Venezuela, entrevista com Diosdado Cabello: “Quem ordenou cortar a luz, sabotar, é um criminoso genocida”

Geraldina Colotti*    14.Mar.19    Outros autores

Na opinião do presidente da Assembleia Nacional Constituinte da Venezuela, a ofensiva golpista tem fracassado até ao momento: seja na operação “ajuda humanitária”, seja na monstruosa sabotagem às redes eléctrica e de telecomunicações. É de esperar que se entre numa nova fase, de violência ainda mais aberta e terrorismo selectivo.

O povo chavista manifesta o seu apoio ao governo de Nicolas Maduro, no dia anti-imperialista de 9 de Março: data em que, em 2015, Obama impôs sanções à Venezuela, definindo o país como “uma ameaça incomum e extraordinária para a segurança dos Estados Unidos “. No palco, toda a direcção do PSUV. Em frente, as bandeiras dos partidos aliados no Grande Pólo Patriótico ondeiam, a começar pela do Partido Comunista. “Fiéis sempre, traidores nunca”, grita o povo chavista, orgulhoso e paciente nesta complicada conjuntura em que realmente tudo pode acontecer.

As direitas apoiadas pelos EUA passaram à fase de sabotagem para fazer explodir a luz, as linhas telefónicas e deixar os bairros sem água. O metro não funciona, os autocarros privados querem ser pagos em dinheiro, em parte porque o sistema informático não funciona. Que todo esse mar de camisas vermelhas tenha vindo a pé dos bairros para dizer: Não à guerra, à sabotagem e à ingerência, é algo de heroico e explica porque o imperialismo terá muitas dificuldades para aqui impor os seus planos.

É claro que o saldo das repetidas sabotagens será pago pelos sectores mais vulneráveis ​​da sociedade venezuelana: os doentes, os idosos, os pobres que terão que deitar fora alimentos armazenados no frigorífico de cada casa num país tropical onde o calor é nestes dias de pelo menos 27 graus. Nos bairros ricos, os problemas não são sentidos devido aos postos geradores de eletricidade, às reservas de água e sobretudo ao dinheiro: podem pagar em dinheiro, inclusivamente em dólares. Vimo-los em supermercados a fazer compras pagando em dólares, mesmo que isso não seja permitido porque a moeda nacional é o bolívar. O seu objetivo foi sempre: afundar o país através da guerra económica, do mercado paralelo do dólar (que o governo conseguiu agora desativar parcialmente permitindo o cambio directo, mais conveniente do que o “paralelo”), e agora a sabotagem apontada à vida quotidiana dos cidadãos.
O impacto afecta todavia todos, incluindo aos comerciantes e industriais. Entretanto, alguns grupos da direita mais violenta tentam repetir o esquema das “guarimbas”, que tantos danos causou a tantas famílias, mas o país não sente sua presença. No bairro de habitações populares em Fuerte Tiuna onde estamos agora, sem luz, as pessoas vão até a rua para se juntarem e cantarem, à luz de velas. À luz das velas estamos a escrever este artigo. É claro que, com a interrupção das comunicações, tudo poderia acontecer e seria difícil alertar e mobilizar os chavistas nos bairros. O governo, no entanto, está a trabalhar arduamente. A luz retornará Já amanhã e, parcialmente, o telefone.

No final da marcha, o presidente Maduro fez uma avaliação inicial da sabotagem. Quando, durante a noite de 8 de Março, 70% da eletricidade estava recuperada em todo o país, houve ao meio-dia um novo ataque cibernético com o aplauso dos EUA. “Querem privatizar os serviços, aplicar do modelo em uso nos Estados Unidos ou na Europa onde, se não pagas, cortam-te a luz ou o telefone”, disse Maduro, recordando os muitos ataques contra os pilones de electricidade, que deixaram um saldo de mais de 200 atacantes electrocutados.

“O que eles nos dirigiram, acrescentou, é um ataque inusual e extraordinário mas, com paciência e consciência e implementando uma resistência cívico-militar activa poderemos avançar para uma nova etapa nas próximas horas. Sairemos com coragem como o fizemos durante os meses da greve do petróleo contra Chávez em 2002-2003, que durou quatro meses: com a união cívico-militar e com Chávez “. O presidente referiu depois o problema da infiltração em empresas nacionalizadas como a Corpoelec, onde ocorreu a sabotagem. “Prejudicaram o país inteiro”, disse, não apenas os chavistas. Como vão justificar isto ao seu próprio povo? Mas vamos reagir com calma, coragem e nervos de aço. Somos portadores de paz e de unidade. Contra a ingerência, amor e paciência “.

Em seguida o presidente anunciou que a partir da segunda-feira chegará a caixa CLAP, para atender às necessidades imediatas da população. Em torno de um Chávez insuflável gigante, levado por trabalhadores da empresa estatal de petróleo PDVSA - que, juntamente com todos os outros escalões rejeitaram o apelo à greve lançado pelo “presidente interino” autoproclamado, Juan Guaidó – o povo chavista respondeu levantando o punho e gritando: “Trump, idiota aguenta a tua derrota.”

