Venezuela: compromisso dominical

Esta Assembleia que se vai eleger não poderá resolver os mais importantes problemas do país, mas será um valioso instrumento para a solução de muitos desses problemas, como os especulativos e extravagantes preços que todos os dias sobem e se estão a tornar insuportáveis. Se a ANC puser um travão à subida dos preços, se estabelecer severas sanções aos seus responsáveis e contribuir para promover o diálogo, reconstruir a paz e tranquilidade dos venezuelanos, terá valido a pena elegê-la.

No próximo domingo nós, os venezuelanos, temos um duplo compromisso a propósito da eleição dos deputados à Assembleia Nacional Constituinte (ANC). O primeiro e mais elementar é votar. Fazê-lo, apesar das provocações, intimidações e ameaças de sectores da oposição que pretendem sabotar essas eleições, estimulados pelas exortações que lhes estão a chegar do estrangeiro, numa nova e descarada ingerência nos nossos assuntos internos.

É importante o seu voto porque, seguramente, estará em sintonia com a sua participação, no passado domingo, na simulação preparada pela CNE e que resultou numa inesperada participação de pessoas que estiveram a ‘votar’ nas novas máquinas electrónicas até à meia-noite. Se essa simulação teve tanto êxito, a votação de domingo não pode ser menor. Com o seu voto e o de milhões de venezuelanos assegurar-se-á a eleição da Assembleia Nacional Constituinte (ANC).

Esta Assembleia que se vai eleger não poderá resolver os mais importantes problemas do país, mas será um valioso instrumento para a solução de muitos desses problemas, como os especulativos e extravagantes preços que todos os dias sobem e se estão a tornar insuportáveis. Se a ANC puser um travão à subida dos preços, se estabelecer severas sanções aos seus responsáveis e contribuir para promover o diálogo, reconstruir a paz e tranquilidade dos venezuelanos, terá valido a pena elegê-la.

No entanto, há outra importante razão para votar domingo: responder às ameaças do presidente dos EUA, que teve a ousadia de exigir a suspensão dessas eleições a que se juntaram, perfilados e alinhados pela sua submissão às iniciativas estado-unidenses nessa insolente ingerência, organizações como a União Europeia, o Mercosur e os governos de alguns países latino-americanos alinhados pela sua submissão às iniciativas estado-unidenses.

Votar no próximo domingo é a melhor resposta àquela insolência. Há que fazê-lo sem temor algum, pois a direcção da CNE tomou as medidas necessárias, junto das Força Armada Nacional Bolivariana (FANB), para garantem a todos que podem exercer o seu direito de voto.

Mas esse voto é, também, uma rejeição das pretensões da oposição de criar um governo paralelo com uma Assembleia em desacato, o inválido tribunal de justiça, que seriam logo reconhecidos pelos Estados Unidos, seguidos em fila pelos países submissos da América Latina.

Por todas essas razões, e todas as que quiserem acrescentar, deve votar-se no próximo domingo.

O fracasso da greve violenta

O leitor pode imaginar como foi a cobertura dos principais meios de comunicação estrangeiros, que consideraram «a greve», um êxito total. Também noticiaram o dito plesbicito, mas censuraram que era de muitos milhões a multidão que participou na simulação de votação da CNE. Calaram que durante a «greve», em Caracas, o povo os desafiou, enfrentou grupos de luta urbana [guarimbas] e que, apesar das ameaças (uma mulher fez fugir o peralvilho que lhe impedia a passagem) e da cumplicidade de alguns sectores dos transportes, o povo trabalhou.

Tratava-se de uma greve sui generis, pois não foi convocada pelos sindicatos nem pelos empresários, usaram apenas as ameaças, a violência e as guarimbas para a impor. Ontem [22 de Julho] este diário noticiou seis mortes, entre elas a de um jovem a quem explodiu nas mãos um morteiro que tentava utilizar contra a polícia, e outros dois jovens que morreram electrocutados quando assaltavam um estabelecimento comercial. Foi assim que, a meias, se fez a «greve» em algumas cidades do interior.

A posição da Força Armada Nacional Bolivariana

O ministro Padrino López, acompanhado do Estado-Maior Superior da Força Armada Nacional Bolivariana (FANB), não pôde ser mais firme e decidido na rejeição da ingerência e das ameaças do governo estado-unidense, no repúdio da descarada intromissão nos assuntos internos da Venezuela e, de passagem, rechaçou as opiniões de uma representante da União Europeia. É importante que esse documento seja divulgado e conhecido por todos os venezuelanos e, em primeiro lugar, analisado pela própria Força Armada.

Se a simulação foi tão exaltante, a votação de dia 30 não pode ser menor

• Uma coisa que devia ficar claro é que a participação da oposição no domingo passado foi pacífica, e uma pessoa interroga-se: por que razão não houve vandalismos, nem guarimbas, nem acções violentas? Quem deu a ordem para que actuassem pacificamente, para que nesse dia não houvesse violência? Como não foi o governo tem que se supor que foram os dirigentes da Mesa de Unidade Democrática (MUD). [1]

• É condenável agressão à VTV [2], onde teriam intervindo ex-empregados dessa empresa, sem que os seus autores morais da oposição expressassem o seu desacordo. Devemos felicitar os seus trabalhadores, que rechaçaram corajosamente o ataque.

• Algum de vós acredita que esses ex-presidentes que vieram declarar-se contra o governo e contra a ANC o fizeram pelas suas convicções? São ingénuos os que assim pensarem, pois, o mexicano Vicente Fox cobrou por isso 250.000 dólares, e é de supor que a Pastraña e outros que tal deverão ter pago o mesmo.

• Entre tantas propostas que ouvi que levaram à ANC, não escutei nenhuma que inclua severas sanções para os que ofenderam a bandeira da Venezuela, içando-a propositadamente ao contrário, por exemplo.

• Em Espanha ainda não acabou o processo da macro investigação sobre os corruptos do Partido Popular, mas já lhes rebentou nas mãos outro bronca menor que já levou à prisão o presidente da federação de futebol e outros dirigentes.

• E por falar de investigações, [3] o que é que se passou com a investigação dos acontecimentos na Assembleia Nacional? Será que ninguém investiga?

• Na opinião do chanceler Samuel Moncada, ouvida nos meios diplomáticos, Leopoldo López é o candidato que os EUA imporão aos venezuelanos da oposição. Nem sabem a resistência que irão encontrar.

• Os leitores já devem saber, mas recordo-lhes que na Austrália vivem 5.200 venezuelanos, mas seguramente não sabem que no dito plesbicito organizado pela oposição houve 11 mil votantes. Que lhes parece? É apenas uma amostra da fraude.

Notas do tradutor:
[1] Oposição Venezuelana apoiado pelo capital imperialista que gravita na órbita de Washington
[2] Venezuelana de Televisão, a principal televisão estatal.
[3] Ataque violento ao Palácio Federal Legislativo no passado dia 5 de Julho, data em que se comemoravam os 206 anos da declaração de independência da Venezuela.

* Eleazar Diaz Rangel é director de Últimas Notícias, um dos diários de maior circulação na Venezuela.

Este texto foi publicado em: https://www.sincuento.com/2017/07/23/eleazar-diaz-rangel-compromiso-dominical/

Tradução de José Paulo Gascão

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