UNASUL: Falcões, Timoratos e Timoratas e Revolucionários

Carlos Aznárez*    03.Sep.09    Colaboradores

Carlos Aznárez
A recente Cimeira da UNASUL realizada em Bariloche, Argentina, ao ser pela primeira numa reunião deste nível transmitida em directo pela TV, permitiu mostrar “tal qual são, expostos com as suas grandezas, que as há, e os seus defeitos, que não faltam», os Chefes de Estado dos países membros destra organização multilateral da América Latina.
Carlos Aznárez, jornalista argentino e amigo e colaborador de odiario.info, analisa as posições dos diferentes participantes e quão precária é a necessária unidade dos países do Sul, face à nova ofensiva imperial conduzida pela administração norte-americana.

Realmente é um grande avanço poder ver-se em directo [1] as grandes Cimeiras dos nossos presidentes latino-americanos. Permite vê-los tal qual são, expostos com as suas grandezas, que as há, e os seus defeitos, que não faltam.

O que foi visto e ouvido na Cimeira da UNASUL em Bariloche é um indubitável exemplo disso mesmo.

Ali está o discurso autoritário de Uribe Velez, o homem da parapolítica, e criador do militarismo ilegal que vém desde o tempo em que fundou as «Conviver», semente do que depois foram (e ainda são) as Autodefesas da Colômbia, que tanto terror e morte semearam no país. Queixa-se Uribe em Bariloche que os outros presidentes não o compreendem na sua luta contra o narcotráfico e o «terrorismo». Precisamente ele, que pactuou com os grandes cartéis colombianos, que tão amigo é de governadores, alcaides, deputados e vereadores que obedecem directamente às indicações dos narcotraficantes. Choraminga Uribe compaixão aos seus colegas da UNASUL, dizendo-lhes que as bases gringas são necessárias para terminar com aquele flagelo e com a guerrilha e, num golpe de mágica, adverte de forma expedita: «precisamos desse apoio para terminar com os que assassinaram líderes sindicais». Di-lo sem pestanejar, sabendo melhor que ninguém que esses dirigentes do povo foram executados pelo seu próprio exército, legal ou ilegal, tanto faz.

«Com esta situação de instabilidade, fruto dos assassínios pelos terroristas, os que mais sofrem são os pobres», diz o maioral, assessorado pelo seu chanceler Bermudez (outro que deve o cargo à parapolítica), sem explicar por que razão são os pobres de toda a Colômbia que reclamam aos gritos que não insista com a sua política de fome e terror, por que são os indígenas dos quatro cantos do país que marcham, uma e outra vez, em marchas de resistência exigindo a paz sem cemitérios, sem desflorestação, sem as transnacionais que lhes arrasam as terras ancestrais, sem moto-serras nem pelotões de fuzilamento.

É lógico, Uribe foi a Bariloche representar um papel e representou-o de A a Z, ajudado por outro genocida regional, obeso e insolente. Também tivemos o privilégio de ouvir a sua reivindicação das bases dos EUA e as suas ironias contra o demolidor discurso de Hugo Chávez. [Alan] Garcia tem à sua conta os massacres de Lurigancho, de Frontón e recentemente o da amazónica Bagua, mas como é um «democrata» (mentirosa palavra que ultimamente se usa para disfarçar as piores atrocidades contra os povos), tem luz verde e usa-a discricionariamente. No entanto, como todo o energúmeno que usa uma camisa preta debaixo do fato de alpaca, passa dos limites, e quer ficar tão bem como o amo e com os patrões do amo, ultrapassa os limites do ridículo ao querer convencer o auditório que «Uribe é um grande patriota latino-americano, da dimensão de Santander.

Nessas duas intervenções do tandem Uribe-Garcia ficou gravado o bloco dos falcões, dos que prestam vassalagem a Washington e ás suas directivas, mas também às suas oligarquias crioulas que, a cada passo, quando eles não actuam com a ferocidade que lhes exigem, lhes dão um bom puxão de orelhas e ameaçam substituí-los por outros como eles mas menos desgastados.

