Vitória amarga em Moçambique*

Carlos Lopes Pereira    09.Dic.13    Colaboradores

Carlos Lopes PereiraA Frelimo ganhou com ampla maioria as eleições autárquicas em Moçambique – o escrutínio provisório aponta para a conquista da maioria em 50 dos 53 municípios – mas os resultados confirmam um distanciamento popular em relação ao partido no poder desde a independência.

A Frelimo ganhou com ampla maioria as eleições autárquicas em Moçambique – o escrutínio provisório aponta para a conquista da maioria em 50 dos 53 municípios – mas os resultados confirmam um distanciamento popular em relação ao partido no poder desde a independência.

A maior força da oposição, a Renamo, boicotou as eleições mas uma dissidência sua, o Movimento Democrático de Moçambique (MDM), a terceira representação parlamentar, capitalizou o descontentamento e conquistou três capitais de distrito – Beira (Sofala) e Quelimane (Zambézia), onde já detinha a maioria, e também Nampula. Além disso, obteve uma votação significativa na capital, Maputo, e em cidades importantes como a Matola, conseguindo mandatos em quase todas as assembleias municipais. Ao mesmo tempo, denunciou alegados casos de fraudes e acusou a máquina eleitoral oficial de favorecer os candidatos do partido governamental, distorcendo os resultados das urnas.

Já depois das eleições, um destacado responsável da Frelimo, Pascoal Mocumbi, antigo primeiro-ministro, veio a público dizer que o partido necessita de estudar as razões que levaram parte do seu eleitorado a votar na oposição.

Nos últimos meses, militantes históricos, como Jorge Rebelo – que participou na luta armada de libertação nacional e que, depois da independência, foi um dos mais próximos colaboradores de Samora Machel – criticaram «a Frelimo de hoje», acusando-a de opções ideológicas que favorecem a corrupção, o enriquecimento de «um pequeno grupo» e as desigualdades sociais.

Uma outra dirigente, Graça Machel – viúva do primeiro presidente de Moçambique e esposa de Nelson Mandela –, uma voz influente no país, criticou recentemente a falta de resposta governamental à onda de insegurança em Maputo e na Beira, onde continuam a registar-se raptos e casos de extorsão, por vezes envolvendo elementos da própria polícia.

Tensão militar e presidenciais

O presidente Armando Guebuza, em final de mandato – as eleições presidenciais e legislativas foram marcadas para Outubro de 2014 –, tem assim diversas razões para estar preocupado.

Para já, cancelou todos os compromissos no estrangeiro, incluindo a cimeira franco-africana de Paris, no final desta semana, convocada por François Hollande para discutir «a paz e a segurança em África». Isto, no preciso momento em que a França «socialista», depois da intervenção militar no Mali, envia tropas para «proteger» a República Centro-Africana…

O motivo invocado por Guebuza para cancelar a sua agenda internacional foi o acidente com um avião das Linhas Aéreas de Moçambique (LAM), que caiu na Namíbia quando voava entre Maputo e Luanda, provocando a morte dos seis tripulantes e 27 passageiros.

A par desta tragédia e dos resultados eleitorais autárquicos menos bons, com a vitória amarga da Frelimo, o governo moçambicano enfrenta a tensão no centro-norte do país, na província de Sofala, onde bandos armados conotados com a Renamo continuam a emboscar comboios de viaturas, causando baixas militares e civis.

Estes ataques adensam o clima de instabilidade, incompatível com a tranquilidade necessária à continuação do crescimento económico conseguido nos últimos anos com os investimentos estrangeiros na exploração do carvão e do gás e em outros sectores.

O presidente Guebuza tem procurado, nas últimas semanas, com a discreta mediação de religiosos e académicos moçambicanos e diplomatas norte-americanos, trazer de novo para a mesa de conversações o líder da Renamo. Afonso Dhlakama está em parte incerta desde finais de Outubro, quando tropas governamentais tomaram de assalto a sua base na zona da Gorongosa, em resposta a uma série de provocações.

A Frelimo afirma que o diálogo e a paz são indispensáveis para reforçar a unidade nacional e prosseguir o desenvolvimento do país, mas a Renamo, invocando uma legitimidade democrática e histórica duvidosa, exige uma maior participação na governação e nos lucros dos grandes negócios em curso ou em perspectiva.
É neste clima «pesado» – tensão militar provocada pela Renamo, aumento do banditismo nas cidades, degradação do ambiente económico, maus resultados nas autárquicas, críticas internas – que a Frelimo vai ter de decidir, em breve, o processo de renovação constitucional da liderança da jovem República.

A par de um bom candidato presidencial, o partido da independência nacional de Moçambique saberá certamente, tal como aconteceu no passado, encontrar as melhores soluções para garantir a paz, para consolidar a nação, para continuar a trilhar os caminhos do desenvolvimento com justiça social, em benefício do povo trabalhador moçambicano.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2088, 5.12.2013

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