Um Golpe de leme necessário

Marcos Domich *    19.Oct.06    Colaboradores

Marcos Domich
A luta de classes não acabou e, seguramente, vai recrudescer. Huanuni converteu-se numa advertência. A esquerda, os verdadeiros trabalhadores, actuarão consequentemente e o governo de Evo Morales deve dar um golpe de leme.

O distrito mineiro de Huanuni foi testemunha dum feroz confronto entre trabalhadores mineiros assalariados e cooperativistas mineiros, tendo tido como consequência 19 mortos e cerca de 70 feridos. Este foi um abanão brutal na imagem da Bolívia e, particularmente, no processo político iniciado com a vitória de Evo Morales. É indiscritível a violência do confronto que, além da perda de vidas humanas, deixou outras dolorosas sequelas: dezenas de órfãos, viúvas, e velhos desamparados. Como numa verdadeira guerra foram destruídas casas, danificada a igreja principal, escolas, destruída a rádio “Nacional de Huanuni”, propriedade do sindicato filiado na Federação Sindical dos Trabalhadores Mineiros. Os danos nas instalações da mina são terríveis: destruição das bombas de água e do sistema de ventilação. Inundação das galerias, o que provocou a acumulação de gases tóxicos, etc., o que torna impossível a extracção mineira. A situação prolongar-se-á por alguns meses e custará, por baixo, dois milhões de dólares.

O confronto – que alguns analistas pretenderam apresentar como ”inexplicável entre pobres mineiros assalariados e outros mineiros cooperativistas , igualmente pobres” – tem uma lógica implacável e gestores identificáveis com exactidão matemática. Em Huanuni existe o monte de Posokoni, a maior reserva de estanho da Bolívia e talvez uma das maiores do mundo. Antes do neoliberalismo nunca ninguém se atrevera a negar que este pertencia à Corporação Mineira da Bolívia (COMIBOL), através da sua Empresa Mineira Huanuni. A política neoliberal deixou a COMIBOL como um invólucro vazio. Fechou dezenas de minas, mandou para a rua milhares de mineiros que viviam pobremente dos seus salários, etc.. Era o quadro completo dos males do capitalismo neoliberal. Muitos destes operários integraram cooperativas preexistentes ou em novas cooperativas. Mas há que dize-lo com clareza: muitas delas, de cooperativas só tinham o nome. Os dirigentes das cooperativas eram ou adquiriram o estatuto de empresários, tornaram-se pequeno e até médio burgueses. Exploravam diversos coutos mineiros, muitos deles arrendados à COMIBOL e confinantes com as jazidas estatais. O seu apetite cresceu e tornou-se voraz com a última subida dos preços do minério.
Morales
Na Bolívia, de centenária tradição mineira, começou a falar-se da recuperação da sua antiga exploração mineira. Voltaram à mente as recordações de um Potosi que contribuiu para a acumulação primitiva do capitalismo europeu a partir do século XVI.

Isto sucedia num novo contexto político. Entretanto surgira um governo popular que prometeu estabelecer a COMIBOL que, ainda que descaracterizada como ficou com a ofensiva neoliberal, era uma poderosa nostalgia. Não houve, no entanto, o cuidado de pensar que havia outras fauces vorazes e privadas. Falamos das clássicas fauces dos mineiros chamados médios, na realidade grande burguesia mineira com empresários tipo Sanchez de Lozada. Entre os novos predadores estavam também os chamados cooperativistas, os seus dirigentes, não o humilde “cooperativista” espoliado como nos tempos da acumulação primitiva de capital, sem direitos sociais, desprotegido e humilhado.

Os dirigentes, com camaleónica habilidade, cheirando para onde se dirigia a torrente eleitoral, aderiram ao MAS. Conseguiram um ou outro lugar de deputado e um ministério, precisamente o da exploração mineira. O seu titular, um tal Villarroel, que tinha conseguido em 2003 condecorar “Goni” Sanchez de Lozada, até fez alguma demonstração pública da sua adesão. Pouco depois, muito inchado, mudou o sentido das suas demonstrações. O importante era expandir as suas possessões mineiras em nome do cooperativismo. Utilizou o seu poder ministerial para que as cooperativas se apoderassem de Huanuni e do monte Posokoni. Planearam a apropriação e propuseram-se numa espécie de “limpeza de classe” (quase escrevo étnica), expulsar os assalariados, ocupar os coutos mineiros, contratar quadros preparados, etc., em que a empresa estatal havia investido 40 milhões de dólares. Sem grande segredo prepararam o assalto, sabendo que os mineiros assalariados não iriam fugir espavoridos, são lutadores experimentados. Por isso utilizaram explosivos como dinamite e outros. Muitos das mortes foram feitas por armas de precisão disparadas de cima, onde estavam os supostos cooperativistas. Escrevemos supostos pois já é inocultável a presença de pessoas estranhas, “atiradores de elite” e outros agitadores, movidos pela direita como marionetas.

Apesar de toda a bateria mediática, que pretende que o marxismo morreu, Huanuni é a demonstração do seu acerto: “O capitalismo (sempre) surge manchado de lodo e sangue” e acrescentaríamos “ainda que seja andino”. Evo Morales, ainda que tarde, já se apercebeu. Não basta investir um ministro, ainda que com o capacete de mineiro. Os disfarces, sejam de classe ou étnicos, são um perigoso folclore político. A luta de classes não acabou e, seguramente, vai recrudescer. Huanuni converteu-se numa advertência. A esquerda, os verdadeiros trabalhadores, actuarão consequentemente e o governo de Evo Morales deve dar um golpe de leme.

* Professor da Universidade Mayor de San Andrés em La Paz,escritor, director da Revista «Marxismo Militante » , membro da Comissao Politica do Partido Comunista da Bolívia.

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