Utilizar a experiência do Iraque para reconstruir um poderoso movimento popular contra a guerra

Ángeles Maestro*    01.Abr.11    Colaboradores

Ángeles Maestro

Movemo-nos de novo entre a angústia, a confusão e a impotência. Uma nova guerra de agressão imperialista desenvolve-se perante os nossos olhos e, tal como em ocasiões anteriores, sentimos no ar até que ponto a sua arma mais potente – a propaganda de guerra – pretende aniquilar a nossa capacidade de resposta.

Ainda antes das bombas da “coligação internacional” começarem a cair sobre a Líbia já éramos bombardeados com cabeçalhos como: “Os EUA denunciam um banho de sangue desencadeado por Khadafi com centenas de líbios mortos”, “Khadafi metralha manifestantes com aviões militares”, ou “A Líbia afunda-se no caos genocida”. Curiosamente, nenhum destes títulos era acompanhado de qualquer fundamentação documental.

Ainda é suficientemente recente a enxurrada de mentiras mediáticas que antecedeu o ataque ao Iraque para que possa atribuir-se o mínimo crédito a tais notícias. Na ocasião foi elaborada uma dose de anestésico adequada a cada um dos perfis ideológicos susceptíveis de ser mobilizados: àqueles mais inclinados para a vertente humanitária foi administrado o roubo de incubadoras no Kuwait; aos ecologistas foi endereçado o incêndio dos poços de petróleo a mando de Saddam, e a imagem do albatroz agonizante; aos comunistas foi mostrada a matança dos seus camaradas; aos nacionalistas, a perseguição dos curdos… etc.

Meias verdades e flagrantes mentiras alinhadas de modo a que se chegasse à conclusão de que perante um regime tão monstruoso, que perseguia com tanta ferocidade o seu povo, o ataque “limpo e cirúrgico” da “coligação internacional” seria, afinal de contas, um mal menor. Ou ficariam, pelo menos, sérias dúvidas sobre se o remédio não viria a ser pior do que a doença.

Mas no final, após muita tensão e debate, acabou por se impor uma ideia clara: o problema principal não residia em quem era Saddam Hussein, mas nas razões pelas quais se dispunham a atacar o Iraque e a mudar o seu regime. A resposta era nítida: o Iraque era a primeira etapa de um projecto geoestratégico de controlo do Médio Oriente (de controlo das suas riquezas e de ocupação militar directa) por parte dos EUA, da UE e de Israel. As consequências foram igualmente claras: as ruas mobilizaram-se contra a intervenção militar estrangeira e contra a participação do estado espanhol nessa intervenção. Não foi fácil. Uma autêntica tenaz agiu sobre o movimento popular independente: cinicamente, o PSOE utilizou-o – como agora fica bem claro – para derrotar eleitoralmente o PP; e, a partir dos grandes meios de comunicação e inclusivamente de sectores da esquerda apoiados na linha “nem Bush nem Saddam”, fomos acusados de apoiar Saddam Hussein a até de ser financiados por ele, a nós que nos recusámos a entrar no jogo da denúncia ou da defesa do governo iraquiano e concentrámos todas as nossas energias em denunciar o crime de todos aqueles que preparavam o ataque.

Agora o arsenal mediático foi de novo desencadeado e, por enquanto, cumpriu os seus objectivos. A população engoliu a medicina por inteiro e, maioritariamente, repete a cantilena: a intervenção militar é um mal menor; é necessário deter o tirano.

Para as pessoas e organizações conscientes dos poderes e dos interesses que se movem por detrás, e embora permaneçam interrogações, algumas questões começam a abrir caminho com clareza: Porque é que as petrolíferas estrangeiras retiraram com tanta rapidez, no início da revolta, os seus trabalhadores? Sucedeu o mesmo nas petromonarquias do Qatar, do Bahrein ou do Oman? O que é que levou a British Petroleum a suspender sem justificação, poucos meses antes do conflito ter início, as suas novas prospecções petrolíferas na Líbia? Quem é esta oposição, tão rapidamente reconhecida pela França e Grã-Bretanha e legitimada pelos grandes meios de comunicação social, e que se dedica desde o primeiro momento a clamar pela intervenção militar estrangeira? A decisão de atacar a Líbia, e o apoio que tem por parte da Liga Árabe, tem alguma coisa a ver com as revoltas populares do Egipto, da Tunísia e dos países do Golfo?

Mesmo perante todo este oceano de intoxicação premeditada e a dificuldade em obter informação contrastada, a experiência acumulada – sem a qual teríamos de começar de novo de cada vez – permite que algumas certezas comecem a emergir:

1º Independentemente de quem seja Khadafi e com todo o respeito pelo direito à autodeterminação do povo líbio, o objectivo do ataque internacional é controlar os recursos energéticos da Líbia, e instalar governantes que garantam esse controlo.

2º A intervenção militar na Líbia pretende deixar amarrado e bem amarrado aos interesses imperiais euro-norteamericanos e israelitas o resultado final dos levantamentos populares árabes.

3º Os povos dos respectivos países devem considerar este ataque como um Crime de Guerra pelo qual os governos intervenientes são responsáveis.

4º O governo de Rodriguez Zapatero enterrou-se até ao limite na indignidade e no lodo, repetindo a “façanha guerreira” do Trio dos Açores; com a agravante de que o faz num país com 5 milhões de desempregados no qual não cessa a escalada de destruição de serviços e de direitos, ao mesmo tempo que reparte fundos públicos entre a banca e as grandes empresas. Os ataques à Líbia realizados pelo exército espanhol, que convertem os seus responsáveis em criminosos de guerra, são o resultado da servil subordinação ao império - exactamente nos mesmos termos que Aznar adoptou – e servem para a glória do negócio de REPSOL, Gas Natural, SACYR, Abengoa, etc.

5º Quando são mais uma vez espezinhadas as condições do Referendo da NATO – as condições do SIM – desprezando até à náusea a soberania popular, é necessário associar ao “Não à guerra” a exigência do desmantelamento das Bases e de saída da NATO do Estado espanhol.


* Angeles Maestro, amiga e colaboradora de odiario.info, é dirigente da Corriente Roja.

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