Um ramalhete para a Evangelização

Jorge Messias    27.Mar.07    Colaboradores

“A hierarquia católica, movido pelo seu tradicional desprezo pela consciência política e cultural dos povos, propôs aos homens uma parábola verdadeiramente infantil: Ratzinger, o grande Inquisidor, pertencia a um passado irreversivelmente morto. A sua figura carismática reapareceria, agora, como a de um homem novo, aberto, compreensivo, tolerante – o papa que definitivamente abriria à Igreja “uma janela sobre o mundo.”

Uma característica dos actuais meios de comunicação é a de relatar o facto mas omitir ou manipular as causas ocultas que o motivaram. Relações evidentemente complexas e situadas em áreas insuspeitas de terem ligação ao tema da notícia. Mas isso é que é informar. Por exemplo, é impossível falar-se em Bush ou na invasão do Iraque e omitir o petróleo nas crises que suscita, a eventualidade do esgotamento das jazidas existentes, a guerra como arma do imperialismo ou como cinto de salvação para a sobrevivência de Bush no poder, as crises do capitalismo, a indústria dos armamentos, etc. A notícia é uma encruzilhada. E assim, tal como acontece em Portugal, em termos de informação é inaceitável dar margem à demagogia dos políticos que falam em défice público ou em desemprego sem relacionarem os factos com a exploração dos trabalhadores dirigida por interesses privados, com as causas dos nossos atrasos estruturais, com as políticas que promovem o fosso que separa a pobreza e a riqueza, com a corrupção e com escândalo ou com a impunidade das operações da especulação financeira. Só ligando tudo isto - e o mais que for surgindo de forma inesperada - permitirá informar em termos de formação da opinião.

Dito isto em relação ao universo da política e da economia capitalista, acrescente-se que o mesmo se passa com as igrejas e com as religiões, particularmente no Ocidente, no opaco mundo católico. Falar-se na espiritualidade do Vaticano é agressão grosseira ao acto de informar. Tanto mais que nos dias presentes, já a ninguém escapa que as religiões representadas pelas igrejas são veículos do Poder; e que silenciar este aspecto corresponde a uma cumplicidade que, tarde ou cedo, arrastará consigo o descrédito dos meios de informação e a sua condenação por boa parte da opinião pública. Informar sobre religiões poderá incluir falar em teologia e em práticas litúrgicas. Mas é também, e sobretudo, dar voz à razão fundamentada e criticar com objectividade os comportamentos, as teorias e as estratégias religiosas cujas causas e consequências se situem na esfera económica e produtiva, nas formas de relação das igrejas com os interesses de classe das forças partidária, na oculta presença religiosa no aparelho do Estado ou no modo como as organizações confessionais dominam o poder e o lucro, nos quadros das sociedades de mercado. Falar-se vagamente em Igreja, pouco é. Importa explicá-la, na sua génese, na sua realidade consistente e nos seus verdadeiro objectivos centrais. Confrontar as sua teorias com as suas acções. Olhar de frente a hierarquia, sempre que necessário. Igreja do espírito, igreja política; igreja ascética, igreja social; igreja dialogante, igreja autoritária; igreja conciliar, igreja dogmática – como expressões, são fórmulas secas, fontes de retórica que em si mesmas pouco ou nada dizem. É preciso dar-se conteúdo à opinião.

Então, em que sentido real se orienta a Igreja Católica cujo cérebro é o Vaticano?

Percursos da Nova Evangelização

O actual papa tentou dar a volta a estas questões no verdadeiro tratado de culinária pastoral a que chamou “Compêndio do Catecismo da Igreja Católica“. Procurou calar as dúvidas dos católicos com respostas doutrinais que estes, aliás, já conheciam e sentiam ser insuficientes. Nada de novo Bento XVI acrescentou ao que se conhecia serem as posições do Vaticano em relação ao casamento tradicional, ao celibato dos padres, à fecundação artificial, à interrupção da gravidez, à eutanásia, à família, ao divórcio, etc. Aos problemas da modernidade, a igreja continua a responder com a tradição.

