Uma reflexão sobre a Revolução Cubana

Isachi Fernández    17.Dic.07    Outros autores

Entrevista feita por Isachi Fernandez ao responsável pelo Departamento de Cultura do Comité Central do Partido Comunista de Cuba.

Entrevista a Eliades Acosta*, responsável do Departamento de Cultura do CC do Partido Comunista Cubano.

É um homem que sabe ouvir. Di-lo o mundo intelectual cubano e esse «trunfo» avaliza Elides Acosta à frente do Departamento de Cultura do Comité Central do Partido Comunista de Cuba, tanto como o seu saber fazer no campo da investigação histórica, da criação literária e do seu impulso à Biblioteca Nacional José Marti e ao sistema de bibliotecas do país.

Chegou ao seu gabinete num tempo de confrontações, de reposição de mecanismos, alguns até esse momento subterrâneos.

Isachi Fernández (IF) – Que panorama encontrou ao assumir a direcção do departamento de cultura do Comité Central?Eliades Acosta (EA) – Há já 17 anos que não havia departamento de cultura no Partido. Para não constituir uma carga demasiado onerosa para o Estado num momento economicamente difícil, a estrutura do Partido contraiu-se durante esse período.

Muitos funcionários foram enviados directamente para a base, e nessa redução o Departamento de Cultura que tinha um trabalho sustentado (recorde-se que tinha sido brilhantemente dirigido Sérgio Corrieri, entre outros companheiros) deixou de existir. Foi uma contracção em momentos muito duros para o país, que afectaram directamente a cultura e as suas instituições. Isto não quer dizer que não houvesse diálogo, nesse período, Fidel esteve particularmente perto da União de Escritores e Artistas de Cuba (UNEAC) e do trabalho cultural.

Em Julho de 2006 no secretariado do Partido acordou-se reanimar o departamento da saúde, o da ciência e o da cultura.

Agora estamos num momento diferente, um momento de transformações revolucionárias. O país está a repensar as suas estruturas, o próprio Partido está a repensar as suas relações com a sociedade na procura de um diálogo mais directo, mais eficaz e uma maior participação do povo nas decisões.

Antes no Departamento de Cultura não existiam todas as instituições que há hoje, nem o sistema empresarial do Ministério da Cultura, nem a nova onda de instrutores de arte, a Brigada José Marti. Além disso, junta-se a programação cultural da rádio e televisão. Os desafios são muito grandes, há muitos problemas.

IF – Podia aprofundar que tarefas e que problemas?
EA –Há necessidade de recolocar o papel das instituições culturais no que diz respeito à criação e aos criadores. É uma coisa por que estão reclamando os próprios criadores nas reuniões prévias do Congresso da UNEAC. Já nos reunimos com artistas e intelectuais, com conselhos de direcção, com secções sindicais, com a UNEAC, com funcionários do Ministério da Cultura. Temos visitado as províncias, as instituições, as casas dos criadores e encontrámos uma aspiração lógica a que se actualize a legislação. Há um panorama novo no país, com mudanças económicas, sociais, elevou-se o nível cultural do povo cubano e, inclusive, apareceram desigualdades indesejáveis. Isto no que respeita aos criadores e à Lei de Direitos de Autor, por exemplo.

Há reclamações, para além de actualizar a relação entre as instituições e os criadores, de redefinir para que servem as instituições, como representam, como acolhem, quem decide se sim ou não se promove uma obra, quais são os poderes que têm uma instituição, quais os direitos e deveres das instituições para com os criadores, quais os direitos e deveres destes para com as instituições, como podem os artistas e intelectuais ter uma participação mais activa na tomada de decisões, como pedir contas pelo trabalho dos funcionários, como reclamar uma atenção que tem que ver com queixas, opiniões, sugestões. Quem responde às reclamações? Quando? É importante que todos sejam atendidos, independentemente de ser um criador de primeiro nível ou a recepcionista de uma biblioteca. Todos temos direitos, a Constituição protege-nos, a Revolução fez-se para que o povo tenha direitos e os exerça, e os funcionários são obrigados a atender, a respeitar a dar andamento na medida do possível à resolução dos problemas, tendo em conta que algumas soluções passam pela economia, num momento em que o país continua num período difícil.

É saudável, num determinado período de tempo repensar o que foi feito, analisar como evoluiu a sociedade porque quando se introduz uma mudança no sector isso tem repercussões no sistema inteiro. Trata-se de um sadio exercício de bom governo.

