“Vamos Dar Tudo Para Conseguir Este País Que Nos Foi Roubado” i

Leila Khaledii    30.Ago.15    Outros autores

“Na última agressão a Gaza vimos os trabalhadores nos portos dos Estados Unidos e de África a fazer boicote aos produtos israelitas e a recusarem-se a descarregar os barcos israelitas.
Esta é uma expressão real da solidariedade dos trabalhadores com os palestinos que estão a ser mortos, que estão a sofrer o holocausto israelita. Sabemos e cremos que os trabalhadores de Portugal, os sindicatos, poderão levar a cabo esta acção.”

Boa tarde

Em nome da Frente Popular para a Libertação da Palestina, em nome do Conselho Nacional Palestino, em nome do Secretário-Geral da Frente Popular para a Libertação da Palestina, que agora está sujeito a isolamento numa prisão israelita, uma saudação de luta e um agradecimento por este momento de solidariedade com o povo palestino.

Agradeço, também, ao CPPC, à CGTP, ao MPPM e também ao Município de Almada por este convite para estar convosco e também pelo acolhimento cordial que encontrámos aqui.

Quero agradecer a todos os que falaram esta manhã e esta tarde por esta solidariedade com o povo palestino.

De manhã, o Embaixador da Palestina falou sobre o 29 de Novembro que é o dia da Partição da Palestina. Nós comemoramos esse dia com manifestações e acções com muita revolta. É um dia muito triste para o povo palestino. Mas depois do ter começado a revolução palestina, a seguir à guerra de 1967, o mundo começou a dizer que é o Dia de Solidariedade com o Povo Palestino. A partir desse dia, o mundo fez uma revisão na sua consciência do seu grave erro pelo que fez ao povo palestino

O nosso povo não tem que pagar este alto preço, não tem nada a ver com o que fez o nazismo na Europa. Nós não queimámos os judeus, não os pusemos nas prisões. Foi o nazismo que fez isso. E agora vemos que o sionismo faz o mesmo connosco.

Temos de voltar a ver as coisas como elas são. Quem pôs Israel na nossa terra foi o movimento sionista internacional e o imperialismo. Este mundo criou a mentira sionista, esta grande mentira que dizia que esta terra era uma terra sem povo para um povo sem terra. O mundo vê-nos como se Israel tivesse direito a estar nas nossas terras. Mas a História vê que ali há um só povo e que treinam outro para viver na sua terra. E também estivemos quase vinte anos a ensinar aos nossos filhos que os nossos inimigos não são os judeus, os nossos inimigos são os sionistas. Há muito equívoco sobre a questão religiosa. Nós respeitamos todas as religiões, incluindo a religião judaica. Nós sabemos a diferença entre a religião judaica e o movimento sionista, que é um movimento racista reaccionário.

Este movimento sionista encontrou, no colonialismo dos anos 40, o apoio de que precisava para o seu projecto de criação de Israel. Este é o principal problema que temos na nossa região. Este conflito começa em 1917 com a declaração Balfour. Foi quando o colonialismo britânico, que estava na Palestina, decidiu o estabelecimento de um lar nacional para os judeus na Palestina. E desde aquela declaração que o nosso povo está a lutar contra esta mentira. E desde aquele momento que estamos a sofrer com o que fez o movimento sionista e o movimento dos colonialistas ocidentais.

Vou dar uma explicação histórica sobre este conflito. Posso dizer como podemos ser solidários com os povos oprimidos.

Comecemos por recordar o que se passou na África do Sul.

Todo o mundo fez boicote ao apartheid na África do Sul: boicote aos produtos, boicote às universidades, boicote a nível diplomático. E também os activistas conseguiram isolar o regime da África do Sul. O que começou por ser uma acção solidária, a partir de uma postura nobre e corajosa, evoluiu até ser um facto real. Esta experiência triunfou e este movimento de solidariedade conseguiu terminar com a segregação racial.

Durante este boicote, esta luta, contra a África do Sul havia dois países que estavam a favor: eram os Estados Unidos e Israel. Isto significa que estes dois estados são o perigo real para a paz mundial. Diz-se que nos Estados Unidos se terminou com o racismo, mas vimos o que se passou há alguns dias no Missouri: um polícia branco matou um jovem negro, só por ser negro, e não foi condenado.