Na realidade, estes falcões eram o mais usual há uns anos, quando não existia UNASUL nem a Cimeira do Rio, mas bastava a OEA que num dia longínquo expulsou do seu seio a Ilha da dignidade e em cujo salão discursos como os dos presidentes da Colômbia e do Peru eram moeda corrente.

Agora, as coisas mudaram, e isso é o que sempre se deve ter em conta na hora do balanço, para não cair no derrotismo e continuar a investir contra o inimigo principal. Puxemos pela memória e pensemos: Quando pudemos ver, num fórum como o de Bariloche, um presidente como Hugo Chávez que, sem papas na língua, marcou a fogo as apetências imperiais citando precisamente um documento do próprio governo estadunidense, mais precisamente o «Livro Branco do Comando de Mobilidade Aérea e Estratégia Global das Bases de Apoio». Esse paper [em inglês no texto], que devido à prepotência não necessitaram classificar como secreto, explicita a estratégia militar intervencionista de tal forma que até os mandatários mais anódinos da região tiveram de abrir a boca surpreendidos e concordar que a coisa está preta.

«Palanquero», disse Chávez e descreveu o papel que vai ter a base militar ianque (que Uribe não qualifica como tal) para a partir dali ameaçar a segurança da região. O documento não mente ao dizer que é uma «localidade de segurança, de cooperação». Segundo o Comando Sul, a partir de Palanquero, aviões de grande alcance e poder destrutivo (inclusive com a capacidade de se tornarem invisíveis) poderão cobrir toda a região, com excepção de algumas zonas do Chile e da Argentina.

Seguindo o fio do que estava a demonstrar como evidência, Chávez sentenciou, com lógica, que esta actividade imperial não vai só contra o narcotráfico (e como poderia ir se os que a apoiam são os próprios presidentes do narcotráfico) nem a insurreição, mas faz parte do projecto estadunidense para salvar a sua própria existência, da forma como sempre o fizeram: apoderar-se das riquezas naturais de todos os países que controlam.

Com a mesma ênfase e idêntica coerência, falaram depois Rafael Correa e Evo Morales, os que neste momento podem ser classificados como os três mosqueteiros da dignidade latino-americana nessa reunião patagónica. E permita-se aqui um parêntesis: quando se tem claro para onde se caminha em política continental, e ao mesmo tempo se tem suficiente audácia e valentia para não se apoucar ante os poderosos, o resultado é um discurso como os de estes três mandatários. Como Correa discutindo com Uribe, na sua própria cara, (com holofotes e estenógrafos) se as FARC são, como ele afirma, terroristas ou não. E aclarou: «quando os colombianos vinham aos milhares refugiar-se no meu país dizia-se que eram insurrectos, agora chamam-lhes terroristas», contestando a prepotência uribista que repreendia tanto Chávez como Correa pelo facto de considerarem a insurreição uma «força beligerante». Menção à parte merece o discurso de Evo que, na linguagem chã e simples que falam os povos originários, contou ao mundo o que a presença ianque significou para os bolivianos e sobretudo para o campesinato cocalero. Deu exemplos, contou acções intervencionistas, explicou como os próprios homens e mulheres da sua organização sindical foram assassinados, torturados, presos, demonizados (como «vermelhos» e «comunistas»), esses indivíduos que para Uribe são necessários para garantir a sua própria governabilidade.

Mas como o cenário abarca muito mais que falcões e revolucionários, depois da sessão televisiva ou radial tive que inteirar-me dos matizes do outro grande bloco regional. O dos que não são nem uma coisa nem outra. Melhor dito, por vezes são anódinos, outras pisam o risco da transgressão e até parecem que embandeiram com os revolucionários mas, na maioria das ocasiões, destilam mediocridade nos seus discursos e acções que se convertem em funcionais dos falcões, ou antes, dos saltimbancos destes últimos.