IF – A que atribui a chamada «indigência crítica» que grassa nos media em Cuba?
EA –
A vários factores. Está no abuso de práticas institucionais para limitar a crítica, não podemos esquecer que por diversas razões o questionar incomodava. É certo que o inimigo usa os nossos erros, as nossas críticas.

IF – Também o nosso silêncio
EA –
Também. Usa todos os espaços vazios que deixarmos. A crítica pode ajudar a resolver os nossos problemas, os silêncios nunca resolvem nada. Perante a escolha, optamos pela crítica. Deve ficar para trás essa prática de silenciar os problemas, à volta da qual nem sempre está a boa intenção de defender a Revolução, mas também a de tratar dos cargos ou posições, posturas acomodatícias e lesivas do clima ético de uma sociedade.

Institucionalmente nem sempre se permitiu a crítica, nem se compreendeu, nem se estimulou. Isso cria uma atitude reflexa naqueles que estão obrigados pelo seu trabalho a exercê-la. É evidente que não se trata da tarefa de um grémio, a crítica é uma condição consubstancial ao ser humano.

Criou-se uma espécie de sindroma da autocensura: «arranjo problemas se entro num problema escabroso», «para não arranjar problemas vou comungar com a mediania». Então vai-se formando um vazio muito perigoso e, ainda que a sociedade cresça economicamente, nesse clima decresce moralmente. Os silêncios são fatais numa sociedade, os esquecimentos, a autocensura ou a censura desmedida, porque a há em todas as sociedades divididas em classes, onde há Estado há censura.

IF – Por vezes disfarça-se bem
EA –
Disfarça-se bem a partir do mercado, mas voltando a Cuba, foi benéfico para sair dessa armadilha, o apelo ao debate depois do discurso de Raul do 26 de Julho em Camaguey. O próprio Raul, que está à frente do partido e do Estado, e com toda a autoridade moral que lhe assiste, disse ao povo que este é o momento de discutir «nua e cruamente» os nossos problemas. Além disso, há um documento do Bureau Político, que apoia a crítica nos media, mas o que é encontrámos? Há receio, há inércia, há pessoas que não estão preparadas porque são muitos anos e dá trabalho ultrapassar a barreira psicológica. Mas se lermos a imprensa e se lermos também a essa grande imprensa não institucional, os correios electrónicos (que vieram para ficar), vemos que as pessoas estão a participar. Nota-se uma saudável activação do espírito cívico dos cubanos. Nos debates a partir do discurso de Raul participaram mais de cinco milhões de pessoas e colocaram-se mais de um milhão e 200 mil propostas.

IF – Quando se fala na reacomodação do país, o que é que pensa como possível e conveniente?
EA –
As coisas estão intimamente ligadas. Lembro uma frase de Marx que Lenine retomou depois, uma frase profundamente revolucionária e dialéctica que diz que «toda a contradição traz no seu seio a sua própria solução». Júlio Verne dizia de outra maneira que «tudo o que um homem sonhar outro homem o tornará realidade». As aspirações da sociedade cubana, expressas nas discussões a propósito do discurso de Raul, na rua, nas famílias e nos núcleos do Partido, são possíveis e necessárias. São aspirações ao bem-estar material, a que cada um possa sustentar-se e sustentar a família com o fruto do seu trabalho honesto. São aspirações ao desenvolvimento pessoal e social, maior acesso ao conhecimento, a uma vida mais plena, baseada em princípios revolucionários. Tudo isto redunda numa sociedade mais eficiente, mais participativa, que reconheça e respeite a diferença, que não se desagregue nem se ponha ao serviço de uma potência estrangeira.

O que é necessário fazer no país passa pela eficiência, pela participação, pela garantir às pessoas uma maior quota de responsabilidade, derivada de se sentirem co-responsáveis nas decisões.

Aspiramos a uma sociedade que fale dos seus problemas em voz alta, sem medo, em que os meios de comunicação reflictam a vida sem triunfalismo, em que os erros sejam publicamente ventilados na procura de soluções, em que as pessoas possam expressar-se honestamente, onde a economia funcione, os serviços funcionem, onde os cubanos não se sintam cidadãos de categoria inferior no seu próprio país por algumas medidas que no seu momento foram imprescindíveis, mas que hoje são obsoletas e insustentáveis, uma sociedade onde haja muita e variada informação, onde haja produtos culturais de alto nível, onde possamos estar em comunicação com o mundo de uma forma natural e saibamos defender as essências da nossa identidade e as conquistas da própria Revolução.

