Um imenso adeus

José Casanova    14.Ago.13    Outros autores

A liberdade, a justiça social, a paz, a solidariedade, a fraternidade, o sonho de uma sociedade liberta de todas as formas de opressão e de exploração, o amor e a morte, o tempo e a revolução, eis temas sempre presentes nas preocupações humanas e literárias deste homem de escrita e de luta.

A morte levou-nos o Urbano: o seu talento de escritor com lugar reservado, e destacado, na história da Literatura Portuguesa; o seu exemplo de resistente de todos os momentos e de todas as horas; a sua postura de assumida verticalidade e dignidade, de notável coragem intelectual e física; a sua fraterna camaradagem, carregada de tolerância, de firmeza e de estímulo à luta; a sua amizade: sempre os braços abertos da compreensão e da ternura.
«Comunista e escritor», como de si próprio dizia, por toda a sua obra perpassam os valores e os ideais que nortearam a vida do autor: a liberdade, a justiça social, a paz, a solidariedade, a fraternidade, o sonho numa sociedade liberta de todas as formas de opressão e de exploração. E o amor e a morte, o tempo e a revolução, temas sempre presentes nas preocupações humanas e literárias deste homem de escrita e de luta.

A sua obra – na qual a quantidade e a qualidade coabitam e se complementam em perfeita harmonia – foi erguida a pulso durante mais de sessenta anos de labor literário e inclui quase uma centena de títulos, abarcando praticamente todos os géneros: romance, novela, conto, teatro, poesia, ensaio, crónica, viagens – para além da sua actividade como jornalista, na qual, como correspondente de guerra na Crise do Suez, em 1956, entrevistou o general Nasser.
Registe-se que Urbano foi um dos escritores portugueses mais perseguidos pela ditadura salazarista e um dos autores com mais livros apreendidos pela polícia política - pelo que bem pode dizer-se que cada um dos seus livros desse tempo fica na história da resistência antifascista como um cravo de Abril.
Opositor da ditadura fascista desde muito jovem, protagonista de uma actividade resistente que começou com a sua participação na campanha eleitoral de Norton de Matos, em 1949, e prosseguiu até ao 25 de Abril libertador, Urbano desenvolveu uma intensa e constante intervenção no Movimento da Oposição Democrática e no Movimento da Paz, sempre enfrentando com coragem e dignidade extremas a prisão, os brutais interrogatórios e torturas a que foi submetido pelos torcionários da pide – e as perseguições e represálias de que foi alvo, designadamente a proibição de exercer o cargo de professor assistente na Faculdade de Letras de Lisboa.

Mas nem perseguições, nem ameaças, nem prisões, nem torturas, o fizeram abrandar, sequer, a sua prática de resistência.
Uma resistência que, aliás, se prolongou, em condições e moldes diferentes mas no mesmo sentido e com os mesmos objectivos, face a esta política de direita que desde há trinta e sete anos, vem flagelando impiedosamente os trabalhadores, o povo e o País.

A sua militância comunista, iniciada no tempo sombrio do fascismo, ganhou asas no tempo luminoso da revolução de Abril e prosseguiu, incansável e até a saúde lho permitir, neste tempo outra vez sombrio da política de direita.

Nesta hora de despedida, triste e dolorosa como são todas as despedidas marcadas por um imenso adeus a quem parte, recordo a meu relacionamento com o Urbano, essa troca de vivências e experiências da qual nasceu, entre os dois, uma amizade profunda: as conversas, muitas vezes longas e ao longo de muitos anos, iniciadas quando, a pretexto de um texto seu (uma novela publicada em 1959: Uma Noite e Nunca) o procurei e encetámos um diálogo que se prolongaria até ao seu último dia de vida – neste último dia, um diálogo breve, brevíssimo, sussurrado, ali no hospital onde a vida o abandonava inexoravelmente e em que quase só os olhos falaram.

Nos últimos anos, quando a saúde quase lhe não permitia sair, e a amargura e a angústia da vida a fugir-lhe o atormentavam, era em sua casa que falávamos. Ali ficávamos comentando o que se passava no mundo: os sinais de esperança nascidos na América Latina: Venezuela, Bolívia, Equador…; a situação em Portugal: o estado dramático a que a política de direita conduziu o País e a memória viva da revolução de Abril flagelada por essa política que, levada à prática desde 1976, mergulhou Portugal e os portugueses num pesadelo que, em muitos aspectos, nos situa mais próximos do 24 do que do 25 de Abril; a situação do Partido: as dificuldades de uma luta travada contra inimigos e adversários poderosos e sem escrúpulos e a confiança no futuro. Ali ficávamos falando de livros e de escritores, da responsabilidade do escritor na abordagem das questões sociais; da escrita que o prendia à vida e que o levava a escrever, escrever sempre…; de novos escritores que ele estimulava e apoiava, numa atitude solidária assaz invulgar nos nossos meios literários; da amargura pelo não reconhecimento público da sua obra: o Prémio Camões, de que ele, justamente, achava ser merecedor e que, injustamente, lhe era negado. Por ser comunista. E sobre o orgulho de ser comunista, orgulho que o acompanhou até aos seus derradeiros instantes.

No prefácio ao seu último livro, que, segundo foi anunciado, será publicado em finais do ano, Urbano escreveu:
«Um cravo vermelho e a bandeira do meu Partido hão-de acompanhar-me e tudo será luz».
E assim foi.

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