Já no plano concreto da política católica, o papa não se esqueceu que tem de ser um homem de acção. Pela calada, sem publicidade inútil, Ratzinger começou a lançar activamente as bases orgânicas de uma nova igreja ultraconservadora. Chamou à pedra os denominados “Novos Movimentos Eclesiais“ e recordou aos padres o dever da obediência absoluta à cadeia hierárquica: “Conto com a vossa rápida obediência!“, declarou numa curta frase ponteada por ameaças fáceis de imaginar. Depois, e uma vez mais, apoiou publicamente as estruturas católicas que “conservam a comunhão com o Papa e com os Bispos” – Opus Dei, Focolares, Neocatecumenais, Renovamento Carismático, Comunhão e Libertação, e outros grupos com idêntica ideologia.

Entretanto, Ratzinger lançou mãos a alterações profundas no governo do Vaticano. Chamou para a condução dos principais ministérios (ou dicastérios) homens da direita da igreja com firmes provas dadas de inflexibilidade e obediência total ao papa. O cardeal Bertone, um incondicional de Fátima, Bispo de Génova, para Secretário de Estado. O cardeal Manbertini para a pasta dos Negócios Estrangeiros. Manbertini, francês de Marrocos, fez uma carreira diplomática em países de poder absoluto como Marrocos, o Chile, a Argélia, a Somália, o Sudão, etc. É considerado um perito em relações com o Islão e tem uma experiência anterior onde se destaca a colaboração íntima com o cardeal Bertone. Ambos defendem a tese da superioridade da missão da igreja católica em relação às outras religiões.

Finalmente, o cardeal Joseph Levada, norte-americano e campeão da luta contra os sacerdotes pederastas ou homossexuais, foi conduzido ao cargo de Prefeito para a Congregação da Doutrina da Fé, o dicastério onde o então cardeal Ratzinger tanto se celebrizou.

Estas nomeações foram acompanhadas por reformas orgânicas pouco noticiadas. Nota-se que o sentido principal da nova reorganização visa uma maior concentração de poderes, nomeadamente nas áreas vitais das Migrações, Justiça e Paz e Cultura, no Diálogo Inter-religioso (que abrange as relações com o Islão) e nas Comunicações Sociais da Igreja. Simultaneamente, Bento XVI substituiu o responsável pelas Missões, o Governador do Estado Pontifício e o cardeal que dirige a Secretaria de Assuntos Gerais. Concluída esta operação, Ratzinger passou a controlar efectivamente todos os centros de decisão do Vaticano, através de homens da sua total confiança.

A afirmação da extrema-direita nos lugares do poder no Vaticano, começa já a dar os seus frutos. Na Polónia, por exemplo, onde a igreja católica mais reaccionária domina a direcção política do país, assiste-se ao primeiro caso do após-guerra onde os defensores do antigo estado socialista passam a ser oficialmente perseguidos. De certeza que tal não aconteceria se os fascistas católicos polacos não sentissem no Vaticano um fortíssimo apoio à sua orientação. A Polónia candidata-se seriamente a transformar-se no primeiro Estado teocrático europeu.

No caso do “caldeirão” do Próximo Oriente, Bento XVI não perdeu tempo a lançar achas na fogueira. “O que é que Maomé trouxe de novo, além de coisas diabólicas e desumanas?” perguntou o papa com uma aparente falta de sensibilidade. Mas que a declaração foi calculada, não restam dúvidas. Ratzinger quis accirrar os ânimos, intensificar as lutas religiosas e repor na ordem do dia as teses de Bush e de Blair quando falavam no “eixo do mal”.

