelas elites dos partidos governantes.

Tese 5
Mesmo dirigentes tresloucados falam verdade ao poder. É indubitável que o Presidente Trump sofre de uma séria perturbação mental, com explosões de cólera nocturnas e ameaças nucleares contra tudo e contra todos, desde figuras desportivas filantrópicas de classe mundial (LeBron James) a aliados fiéis à NATO.
Todavia, no meio da sua intervenção lunática, o Presidente Trump denunciou e desmascarou as repetidas falsidades e as permanentes invenções dos mass media. Nunca qualquer Presidente anterior identificou tão vigorosamente as mentiras dos principais meios de comunicação impressos e de grupos televisivos. Os NY Times, Washington Post, Financial Times, NBC, CNN, ABC e CBS têm sido completamente desacreditados aos olhos do grande público. Perderam legitimidade e confiança. Onde os progressistas falharam, um bilionário ávido de guerras teve sucesso, falando uma verdade que se aplica a muitas injustiças.

Tese 6
Quando um ladrido passa a dentada, Trump prova a verdade caseira de que o medo convida à agressão. Trump implementou ou ameaçou com severas sanções contra a UE, China, Irão, Rússia, Venezuela, Coreia do Norte e qualquer país que não acate as suas ordens. De início, foram as declarações bombásticas e a algazarra a garantir cedências.
Cedências que foram interpretadas como fraquezas e convidaram a ameaças maiores. A desunião dos oponentes encorajou os gestores da táctica imperial a dividir e reinar. Todavia, ao atacar simultaneamente todos os oponentes ele debilita essa táctica. Ameaças em todo o lado limitam as escolhas a opções perigosas tanto interna como externamente.

Tese 7
Os construtores de império Anglo-Americanos são, em todos os tempos, os mestres em interferir nas políticas de Estados soberanos. Mas o que é mais revelador é o actual recurso a acusar as vítimas dos crimes que são cometidos contra elas.
Após o derrube do regime soviético, os EUA e os seus acólitos europeus “interferiram” a uma escala sem precedentes, pilhando mais de dois milhões de milhões de dólares da riqueza soviética e reduzindo em dois terços os padrões de vida russos e a esperança de vida para menos de sessenta anos – abaixo do nível do Bangladesh.
Com o renascimento russo sob o Presidente Putin, Washington financiou um amplo exército de autonomeadas “organizações não-governamentais” (ONG) para organizar campanhas eleitorais, recrutou caciques nos grandes meios de comunicação social e dirigiu confrontos étnicos. Os russos são “interferidores” de retalho comparados com os operadores de grande fôlego dos EUA, com financiamentos multibilionários.
Para além disso, os israelitas aperfeiçoaram a interferência em grande escala – intervêm com sucesso no Congresso, na Casa Branca e no Pentágono. Definem a agenda, o orçamento e as prioridades do Médio Oriente, e garantem os maiores subsídios militares per capita na história dos EUA.
Aparentemente, alguns interferidores interferem por convite e são pagos por isso.

Tese 8
A corrupção é endémica nos EUA, onde tem um estatuto legal e onde dezenas de milhões de dólares mudam de mãos e compram gente do Congresso, Presidentes e juízes.
Nos EUA os compradores e correctores são chamados ‘lobbyists’ – em todos os outros lados são chamados vigaristas. A corrupção (lobbying) unta as engrenagens da despesa militar de milhares de milhões, subsídios tecnológicos, evasão fiscal das empresas e todas as vertentes da governação – às claras, em todo o tempo e em todos os lugares do regime EUA.
A corrupção enquanto “lobbying” nunca suscita a menor crítica por parte dos grandes meios de comunicação social.
Entretanto, onde a corrupção existe de forma encoberta no Irão, China e Rússia os media denunciam a elite política – mesmo que na China mais de 2 milhões de funcionários de todos os escalões sejam presos e condenados.
Quando a corrupção é punida na China, os media dos EUA clamam que não passa de uma “purga política”, mesmo que reduza directamente o consumo visível da elite.
Por outras palavras, a corrupção imperial defende valores democráticos; a anticorrupção tem o cunho de ditaduras autoritárias.

Tese 9
O pão e o circo são parte integrante da construção do império – em particular na promoção de bandos de arruaceiros para derrubar governos eleitos e independentes.
Bandos financiados pelo império – proporcionaram a cobertura para golpes apoiados pela CIA no Irão (1954), Brasil (1964), Venezuela (2003, 2014 e 2017), Argentina (1956), Nicarágua (2018), Síria (2011) e Líbia (2011), entre outros lugares e outras alturas.
Massas ao serviço do império atraem rufias de rua, pagos ou voluntários, que falam em nome da democracia e servem a elite. A “cobertura de massas” é particularmente eficiente em atrair esquerdistas que procuram opinião na rua e ignoram os apartamentos de luxo de onde as ordens vêm.

Tese 10
O império é como um tripé: promove o genocídio, garante o magnicídio e governa por meio do homicídio. Invasões matam milhões, capturam e matam os dirigentes, e depois governam por meio do homicídio – com a polícia a assassinar os cidadãos recalcitrantes.
Os exemplos são fáceis de encontrar: ocorrem-nos o Iraque e a Líbia. Os EUA e os seus aliados invadiram, bombardearam e mataram mais de um milhão de iraquianos, capturaram e assassinaram os seus dirigentes e instalaram um Estado policial.
Na Líbia ocorreu um padrão semelhante: os EUA e a UE bombardearam, mataram e desalojaram vários milhões de pessoas, assassinaram Khadafi e fomentaram uma guerra terrorista sem lei entre clãs, tribos e fantoches ocidentais.
Os “valores ocidentais” revelam a desumanidade de impérios construídos para matar à vontade – despojando as nações vítimas dos seus defensores, dirigentes e cidadãos.

Conclusão
As dez teses definem a natureza do imperialismo do século XXI – as suas continuidades e novidades. Os grandes meios de comunicação social escrevem e proferem sistematicamente mentiras ao serviço do poder: a sua mensagem é desarmar os seus adversários e incitar os seus patrões a prosseguir o saque do mundo.

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