Eu pergunto, é possível levar a cabo uma solidariedade com o boicote? Eu digo que sim.

Fazer boicote aos produtos israelitas pode-se fazer melhor substituindo-os por produtos nacionais pois aqueles são produtos da violação de direitos porque sobretudo são roubados das nossas terras, das nossas árvores.

Por mais de uma vez, muitas universidades americanas, muitas universidades britânicas fizeram boicote às universidades israelitas, sob o nome de boicote académico.

Na última agressão a Gaza vimos os trabalhadores nos portos dos Estados Unidos e de África a fazer boicote aos produtos israelitas e a recusarem-se a descarregar os barcos israelitas.

Esta é uma expressão real da solidariedade dos trabalhadores com os palestinos que estão a ser mortos, que estão a sofrer o holocausto israelita. Sabemos e cremos que os trabalhadores de Portugal, os sindicatos, poderão levar a cabo esta acção.

Também outra forma de ser solidário com o nosso povo é levar a cabo umas campanhas, por exemplo com os preços. Isso pode ter muitas formas.
Uma campanha que se pode levar a cabo é contra o bloqueio à Faixa de Gaza. Todos viram como Israel tratou os barcos que chegaram às costas de Gaza e assassinaram gente solidária que vinha no barco Marmaraiii.

Também os parlamentos podem ter um papel no isolamento deste estado israelita. Queremos saudar a postura honrosa do Parlamento português. Ontem estivemos no Parlamento, estivemos com delegações parlamentares e com Grupo Parlamentar de Amizade Portugal-Palestina. Não sabem como teve influência nos nossos corações. Deram-nos um pouco mais de coragem para poder lutar contra este estado racista de Israel.

Muito obrigada ao Grupo Parlamentar de Amizade Portugal-Palestina. Nós vos saudamos.

Não quero prolongar a minha intervenção, mas há algumas questões que quero deixar muito claras. Vamos chegar a um acordo sobre estes temas.
Vamos à primeira questão: o que é o terrorismo?

O terrorismo é a ditadura, é a violência, é a tirania. O pior terrorismo é a ocupação. Nós todos estamos contra o terrorismo. Mas sabeis que, no nosso caso, este terrorismo não se pode derrotar senão pela resistência, em todas as suas formas, e em primeiro lugar pela luta armada.

Vocês sabem que não podiam disfrutar democracia nos tempos da ditadura. Temos que vos felicitar pelos 40 anos da Revolução dos Cravos. O povo português deu muito para conquistar a sua liberdade. E nós também. Como povo palestino árabe nós fazemos parte desse povo do mundo e vamos dar tudo para conseguir este país que nos foi roubado.

Quero dizer à companheira que falou sobre os trabalhadores numa base religiosa que qualquer estado que se constitui sobre bases religiosas é um estado fascista. O governo israelita, que é o governo dos colonos, que é o governo dos extremistas, fez uma lei dizendo que Israel é o Estado dos judeus a nível mundial. Esta lei que fizeram é uma lei racista e esta lei vai terminar com o estado israelita.

Agora o mundo é como um povo pequeno e vemos que os povos estão mais perto uns dos outros e há intercâmbio entre eles sobre as bases da cordialidade e da humanidade.

E aquela lei o que faz é que qualquer pessoa que considere que é judeu pode ir ali e dizer que aquela terra é sua. E este é o pior racismo contra o povo palestino. Para o palestino que vive em “Israel” hoje em dia, isso significa que o vão expulsar, que vai haver uma política de expulsões.
Então qual é solução? O que é claro é que não aceitamos a tirania e tão pouco admitimos que violem os direitos do nosso povo. Não aceitamos que nos agridam todos os dias, que destruam as nossas casas, arranquem as nossas árvores, roubem as nossas terras, roubem a nossa água. A solução é resistir a isto, não há outra via.

Fazemos a todo o mundo esta pergunta: querem que nos deitemos ao mar? Nós dizemos que não. Dizemos que não, mas vocês sabem que o direito internacional afirma que os povos têm o direito à autodeterminação e um povo, para conseguir o seu direito à autodeterminação, tem que estar nas suas terras. Sabeis que há seis milhões de palestinos que vivem fora das suas casas, que são refugiados? Não nos permitem nem visitar a nossa terra. Eu não posso ir à cidade onde nasci. Assim como eu, estão seis milhões de pessoas.