Durante a marcha tivemos a oportunidade de realizar esta entrevista exclusiva com Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Nacional Constituinte.

Neste momento está a chegar ao país uma delegação da ONU enviada pela Alta Comissária para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet. Quais são as expectativas?
Nós convidamo-los a vir e ver a realidade do país, que é totalmente diferente da história contada pelos media hegemônicos locais e internacionais, como La Patilla ou El Nacional. Aqui há uma Venezuela em paz, e a oposição não é aquela força unida, capaz de liderar o país que pinta os media mencionados anteriormente: não o é de todo. Verão que aqui há um povo chavista disposto a defender a sua revolução.

Para os Estados Unidos, a opção militar está sempre em cima da mesa e Juan Guaidó viaja pelo país tentando organizar a subversão interna. Que cenário se prepara?
Eles fracassaram em tudo. Agora ele só lhe resta recorrer novamente à violência. Lançar uma greve quando sabe que não pode contar com a classe trabalhadora, com as mulheres, com os sectores populares, é outra farsa e o último recurso: uma nova derrota anunciada. Já estão a praticar sabotagem para culpar o governo, poderiam agora passar para a violência selectiva, às bombas, contando com o apoio do imperialismo norte-americano que espalha as suas mentiras às escala internacional. Vimos já na Quarta República como quem plantou bombas em embaixadas, se refugiou em seguida nos Estados Unidos, de acordo com o habitual duplo discurso de atirar a pedra e esconder a mão: promover o terrorismo e dizer que são contra o terrorismo, com a conhecida hipocrisia. Em vinte anos de governo, aprendemos a reconhecer os diferentes momentos e enfrentá-los. Agora estamos num novo ciclo. Pode começar um perigoso processo de violência. Quanto mais fracassa a oposição liderada pelos Estados Unidos mais se implantam os elementos mais radicais da direita extremista e adoptam posições que antes não tinham. No entanto, agora eles estão novamente muito divididos. Vimo-lo na fronteira com a Colômbia, onde tinham contratado mercenários guarimberos, a quem aliás não pagaram e agora não estão tão dispostos a fazer o que eles querem. Ontem em Caracas houve um episódio emblemático. Em um restaurante frequentado principalmente por pessoas da oposição, um vice-presidente da Assembleia Nacional foi expulso provavelmente pelas posições tomadas de pedir a agressão armada contra a Venezuela. A violência que tentam impor está a voltar-se contra eles.

É verdade que o governo bolivariano está a preparar uma queixa por crimes contra a humanidade?
Sim, o ministro da Comunicação, Jorge Rodriguez, anunciou isso e estamos a preparar o relatório para denunciar nominalmente os responsáveis ​​pela sabotagem, começando com o senador EUA Marco Rubio; um genocida, como Pompeo, gente que está acostumada a ganhar sempre Quando não vence, trapaceia e quando ainda assim não vence, mata. São pessoas incompetentes que não entendem de política, não entendem que os povos querem ser livres e não estar subordinados aos grandes grupos económicos.

Existem números que quantifiquem os danos causados ​​por esta sabotagem?
Estamos a fazer o levantamento. Ontem à noite falei com o Ministro da Saúde numa reunião de emergência por causa da situação. Disse-me que duas pessoas morreram em cuidados intensivos quando faltou a luz e não havia forma de a repor. Os trinta segundos necessários para activar os procedimentos de emergência foram fatais para os pacientes. No entanto, um grande número de pessoas foi salvo graças à acção de enfermeiros, médicos e profissionais de saúde que operaram manualmente as máquinas para ajudar os pacientes em estado crítico. Quem mandou cortar a luz, sabotar, é um criminoso genocida. Então, eles fingem lamentar por aqueles que morrem em hospitais, pelas crianças. São hipócritas e criminosos. A nossa tarefa é continuar a trabalhar para construir e consolidar outro modelo de país.

Em qualquer parte do mundo, as acções de Juan Guaidó seriam sancionadas pela lei. Porque não acontece isso aqui?
A justiça segue o seu curso, que não é tarefa minha nem do presidente antecipar. No entanto, estou convencido de que haverá justiça.

O governo italiano, embora com muitos conflitos internos, teve uma posição discrepante em comparação com a maioria dos países europeus. Como avalias esta atitude?
Prefiro dirigir-me ao povo italiano, porque é graças à pressão dos povos que alguns governos não alinharam completamente com os Estados Unidos. As nossas principais referências são os povos, as classes populares. Aqui na Venezuela há muitos cidadãos italianos, espanhóis ou de outros países europeus. Quando um país como a Espanha apoia a invasão armada da Venezuela, isso significa que não tem em conta a segurança dos seus cidadãos, porque se sabe que as bombas não fazem distinção. Pelo menos o governo italiano mostrou que tem essa preocupação, e isso deve ser reconhecido. No entanto, repito, o nosso reconhecimento vai para o povo italiano, para a pressão que os povos têm exercido sobre seus governos.

* Correspondente na Europa de Resumen Latino-Americano

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