Um massacre e uma nova guerra civil

Pepe Escobar    19.Mar.07    Outros autores

O massacre de Najaf é uma versão árabe da “opção Salvador”, aplicada na América Latina nos anos 70 e 80. “Nesta pobre tentativa do governo iraquiano de criar uma conspiração de tamanho único (Sadamistas, al-Qaeda e fanáticos Iranianos todos em conluio), o problema maior é como a encaixar na actual histeria anti-Irão dos EUA.”

O massacre que ocorreu em Najaf, no Iraque, foi já, por esta altura, largamente desconstruído por toda a imprensa Árabe. O que emerge não tem virtualmente nada a ver com a contagem oficial de Bagdade e Washington de tropas Iraquianas matarem 250 e tal cultistas apocalípticos altamente armados apelidados de “Soldados do Céu”. Dizia-se que estavam prestes a atacar, não só os peregrinos Xiitas, mas também os “quarto Grandes “ ayatollahs do Iraque - Ali al-Sistani, Bashir Najafi, Muhammad shaq Fayyad e Muhammad Said al-Hakim – que têm todos base na sagrada Najaf.

Quando o belicoso governo de Nuri al-Maliki em Bagdade, se gaba em uníssono com o Pentágono e o Presidente Norte Americano George W Bush de tal demonstração de mestre do exército Iraquiano, apoiado pelo poder de fogo mortal dos tanques norte-americanos e F-16, algo está terrivelmente errado. Especialmente uma vez que o “exército Iraquiano” em questão é na sua maioria composto pela Organização Badr, o Conselho Supremo para a Revolução Islâmica na ala para-militar do Iraque (CSRII), que está salpicada de esquadrões de morte.

O Governador de Najaf As’ad Abu Gilel, ele mesmo um político de alta patente do CSRII, disse à Najaf Radio FM que nunca menos de “300 terroristas foram mortos, 650 detidos e 121 feridos, enquanto que 11 soldados Iraquianos foram mortos e 27 feridos”. Mil baixas “terroristas” sugerem poder de fogo comparável aos raides norte-americanos em Tora Bora, no Afeganistão, em Dezembro de 2001.

A contagem oficial de Bagdade mantém que a batalha foi provocada por um génio pernicioso, Ayatollah Ahmad al-Hasani al-Sarkhi, também conhecido por al-Yamani, nascido em Diwaniya, um charlatão com um passado nas Artes e líder do movimento milenar Mahdi Mahdawiya (um movimento que deriva do movimento Sadrista. É importante frisar que os seus escritórios em Nasaf foram fechados 10 dias antes do massacre, e muitos dos seus ajudantes presos: isto já sugere uma quebra governamental a preceder a futura onda/escalada norte-americana.

A primeira intervenção do governador de Najaf foi gritar que Najaf estava a ser atacada pela al-Qaeda. A contagem oficial pintou as guerrilhas como sendo Árabes Sunitas salpicados com Árabes Afegãos estilo al-Qaeda. Muaffaq al-Rubaii, o conselheiro para a segurança nacional Iraquiano, foi rápido a anunciar que “centenas de Árabes ” – ele mencionou Sauditas, Yemenis, Egípcios e Afegãos – tinham sido mortos. Depois o governador de Najaf disse que foram encontrados “passaportes Britânicos e Árabes” no campo de batalha, dada a interferência de um “certo país Árabe vizinho” (não especificou qual). E finalmente, decidiu alterar a sua história de al-Qaeda para os “Soldados do Céu”, Xiitas fanáticos que por acaso foram apoiados durante os anos 90 por quem mais do que Saddam Hussein e estavam agora a ser ajudados pelos maléficos Baasistas.

Nesta pobre tentativa do governo iraquiano de criar uma conspiração de tamanho único (Sadamistas, al-Qaeda e fanáticos Iranianos todos em conluio), o problema maior é como a encaixar na actual histeria anti-Irão dos EUA. A Mahdawiya nunca teve nada a ver com o Irão. Este grupo é um grupo nacionalista Iraquiano: não admira que se opunham firmemente ao Grande Ayatollah Ali al-Sistani, que é Iraniano, nascido na província de Sistão-Baluquistão.

Segundo Abu al-Hasan, um membro da Mahdawiya próximo de Sarkhi, citado pelo Al-Hayat sediado em Londres, as acusações de um massacre de ayatollah em Najaf não passam de mentiras. Hasan disse que o que de facto aconteceu foi que a polícia Iraquiana tentou prender Sarkhi, os seus seguidores revoltaram-se e que isso levou ao massacre.

Do ponto de vista religioso, é importante frisar que a aristocracia clerical Xiita em Najaf – da qual Sistani é a epítome – não gosta de ser desafiada, seja pelos Sadristas, ou ainda pior, por um grupo derivado, Paralelamente, Xiitas Árabes por todo o sul do Iraque, preferem confiar num marja Árabe (líder espiritual sénior) em Najaf, e não num Persa (Sistani).

