US/NATO quer arrancar o Kosovo da Sérvia

John Catalinotto*    06.Feb.08    Colaboradores

No momento em que os imperialismos norte-americano e europeu, coadjuvados pelo silêncio cúmplice de pequenos estados servis como o Portugal governado pelo PS de José Sócrates, se preparam para apoiar a declaração unilateral de independência do Kosovo, esta análise esclarece quais os interesses em jogo, e como essa «independência viola Tratados e a resolução 1244 da ONU.

As forças da ala da extrema-direita que governam agora a província do Kosovo da Sérvia planeiam anunciar a secessão da Sérvia em 2008. Os poderes dos Estados Unidos e principalmente da NATO apoiam este movimento reaccionário e continuam a sua estratégia de «dividir e conquistar» nos Balcãs. Esta estratégia desfez em pedaços a Jugoslávia, deixando a região instável e enfrentando agora novas guerras interactivas.

Utilizada durante os anos 90, esta estratégia conseguiu separar a Jugoslávia outrora unida e socialista em meia dúzia de mini-estados capitalistas. É um erro chamar «independentes» a estes estados. São neo-colónias fracas dominadas pelo Ocidente, pilhadas principalmente pelas corporações sediadas italianas, americanas e alemãs e bancos, dependentes do imperialismo.

Agora a Sérvia, antigamente a república mais forte e mais multinacional da Federação da Jugoslávia, é ameaçada pelas mesmas forças reaccionárias que despedaçaram a Jugoslávia.

Quem governa agora o Kosovo? As mesmas pessoas que chefiaram o gang armado intitulado UCK (iniciais albanesas) contra a Jugoslávia nos anos 90. O antigo general Hashim Thaci, um chefe do UCK, tornou-se presidente do Kosovo, depois da eleição em Novembro. Este grupo tem políticas de extrema-direita que apelam aos aspectos mais reaccionários e chauvinistas do nacionalismo Kosovar albanês.

Embora armado pelos Estados Unidos e pela Alemanha, o UCK foi incapaz de ganhar lutas no Kosovo até o Pentágono entrar. Os militares dos Estados Unidos utilizaram o seu imenso poder aéreo para executar um bombardeamento mortífero de 78 dias na Jugoslávia na Primavera de 1999. As bombas e foguetões dos Estados Unidos e da NATO destruíram muitas das infra-estruturas industriais na Sérvia, bombardeando pontes, escolas e 147 hospitais.

Sob a pressão deste bombardeamento e da ameaça de uma invasão ainda mais sangrenta, o governo jugoslavo concordou em Junho de 1999 em deixar as forças da NATO ocupar o Kosovo. Com o apoio da NATO, o UCK instaurou um regime de direita, corrupto, que nos oito anos seguintes escorraçou da província muitas pessoas que ainda restavam, de nacionalidade sérvia, judaica, romena, egípcia e outras, incluindo os albaneses pro-jugoslavos. Muitos destes refugiados encontraram um novo lar dentro da Sérvia e do Montenegro não ocupados.

A Resolução 1244 da ONU, reafirmava «o compromisso de todos os estados membros à integridade territorial e à soberania» da Jugoslávia, de que a Sérvia, é o estado sucessor. Isso significa que Washington, Berlim, etc., vão romper os tratados internacionais e as leis internacionais quando reconhecerem a secessão do Kosovo.

Sem Libertação, não há independência

UCK significa «Exército de Libertação do Kosovo», mas ainda ninguém foi libertado quando ele chegou ao poder. Mesmo os kosovares albaneses que se opuseram ao UCK tiveram de abandonar a província. Sob a direcção do UCK, o Kosovo tornou-se um centro de tráfico de drogas ilegais e escravatura de mulheres e crianças através de elos de prostituição — e um regime corrupto que fazem as empresas dirigidas pelo UCK parecer versões menores de Halliburton e Blackwater.

O regime Thaci deve declarar a independência do Kosovo no princípio de 2008. Mas, a nova entidade, deve ser ainda mais dependente da NATO, do imperialismo ocidental, do que as outras novas repúblicas dos Balcãs. O seu papel principal será o de instrumento da NATO nos Balcãs um espaço de trânsito para os oleodutos e gasodutos que evitem o território russo no seu caminho para ocidente.

Os imperialistas já controlam a maior parte das indústrias e do comércio rentáveis da Sérvia — incluindo o Kosovo. Isso inclui as valiosas minas Trepca no Kosovo. Mas um Kosovo fraco e separado com um regime completamente dependente é uma base militar fiável onde as tropas da NATO podem permanecer indefinidamente.

Logo depois de as tropas da NATO terem ocupado o Kosovo em 1999, os Estados Unidos construíram aí uma base militar maior, chamada Camp Bondsteel. Há ainda 7 mil soldados americanos estacionados ali entre as 16 mil tropas da NATO ainda no Kosovo. E agora a União Europeia decidiu enviar mais 1.600 para lá estarem quando o regime do Kosovo anunciar a separação.