Claro que há matizes, e vale a pena começar pelos mais perigosos nas suas estratégias ziguezagueantes. Lembram-se do Lula? Observaram a sua cara em Bariloche, os seus gestos de enfado com o presidente Correa, ou o baixar dos olhos quando Chávez o incitava a unir-se ao pelotão dos mais avançados? Ouviram os seus desplantes, a sua impaciência para sair dali, porque, claro, a TV o estava a expor tal qual ele é, e tal como têm de osuportar os camponeses sem terra do Brasil ou os que lutam contra a destruição do meio ambiente, ou os que habitam nas favelas da morte esmagados pela miséria? Desde há algum tempo, Lula advoga – compete, é a palavra justa – para que o Brasil seja a potência regional que ofusque a governação de Hugo Chávez (ainda que por razões de Estado e necessidade de não partir a necessária unidade que se defende, o governante venezuelano nunca o vá confessar), e faz actuar o Brasil e as suas próprias multinacionais, como a Petrobrás em incontáveis oportunidades, como um sub-império, e quando assim é e tem que assinar negócios com o império (como é o caso dos agro-combustíveis) contrários ao sentir generalizado da região não lhe trema a mão. Nesta Cimeira de Bariloche Lula agiu mal para a preservação da unidade latino-americana, actuou como um ladino [2], difamando os que querem mudanças a sério, carreando argumentos para a posição de Uribe, deixando claro que a ele pouco lhe importa o que com tanta paciência se relatou sobre o Comando Sul. E devia importar (e consta-nos que a muitos militares brasileiros os preocupa), porque entre os territórios cobiçados por Washington está nada mais nada menos que a Amazónia. Lula quis ridicularizar o bloco revolucionário com as suas iradas manifestações de enfado, embora por fim tenha tido que assinar o comunicado final, que – lamentavelmente – não condenou radicalmente as bases como as circunstâncias exigiam.

Dizendo Lula, dizemos Bachelet. A mulher de ferro contra os mapuches, a que manda os carabineros assassinar membros das comunidades desse povo oiginário, a mesma que prende os que lutam pelas suas terras. Essa mesma, a que mandou espancar estudantes do ensino secundário e universitários (os famosos pinguins) ou operários em luta. Bachelet, essa falsa conciliadora que defendeu em Bariloche (como faz em quase todos os fóruns em que participa) que os assassinos se ponham de acordo com os povos do continente. Discurso oco, hipócrita, e por isso mesmo pouco credível e totalmente inútil.

Depois vêm os outros, misturados quanto baste para confundir ainda mais o respeitável público: Lugo, o ex-sacerdote que jurava dar a vida pelo campesinato mas continua a recusar a reforma agrária, a cada momento autoriza os seus gendarmes a espancar os que reclamam terra e liberdade, o Chefe de Estado que assinou pactos com Uribe para a cooperação policial na luta contra o narcotráfico, e com a ALBA, coligação que integra para não ficar em fora de jogo na partilha económica solidária. Lugo que também quis oficiar a mediação do que se não pode mediar, no seu afã de ficar de bem com Deus e o diabo, desaproveitou a oportunidade de se envolver no pelotão dos que defendem sem peias a soberania deste continente.

De Tabaré pouco se pode dizer. Esteve correcto ao mencionar as Malvinas como exemplo (o que Cristina Fernández [Kirchner] também fez), e a condenar as bases, mas o seu discurso pacifista soou a falso e fora da realidade e, tal como todo o seu mandato, foi uma presença cinzenta como a cor do seu fato habitual. Para cúmulo, quando as batatas queimavam nas mãos e o bando de falcões intensificava os seus ataques contra o trio Chávez-Correa-Morales, decidiu sair antecipadamente, com a desculpa esfarrapada que tinha de inaugurar um instituto contra o cancro, cujos fundos provém, precisamente, da revolução bolivariana que não teve a coragem de defender, nem nestas circunstâncias tão álgidas. Não fosse comprometer-se demasiado, ele, que assinou com os gringos um TLC chamado TIFA e recebeu com toda a pompa e circunstância mister Bush, ao mesmo tempo que os povos do continente, e também o uruguaio, o repudiavam nas ruas, ele que autorizou a Botnia a contaminar livremente as águas uruguaias e argentinas. Saiu depressa Tabaré, e não se notou a sua falta.