Mas de acordo com relatórios Árabes, os peregrinos Xiitas que viajavam não eram Mahdawiya, mas eram sim da tribo al-Hawatim, que vive entre Najaf e Diwaniyah. O chefe da tribo, Hajji Sa’ad Sa’ad Nayif al-Hatemi, foi morto junto com a sua mulher e condutor no posto de controlo de Zarga perto de Najaf. Assim a tribo – plenamente armada, claro, a única maneira de viajar na noite do Iraque “Libertado” – revoltou-se (isto explica as armas; os “Soldados do Céu”, descritos como um bando desorganizado, não poderiam nunca ter estado tão bem armados).

Outra tribo, os al-Khazaali – que vivem em Zarga – tentaram parar o confronto e viram-se envolvidos na confusão toda, assim que a polícia do posto de controlo gritou ao telefone com os seus comandantes em Bagdade que estavam a ser atacados pela “al-Qaeda”. A cavalaria norte-americana chegou como um robot, armando a confusão apropriada.

Assim os peregrinos podem ter sido mortos por fogo aéreo dos EUA. Mas isso não explica as fotos postas à disposição e oficialmente sancionadas. Estranhamente, não há sinais de sangue, feridas de balas ou queimaduras nestes cadáveres.

Gritar ‘al-Qaeda!’ e correr para o abrigo

Tanto a tribo Hawatim como a Khazaali são nacionalistas Árabes Iraquianos acérrimos. São empenhadamente tanto contra o CSRII como Da’wa – isto é, os governos de Najaf e Bagdade, que para eles são fantoches do Irão. Os Mahdawiya pelo seu lado, tinham base em Zarga. Poderiam facilmente ter sido incriminados como os bodes expiatórios do massacre. Nada poderia ser mais conveniente do que pôr a culpa de tudo num culto Xiita, fanático e anti-governo. Mas o consenso que emerge entre as tribos do sul do Iraque, é que o massacre foi uma operação planeada por Bagdade, concebida para atacar uma aliança nacionalista Sunita e Xiita Iraquiana (anti-EUA e anti-Irão) não sectária e cada vez mais popular.

O modus operandi estava claro: Xiitas apoiados pelo Irão (o actual governo Iraquiano) gritavam “al-Qaeda!” e usavam o Pentágono para matar Xiitas nacionalistas Árabes. Neste cenário, tudo o que no Iraque não é CSRII ou Da’wa está agrupado num saco “terrorista”, Este padrão está destinado a ser replicado antes, durante e depois da onda norte-americana.

A estratégia do governo Maliki ajusta-se perfeitamente à directiva de Bush de matar “agentes” Iranianos no Iraque. Outros mais massacres de peregrinos Iranianos que vão a Najaf, serão uma consequência lógica. Se o governo Maliki está a manipular Bush, este está a manipular os EUA e a opinião pública global.

Politicamente, a situação explosiva e complexa dos Xiitas Iraquianos está agora polarizada para além da redenção. De um lado existe uma aliança de facto dos “Iranianos” – Maliki, os Abdul Haziz al-Hakim do CSRII e Sistani. Do outro lado há as poderosas tribos Xiitas Árabes espalhadas pelo Iraque do sul e centro. A questão chave é: qual é a posição do eclesiástico Xiita Moqtada al-Sadr nisto tudo?

Moqtada queria ser o “caminho do meio”. Mas os Sadristas estão agora de volta ao governo após um breve boicote. A sua principal palavra de ordem – o fim da ocupação norte-americana, agora foi ensombrada pelos múltiplos ataques do seu exército Mehdi contra Árabes Sunitas. Isto pode ser fatal para Moqtada. No centro e sul do Iraque, o nacionalismo Iraquiano – e Moqtada é um nacionalista acérrimo – é mais poderoso que qualquer divisão Sunita/Xiita.

O que é certo é que a aliança Maliki-Hakim continuará a usar o seu exército Iraquiano treinado pelos EUA em mais massacres, aconselhada pelo temido esquadrão comando Scorpion, que tem como fundos dólares americanos, e que responde ao topo dos serviços secretos Iraquianos. Neste sentido, o massacre de Najaf é também um caso clássico da “opção Salvador” na sua versão Iraquiana: ou como as lições da América Latina nos anos 70 e 80 são úteis para o “Novo Médio Oriente”.

Para além disso, o massacre também significa que o Pentágono está agora ligado à matança de tribos Xiitas Árabes. A ser verdade, é um grande erro. Sistani já não os controla. Isto significa que mais e mais nacionalistas Xiitas Árabes vingativos irão amplificar outra frente de guerrilha anti-EUA/Bagdade.

Vejam o exemplo dos Beni Tamim, uma tribo mista Sunita e Xiita. O seu sheikh, Hamid al-Suhail de 70 anos, foi morto há um mês em Bagdade por um esquadrão de morte. A vingança é inevitável. Guerrilhas anti-EUA e anti-Bagdad têm-se espalhado como fogo selvagem no sul do Iraque desde Novembro.

O modelo pode-se encontrar na história moderna: a resistência Xiita que desde os anos 20 e 30 lutaram e expulsaram os Britânicos. Os chefes tribais Xiitas do sul estão a apostar numa muqawama (resistência) unida, Sunita e Xiita. A administração Bush está a colher o tipo de caos Iraquiano que deseja: ainda mais uma Guerra civil – de Xiita (Árabes) contra Xiitas (“Persas”).

Tradução de Nica Paixão

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