Não é uma tarefa de ninguém em particular, de nenhum génio. Será o povo de Cuba, o Partido, força dirigente [rectora] da sociedade, somos nós os revolucionários que estamos obrigados a fazê-lo e os que o podem fazer. Dizem os chineses que «a viagem mais longa começa com um passo». Esse passo foi a discussão a que nos chamou o Partido para renovar o consenso e a partir daqui ir resolvendo os problemas, que são muitos e muito complicados, mas este é um povo com uma cultura e uma consciência política muito altas.

IF – O que é que não pode faltar na política cultural dos próximos anos?
EA –
Toda a política cultural faz parte de um projecto maior. Não se trata de um divertimento que se aplica a um grupo humano, a política cultural é o mecanismo através do qual a sociedade no seu conjunto estimula a criação, a promoção, o acesso, a participação dos diferentes extractos na gestão cultural para que isso reverta a bem da própria sociedade. Tudo o que façamos tem de ir no sentido da plenitude do homem e da sociedade, e há que ter em conta que em Cuba as políticas são para todos.

Há que pensar em como fortalecer o ensino artístico e em como proteger e promover melhor as culturas populares.

IF – Entendo então que há insatisfações sobre isso
EA –
Claro. Estamos num momento que atravessa toda a sociedade, no qual há um grupo de formas de fazer que requerem um salto de outro nível. Trata-se desse momento de ruptura e de transformação revolucionárias, que é a dialéctica. O mundo não vai acabar por haver muitas queixas. Há uma espécie de mal-estar partilhado que é temporal, na medida em que os moldes que nos aprisionam se rompam e encontremos uma nova expressão para o que nós próprios formámos.

Este país tem um nível cultural que provoca invejas às potências mundiais, no entanto este país está insatisfeito com a sua rádio e com a sua televisão por que requer que sejam mais cultas, que reflictam melhor a realidade e as aspirações das pessoas. O graduado em arte, por exemplo, tem uma preparação superior à dos anteriores graduados, e tem umas aspirações diferentes, portanto as instituições têm que ir evoluindo com o novo material humano.

Há muitos problemas, materiais, de salário, de direito que são sinais de alarme e nos indicam a necessidade de mudanças. Não há que ficar zangado, não se trata de um questionar o trabalho de ninguém, não estamos a negar donde vimos nem os contributos fundamentais de outros, não é deixar de reconhecer os que se sacrificaram, sobretudo durante o Período Especial, por manter as conquistas sociais.

É necessário ouvir muito para poder actualizar essas políticas. O primeiro passo para tomar uma decisão honesta que tem que ver com outros seres humanos é saber escutar e ser humilde, se parte dessa premissa, as pessoas contribuem, participam, e os erros têm de ser menores.

IF – Sabemos que a cultura cubana é uma cultura de pensamento, há uma série de figuras que avalizam esta afirmação, além do mais, como país caribenho, o baile está profundamente inscrito na nossa identidade. Que opções se abrirão neste aspecto para o cubano normal, o que não tem acesso a dólares?
EA –
Tudo o que se fez é insuficiente, exige ser repensado para entrar numa nova fase. Por exemplo, estive na inauguração de casinotecas em zonas muito humildes de Havana, muito populares, e vi com que agrado as pessoas recebiam essas instalações. Ao mesmo tempo os carnavais perdem força.

Ainda não se puderam decidir espaços regulares, sistemáticos, mas há um plano, um programa. O rock, por exemplo, tem o seu público, há que respeitá-lo, faz parte da identidade nacional, e necessita de espaços.
Há o tema dos dançáveis, que não podem limitar-se aos fins de ano e às datas pátrias. Tudo isto passa por recursos, devemos recordar as tensões que viveu o país, agora mesmo o preço do barril de petróleo está quase a cem dólares, e a isso juntam-se os prejuízos dos fenómenos climatológicos.

