Vemos, ouvimos e lemos…*

Aurélio Santos    19.Ene.12    Outros autores

Vemos, ouvimos e lemos como se agravam as injustiças, as desigualdades, a exploração. Como crescem a agressividade e a arrogância do grande capital e do governo ao seu serviço.
Como os recursos nacionais são transformados em propriedade e lucro privado e a pobreza alastra. Nem podemos ignorar, nem poderemos tolerar.

Vemos – o nosso vizinho, o nosso colega, o nosso amigo e até o nosso familiar lutarem cada vez com mais dificuldades económicas em consequência da subida dos impostos, da subida da electricidade, do gás, da água, dos transportes, dos bens alimentares, das taxas moderadoras, e da descida dos salários, do aumento das horas de trabalho, do corte das prestações sociais, da retirada dos subsídios de férias e de Natal, etc. etc.
Ouvimos – o primeiro-ministro Passos Coelho, o PSD e o PP justificarem a não tributação do capital com a necessidade de evitar a fuga deste para o exterior; os trabalhadores que não podem escolher onde pagam os impostos que suportem e se conformem com a iniquidade fiscal.
Lemos – que a quase totalidade das empresas do PSI 20 se deslocalizaram para a Holanda, incluindo empresas com capitais públicos, caso da Galp, da EDP e da CGD, sem que o Governo tenha feito alguma coisa para o evitar.
Vemos – o Comendador Soares dos Santos (Comendador pelos bons serviços prestados à nação…) bater com a porta na cara do Governo levando a sua holding para a Holanda e o ministro das Finanças engolir em seco e ficar calado.
Ouvimos – diariamente os homens do dinheiro dar sob a forma de «conselhos» instruções ao Governo de como deve governar, e este, atento e venerando, ir apressadamente cumprir as ordens recebidas.
Lemos – a cada vez maior promiscuidade entre os negócios a política e sociedades secretas e de como o que é público, e pago por todos nós, é usado por e para interesses privados, muitas vezes individuais.
Vemos, ouvimos e lemos – os enormes e permanentes apoios que têm sido dados à Banca e os juros agiotas que esta está a praticar nos empréstimos para o investimento.
Vemos, ouvimos e lemos – o aumento do desemprego, o encerramento de empresas, a extinção de postos de trabalho, o cada vez maior recurso da classe média às instituições de solidariedade e ao banco alimentar contra a fome, para colmatar a fome e a miséria que cresce em Portugal.
Vemos, Ouvimos e Lemos… Não podemos ignorar!
Não podemos deixar que o nosso tempo se torne pecado organizado.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 1989, 12.01.2012

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