Uma etapa

Filipe Diniz    02.Oct.09    Outros autores

José SocratesQuando Jean-François Revel, em 1968, disse que «… em princípio [que] um governo que destrói total ou parcialmente a informação não é eleito democraticamente, mesmo que provenha de eleições», ainda os sociais-democratas não se tinham rendido incondicionalmente ao imperialismo norte-americano e ao neoliberalismo.
O Diário de Notícias era dirigido por Augusto de Castro, ainda não havia TVI e José Sócrates acabara de entrar para o liceu…

Não foi um comunista, mas um homem de direita quem escreveu: «mantenho em princípio que um governo que destrói total ou parcialmente a informação não é eleito democraticamente, mesmo que provenha de eleições». Trata-se de Jean-François Revel (Lettre ouverte à la droite, 1968), e não há dúvida que escreveu uma coisa acertada.

Nós sabemos, naturalmente, que a ilegitimidade democrática que analisa não reside apenas na mutilação da informação. Reside nas múltiplas formas de manipulação que constituem um dos traços distintivos da democracia burguesa. Sem elas qualquer eleição livre constituiria um risco demasiado grande para o poder dominante.

É por isso que - saídos de uma duríssima disputa eleitoral em que a CDU foi silenciada e censurada no plano mediático, em que a sua mensagem e propostas foram deliberadamente ocultadas ou deturpadas, em que se verificaram sucessivas tentativas de limitação da sua liberdade de acção política e de propaganda - saídos dessa disputa com a CDU mais forte em votos e em mandatos, esse resultado deve ser ainda mais valorizado como um muito importante êxito.

Dói mil vezes mais ao grande capital que a CDU acrescente um deputado à sua bancada do que todos os deputados que outras forças políticas tenham alcançado.

É certo que os partidos que têm assumido a condução das políticas de direita ao longo destes já mais de trinta anos tiveram mais votos do que aqueles que mereciam. Mas esse é apenas um dado do problema.

Passados os dias da propaganda e das promessas vem aí o confronto com a realidade, dura como pedras, contra a qual as ilusões duram pouco. Aí, no mundo real das desigualdades e da exploração, os trabalhadores e o povo voltarão a encontrar ao seu lado o PCP, tenham ou não votado nele.

Mas nem toda a mentira e manipulação são capazes de enganar sempre.

Que o diga José Sócrates, candidato pelo círculo de Castelo Branco, onde foi premiado com um trambolhão de quinze pontos percentuais e quase 1/3 dos votos, num expressivo sinal de que o mundo real e a luta dos trabalhadores podem ser provisoriamente ocultados e silenciados, mas irrompem onde menos se espera, mesmo na cabine de voto.

Tal como vão, passo a passo, construindo o longo caminho da história.

Este texto foi publicado em Avante nº 1.870 de 1 de Outubro de 2009

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