Como podemos conseguir o nosso direito de autodeterminação fora das nossas terras? Nós temos o direito de regressar às nossas terras. Assim, nós decidimos que o nosso direito à autodeterminação está ligado a isso.

Nós sabemos que esta solução, tal como está a situação a nível internacional, não nos pode permitir regressar. Temos reclamado uma solução. Temos dito que vamos conseguir os nossos direitos nacionais. E reclamámos o nosso direito à autodeterminação, a um Estado Palestino, o direito ao regresso e a ter a capital em Jerusalém. Israel recusa isso. Então qual é a solução? Israel recusa, recusa, recusa a nossa solução.

Nas Nações Unidas há um comité especial para a questão Palestina, mas este comité não pode aplicar as resoluções sobre a Palestina. Foi decidido anteriormente criar dois estados para dois povos. Agora, como está a situação, é impossível haver outro estado que não seja o estado de Israel. Israel apropriou-se de 60% da Cisjordânia e construiu colonatos ilegais. Os colonatos estão em zonas altas para dominar todas as cidades palestinas. Da Palestina histórica fica-nos apenas 12% do território nacional.

Poder-se-á crer que um povo que luta pelos seus direitos vai aceitar 12% do seu território nacional para fazer o seu Estado? Nós, que temos lutado e continuaremos a lutar, que temos estado presos, que temos sofrido, que fomos feridos e assassinados, nós, como povo soberano, não aceitamos os 12%, queremos todo o território nacional palestino.

Tentaram-se então outras soluções para o conflito através de negociações. Desde o ano de 1993, em que se assinaram os acordos de Oslo, o meu partido, que faz parte da OLP (Organização para a Libertação da Palestina), recusou esses acordos e essas negociações, porque esses acordos foram assinados nas costas do povo palestino, porque eram negociações secretas. Essas negociações não trataram de nenhum direito do povo palestino. Depois de Oslo, depois de 21 anos de negociações, o resultado é mais colonialismo, aumento das detenções, aumento das mortes, quatro guerras contra o povo palestino e judaização da cidade de Jerusalém. E o mundo está a ver. Refiro-me ao mundo a nível oficial.

Vamos fazer novamente a mesma pergunta: como vamos solucionar este problema?

Nós dirigimo-nos ao Parlamento português e propomos um encontro para um congresso internacional dirigido pelas Nações Unidas e não pelos EUA, porque nós conhecemos o que são os EUA, estão sempre ao lado, a favor de Israel. Nesse congresso não poderíamos negociar sobre nada. Só pedimos que nesse congresso se apliquem todas as decisões que estão tomadas em relação ao povo palestino, nós queremos que se apliquem essas resoluções.
Ao mesmo tempo há que sancionar Israel. Nós pedimos à Autoridade Nacional Palestina que ratifique o Estatuto de Romaiv porque isso nos permite ir ao Tribunal Penal Internacional para poder julgar os crimes de guerra israelitas. Não se pode permitir que escape o criminoso do seu crime. Como pode a vítima aceitar que o criminoso, o verdugo, escape para levar a cabo as suas acções?

Quero dizer que o nazismo custou a este mundo a segunda guerra mundial. Temos de esperar que o movimento sionista faça a terceira guerra mundial?
A paz mundial está ameaçada por forças racistas. Em 2001 a União Europeia fez um referendo cuja pergunta era: Quem ameaça a paz mundial? Neste referendo, 59% da população disse que quem ameaça a paz mundial é Israel e os Estados Unidos. E qual foi a postura israelita? Israel disse que os povos da Europa são povos anti-semitas, atacou-os a todos como anti-semitas. Israel está disposto a dizer que todo o mundo está contra eles. Esta mentira, querem dizê-la muitas vezes.

Temos que ensinar a estes criminosos, a estes agressores, a estes racistas, que a humanidade é a única forma de viver em paz. Temos que isolá-los para que aprendam isso. Fazer o boicote. As campanhas de boicote são muito benéficas.

Agradeço mais uma vez. Vou levar esta resolução para as minhas companheiras e os meus companheiros no Conselho Nacional Palestino. Este é um dos presentes mais bonitos que recebi.

Muito obrigada.

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