Cristina Fernández é um caso à parte ou, se quisermos um quarto bloco. É-o na política externa argentina, que está cheia de luzes e sombras. Um dia abraços com Chávez, Correa e Evo, o que se aplaude, no outro aliança com o discurso imperial a condenar o Irão (por ostensiva pressão sionista) ou a reivindicar (outra vez) o regresso ao seio do FMI. Na política interna acaba de enviar ao Parlamento um projecto de Lei imprescindível para recuperar o espaço radioeléctrico e pô-lo ao serviço da sociedade civil e não das holdings empresariais onde ele actualmente está.

Com o tema Colômbia, a Argentina, o governo argentino têm actuado correctamente no apoio a todas as acções de Piedad Córdoba nos contactos com as FARC para o intercâmbio dos reféns mas, repetidamente nos seus discursos, esbarronda-se ao igualar os assassinos do paramilitarismo com os revolucionários insurrectos. Em Bariloche, Cristina começou com o pé direito e juntou-se ao discurso de condenação das bases, inclusive dando por oficial e credível o documento do Comando Sul, perante a bravata de Alain Garcia que o atacava para minimizar Chávez. No entanto, no final aliou-se ao sermão «bachelista» tentando consertar o inconsertável, mais preocupada com o tom das vozes e com palavras que trocavam os mandatários que com o conteúdo da discussão. Não obstante, de todas e todos os que poderíamos meter no terceiro bloco, a presidenta argentina manteve o discurso menos hipócrita, o que não é pouco nestas circunstâncias, e por isso a colocamos à margem dos três grupos anteriores.

Ao fim e ao cabo, UNASUL mostrou o que são todos e cada um dos que governam este território que hoje tão apetecível é para os generais do Pentágono. Diferentemente do que acontecia até agora, pôde ver-se o que se escondia e manipulava. Esse foi um avanço importante, principalmente porque nos permite avaliar posições e não ficarmos à espera do que nos conta a manipulação mediática.

O resultado da reunião foi um tíbio comunicado, que mostra que a unidade foi salva mas que não tem a consistência precisa na difícil hora que vive o continente, em que, como muito bem disse Hugo Chávez, estão a soprar ventos de guerra, e em que o sábio e combatente Fidel adverte para o perigo das ambições desenfreadas do imperialismo.

Para muitos presidentes e presidentas da região, o problema não parece tão importante assim, há uma atitude irritante de «ao fim e ao cabo isto não é connosco, são problemas do Chávez». Daí que a imprensa e o stablishment uribista (o da Colômbia ou o da Argentina tanto dá) festeje o resultado final da contenda de Bariloche e em algum artigo se insinue que isto permitirá ao actual habitante do Palácio de Narino ser reeleito.

Para os povos, para os que diariamente lutam contra a prepotência económica das transnacionais e a militarização da região levada a cabo pelos EUA ou pelos seus cúmplices locais, ficou claro o que se passou em Bariloche e não tem dúvidas quanto ao lugar que devem ocupar na fotografia: bem, mas muito longe dos falcões e dos timoratos. Se se quer mudar verdadeiramente, o único caminho é o dos que enfrentam cara-a-cara o imperialismo, ainda que as consequências sesse digno gesto cause sacrifícios e não poucas dores no corpo e na alma. A resistência do povo hondurenho, que já cumpriu dois meses de acções contra o golpismo, é um exemplo disso mesmo.

Notas do Tradutor:
[1] Pela primeira vez uma Cimeira de Chefes de Estado foi transmitida em directo pela TV.
[2] Vem de ladino, crioulo que pretende subir até à oligarquia branca.

Este texto foi publicado em Resumen Latinoamericano.

* Jornalista argentino, director de Resumen Latinoamericano

Traduçãode José Paulo Gascão

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