Um recorde para a história

Correia da Fonseca    31.Ene.12    Colaboradores

É natural que a penosa situação em que está o senhor Presidente tenha ocupado a atenção dos portugueses. O nosso povo é sensível às situações de pobreza envergonhada. Mas isso não deve desviar a atenção de um outro traço característico dos protagonistas da política de direita: além de hipócritas, são igualmente troca-tintas. Francisco José Viegas é um dos que tem estado mais em evidência nos últimos tempos.

1. Na televisão portuguesa, como decerto na de muitos outros lugares do mundo, há os programas vistos por amplos telepúblicos, vocacionados para atraírem publicidade e figurarem no topo dos rankings de audiências, mas também aqueles momentos breves de cuja importância bem se poderia dizer, à semelhança do que se diz dos homens, que não se mede aos palmos. E acontece mesmo que, muitas vezes, esses breves momentos são muito capazes de nos ensinarem coisas mais importantes que horas e horas de televisão desenxabida e repetitiva, dessa que milhões passam longo tempo a mascar sem que na boca lhes fique algum sabor, isto é, sem que nas cabecinhas lhes fique qualquer ensinamento. Ora, nestes dias recentes aconteceu um desses casos interessantes, verdadeiramente esclarecedores do clima sociopolítico que o País vive, e que nos chegou como que repartido em pequenas migalhas televisivas, notícia aqui, comentário ali, tudo sem alarde pelo menos até ao momento em que escrevo, daqui para diante é claro que não sei. Contudo, embora não sabendo, prevejo com razão ou sem ela que não será pela televisão que poderemos aceder ao pleno significado do caso. Se me engano, peço antecipadamente desculpa.

2. Para mais, acontecera pela mesma altura aquela pungente declaração do senhor Presidente da República acerca da penúria financeira em que se encontra, e essa sim, vinda de quem vinha e abordando um tema que hoje aflige milhões de portugueses ainda que com impacto compreensivelmente desigual, foi motivo de grande atenção e muitos comentários formulados do lado de cá dos televisores. Receio até que a penosa situação em que está o senhor Presidente tenha ocupado de tal modo a atenção dos portugueses, povo como se sabe sensível às situações de pobreza envergonhada que por aí tanto abundam agora, que pouca lhes tenha sobrado para outros casos ainda que relevantes. Como por exemplo o que tanto me impressionou e se desdobrou em dois tempos, digamos assim: um primeiro tempo em que Francisco José Viegas, secretário de estado da Cultura, informou António Mega Ferreira de que o reconduziria nas funções de presidente da Fundação Centro Cultural de Belém, o que Mega Ferreira terá decerto agradecido, e um segundo tempo, havido quase logo a seguir, em que mesmo senhor secretário de estado, tendo aparentemente pensado melhor ou porventura tendo ouvindo vozes à semelhança de Joana d’Arc, decidiu que quem iria ser presidente do CCB seria Vasco Graça Moura, intelectual de grande e justificado prestígio além de estrénuo militante do PSD.

3. A gente sabe, e quem não sabe adivinha, que nisto de nomeações são muitos os factores que intervêm, sendo que o mais decisivo é o da serventia já dada ou ainda a dar a quem se instalou no poder. Ainda assim, porém, é costume guardar um certo decoro, e é precisamente a falta desse decoro, sublinhada pela rapidez com que tudo ocorreu, que promove este caso à categoria de recorde nacional absoluto. Por um lado, é praticamente consensual que a gestão de Mega Ferreira no CCB teve vários méritos e deparou com algumas dificuldades de grande dimensão (com destaque para o caso da Colecção Berardo). Por outro lado, é óbvio que esta infeliz nomeação não acrescenta nada de bom ao currículo e ao perfil de Vasco Graça Moura, de tal modo que é surpreendente e mesmo decepcionante que ele aceite um lugar que lhe é entregue nestas deploráveis circunstâncias. Diz o povo que quem dá e tira vai para o Inferno e, a ser assim, Viegas já lá tem lugar assegurado. Curiosamente, depois da excelente tradução que fez de Dante, não será de mais arriscar que Graça Moura se tornou um especialista do Inferno na área literária, o que pode ter sido um augúrio. Mais importante, de qualquer modo, seria que Francisco José Viegas encontrasse um especialista em Pudor Cívico. É que este desgraçado jogo de põe e tira implicaria, no plano da higiene, que Viegas se demitisse e, quando muito, voltasse a exercer o comentário televisivo numa óptica de direita e a escrever mais um romance de pendor policial. Pensando bem, talvez o crime seja a sua área natural. Literária, já se vê. E se Viegas se retirasse transportando consigo o seu lamentável recorde talvez o País acabasse por esquecer ou perdoar-lhe a proeza.

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