Como o opositor de guerra, Michel Collon afirmou em 1990 no seu livro Liar’s Poker que controlando o Kosovo passarão a controlar a rota do petróleo e do gás da Ásia Central e do Cáucaso para a Europa evitando o território russo.

O governo russo, por outro lado, é a força principal que se opõe à secessão do Kosovo. Moscovo apoia a Resolução 1244 da ONU e a integridade territorial da Sérvia.

A imprensa demoniza de novo a Sérvia

Com o Kosovo de novo nas notícias, os media estão de novo no auge da demonização da Sérvia. Fazem-no ainda que o actual governo de Belgrado tenha o apoio total dos serviços secretos norte-americanos e as organizações não governamentais fundadas pelos bilionário George Soros quando derrubaram o Partido Socialista chefiado por Slobodan Milosevic em Outubro de 2000. Entre esses grupos estava o grupo de juventude da ala direita «Otpor» ou «Resistência», que Washington utilizou depois para organizar movimentos reaccionários na Ucrânia, Geórgia e agora Venezuela.

Uma vez deposto Milosevic e os Socialistas, os imperialistas começaram a pressionar o novo regime sérvio — o que tinham instalado — para continuar a fazer cada vez maiores concessões à penetração ocidental. Separar o Kosovo da Sérvia seria um golpe penoso, principalmente porque a Sérvia tem monumentos históricos e igrejas na parte norte da província. Desde o início da ocupação em 1999, cerca de 200 igrejas sérvias medievais foram destruídas pelo UCK sob o olhar da NATO.

Os media tem vindo a repetir as mesmas mentiras que repetiram em 1999 para justificar o bombardeamento «humanitário» da Jugoslávia. A mentira principal era a de que a Sérvia estava a cometer o «genocídio» dos kosovares albaneses. Em 1999, os porta-vozes dos governos norte-americano e alemão afirmavam que os sérvios tinham morto 100 mil kosovares albaneses e os tinham enterrado em valas comuns.

Esperando encontrar corpos por todo o lado, um grupo das Nações Unidas procurou todo o Verão de 1999 no Kosovo e encontrou um total de 2.108 corpos de todas as nacionalidades. Alguns foram mortos pelos bombardeamentos da NATO e alguns na guerra entre o UCK e a polícia sérvia e os militares. Nada de massacres. Nada de genocídio.

Porto Rico, Irlanda, País Basco?

Os Estados Unidos, a Inglaterra e a França, e a Alemanha, devem reconhecer diplomaticamente a entidade do Kosovo se Thaci declarar a independência. Alguns membros da União Europeia — Malta, Chipre, Grécia, Roménia e Espanha (neste caso, devido à sua opressão no País Basco) — declararam que não vão reconhecê-lo.

Poderíamos perguntar se Washington também reconhecerá a independência de Porto Rico, se Londres reconhecerá o direito da Irlanda do Norte de se juntar ao resto da Irlanda e se a França e a Espanha reconhecerão o direito à autodeterminação do País Basco. Não temos dúvidas de que os dirigentes destas capitais vão responder «não».

Há uma diferença entre as situações acabadas de descrever e a do Kosovo. No Kosovo há, juntamente com alguns povos de minoria étnica, duas outras nacionalidades em maioria: Sérvios e Kosovares albaneses. Cada uma destas duas nacionalidades é oprimida pelo imperialismo, como eram as outras nacionalidades na anterior Jugoslávia. Os imperialistas conseguiram utilizar o UCK de direita, primeiro contra a Jugoslávia e agora contra a Sérvia, mas nenhuma das nacionalidades oprime ou explora a outra da maneira que os imperialistas nos Estados Unidos, Inglaterra e França oprimem e exploram os nacionalistas nas suas colónias.

Quando os partisans de Tito expulsaram os ocupantes alemães em 1945 e instituíram a Federação Socialista Jugoslava nos Balcãs, o novo regime socialista emitiu leis que protegiam os interesses de todas as nacionalidades na Jugoslávia e tentavam mantê-los juntos num só estado. Conseguiu-se durante cerca de 45 anos apesar das diferenças históricas entre as nacionalidades. Depois veio a contra-revolução no Bloco dos Países de Leste e um ataque conjunto dos imperialistas contra a Jugoslávia.

Para quebrar a Jugoslávia, os imperialistas envenenaram todas as diferenças entre as nacionalidades apoiando os partidos e grupos mais reaccionários em cada uma das seis repúblicas jugoslavas. Isso incluiu o financiamento das mesmas forças que colaboraram com os nazis durante a ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial. O imperialismo impunha agora políticas de economia neoliberal nas repúblicas que promoveram a competição e tornaram impossível a cooperação.

O único caminho para a independência verdadeira do imperialismo nos Balcãs é iniciar de novo a luta para uma federação unida e para uma luta pelo socialismo.


* John Catalinotto é amigo e colaborador de odiario.info

Nota: O autor ajudou a organizar em Junho de 2000 o Tribunal da Jugoslávia em Nova Iorque e co-editou o livro: Hidden Agenda: a ocupação da Jugoslávia pela NATO norte-americana com Sara Flounders co-directora da International Action Center.

Tradução de Manuela Antunes

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