De qualquer modo, falta-nos um olhar sistemático a nível do território, as soluções têm estado parceladas: «isto é da cultura», isto é da gastronomia», «isto é da educação». E vimos os problemas de uma forma muito tradicional, com honrosas excepções não potenciámos um pensamento colectivo para avançar. Quando se vai, por exemplo, a Granma, e se vê o que se está a fazer em Bayamo, qualquer um se espanta que numa província com recursos relativamente modestos se observe um panorama tão animador com as instituições culturais e os estabelecimentos gastronómicos que se abriram, a maioria em moeda nacional, o ambiente culto que se está a criar, o recém inaugurado Guiñol (um dos melhores de Cuba), o recém inaugurado Teatro. Por que é que aí se consegue e noutros lugares não? Haveria que indagar na cultura dos funcionários, na sua sensibilidade, mas também é importante accionar o pensamento colectivo. Estou seguro de que ali há uma espécie de «parlamento cultural» que toma as decisões, onde a UNEAC é importante, a Associação Hermano Sainz é importante, a União de Historiadores é-o também. Os artistas, os intelectuais participam, tem a ver com o assunto.

Estivemos ali no Dia da Cultura Cubana com uma série de companheiros, entre eles Abel Prieto e Ricardo Alarcón, e sentimos um clima de satisfação. Não é que não haja problemas, mas as pessoas têm confiança.

Há problemas que têm soluções locais, e em cidades grandes já é um pouco mais complicado., mas de qualquer modo, a participação é decisiva.

IF – E quanto ao património açucareiro o que é que se passou?
EA –
Uma débacle. Apesar de ter estado previsto na tarefa Álvaro Reinoso a protecção do património, a preservação das tradições, o cuidado com os arquivos, a realidade não foi essa.

Houve um chamada de alerta da União de Historiadores de Cuba e o Partido de imediato se mexeu para resolver o problema. Unimos forças o departamento de ciência, o de cultura e o agro-pecuário, convocámos o Ministério do Açúcar, o Conselho Nacional do Património e a União de Historiadores de Cuba. Apresentou-se um relatório muito crítico da situação porque por burocracia, inércia, falta de controlo, falta de denúncia social danificou-se parte do património. Voltemos à importância da imprensa e da sociedade activada: esse problema vinha andando, saltou pelos historiadores, mas primeiro devia ter saltado pela imprensa local ou pela nacional, devia ter saltado na prestação de contas do Poder Popular, pelos núcleos do partido. Não quer isto dizer que não tenha acontecido, mas não tiveram o efeito esperado, por alguma falha dos mecanismos.

Perdeu-se irreversivelmente uma parte desse património, por sorte nem a maior nem a mais valiosa. A partir daí fez-se um levantamento nacional, e agora estamos a fazer o segundo no mesmo ano, lugar a lugar, análises, medidas imediatas para salvar arquivos e ir revertendo a situação. Em quatro ou cinco meses estancou-se o processo de deterioração e manteve-se um trabalho sistemático, com o Partido à frente, para poder chegar a um estado irreversível do património. É um exemplo do que não se devia passar. Mas também é um exemplo de resposta pronta a um problema essencial para a memória deste país.

IF – E no respeita ao património eclesiástico?
EA –
A partir da análise incentivada pelo Partido criou-se uma comissão estatal presidida por Carlos Lage que está a fazer um levantamento da situação do património documental, compreendido por documentos em qualquer suporte, que se apresentou recentemente às maiores instâncias de decisões do país, uma espécie de programa por etapas para o qual se destinaram recursos.

Neste programa inclui-se o património eclesiástico, que preenche um imenso vazio para os historiadores e para a nação porque o arquivo dos nascimentos e mortes faziam-se nas paróquias. Há um trabalho coordenado, destinaram-se recursos importantes em diferentes campos para que em cinco anos a situação esteja estabilizada. Isto inclui a participação internacional em projectos de salvaguarda do património.

IF – O que é que espera do próximo Congresso da união de Escritores e Artistas Cubanos?
EA –
Uma nova UNEAC, que nalguma medida nos recorde a do início, mas que seja a de hoje. Uma UNEAC viva, que permita que esse enorme reservatório cívico, ético e cultural dos nossos artistas e intelectuais se reverta no aperfeiçoamento do nosso país, no futuro da verdadeira cultura cubana. Que não seja uma agência de viagens de comercialização, nem um lugar para beber, que não favoreça capelas que lutam por quotas do poder, nem crie caldos de cultura de egoísmos. Acredito numa UNEAC viva, valente, cívica, escutada e respeitada.

* Eliades da Acosta é membro do CC do Partido Comunista de Cuba e dirige o departamento de cultura junto daquele organismo do Partido

Esta entrevista foi anteriormente publicada em Resumen Latino-americano nº 961 de 12 de Dezembro de 2007

Tradução de Luís Guedes

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço deste texto e o de odiario.info entre os teus amigos e conhecidos