Finalmente, reataram-se as perseguições aos defensores da Teologia da Libertação. O teólogo jesuíta Jon Sobrino, colaborador íntimo de D. César Romero, bispo de El Salvador, assassinado em 1980, recebeu do Vaticano ordem para se calar e a proibição de ensinar. A notificação, da Congregação para a Doutrina da Fé, foi entregue pelo arcebispo de S. Salvador, Fernando Lacalle (membro do Opus Dei) e tem a rubrica do Papa. Em 1980, o tristemente famoso cardeal Trujillo prometera “acabar com Gustavo Gutierrez, Leonardo Boff, Runaldo Muñoz e Jon Sobrino”, todos participantes na Teologia da Libertação. Vinte e sete anos depois, Ratzinger não esqueceu nem perdoou. Mal chegou a papa, mandou executar a sentença.

Outros sinais não deixam dúvidas quanto aos próximos caminhos da igreja católica. O retorno ao latim nas missas. A recusa da educação sexual nas escolas. A ilegitimidade das “uniões de facto”. A obrigatoriedade do “exame prévio”. O canto gregoriano nos cultos. A proibição do uso de instrumentos não-litúrgicos nos templos. O repúdio da eutanásia clínica.

O anátema sobre a manipulação dos embriões humanos. O celibato obrigatório dos padres.

O futuro do Vaticano

Passo a passo, cruzando dados, poderemos ver mais claro no futuro da actual igreja católica. Se é verdade que Ratzinger é simplesmente um homem, não é menos seguro que o homem que se identifica com uma instituição que com ele se confunde, tem nesta um papel histórico determinante.

A chamada de Ratzinger ao alto cargo de chefe de Estado do Vaticano retrata o perfil de uma igreja em que a fé e os valores básicos desempenham um papel cada vez mais secundário. O Vaticano não pode ocultar que com ele tudo só vai bem quando o capitalismo triunfa. E que tudo vai mal sempre que a banca mundial e os índices bolsistas se agitam e entram em crise.

O facto não é de agora. Nos tempos das lutas liberais, na grande revolução bolchevista, nas rupturas das bolsas de valores ou nas dramáticas crises financeiras que o Vaticano já atravessou, sempre assim aconteceu. A igreja institucional procura então refúgio e protecção na extrema-direita do sistema capitalista. Contra o sentido das justas aspirações do povo católico. Foi assim que, quando o “fumo branco” anunciou um novo Papa, a hierarquia católica, movido pelo seu tradicional desprezo pela consciência política e cultural dos povos, propôs aos homens uma parábola verdadeiramente infantil: Ratzinger, o grande Inquisidor, pertencia a um passado irreversivelmente morto. A sua figura carismática reapareceria, agora, como a de um homem novo, aberto, compreensivo, tolerante - o papa que definitivamente abriria à Igreja “uma janela sobre o mundo”. Um mundo mais rico, mais próspero mas, simultaneamente, mais justo e mais cristão. Isto é, o Vaticano escolhia, como ponto de partida para o novo Primaz, um conto de fadas que todos sabiam consistir numa tremenda mentira.

O Papa Bento XVI é, naturalmente, o homem que Ratzinger sempre foi. Implacável por natureza, por formação fundamentalista. Vê-se isto agora, a cada passo, nos seus comportamentos e nas novas encíclicas e pastorais que vão surgindo.

Porém, é também verdade evidente que a Igreja tolerou, nalguns casos, e noutros interveio activamente nos percursos que conduziram à instalação definitiva de Ratzinger na sede do poder católico. O engodo foi a batalha triunfal em que o socialismo foi vencido. O campeão, Ratzinger. A bandeira desfraldada aos quatro ventos, a chamada “Nova Evangelização” ou “Nova Reconquista Cristã”.

Os resultados estão à vista. As cruzadas cristãs produziram as anti-cruzadas, as guerras, a fome e a miséria. As fraudes encobertas geraram fortunas gigantescas e cavaram fossos abismais entre os que tudo possuem e os que nada têm. As mentiras da hierarquia católica não prevaleceram, as religiões perderam mistério e os homens vão entendendo como a igreja se reduz, afinal, a um esmagador grupo económico.

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