Washington, distrito canibal*

António Santos    23.Mar.18    Outros autores

«Apertado numa tenaz de escândalos, acusações, processos judiciais e investigações, o presidente dos EUA reage como um animal acossado, sempre mais errático e agressivo. É seguro afirmar que há meio século que os EUA não conheciam este nível de tensão política e institucional. E a última vez que a tensão foi tão alta, um presidente foi assassinado.»

O capitalismo estado-unidense padece de uma doença degenerativa e incurável: os interesses dos outros capitalistas estado-unidenses. Quanto mais profundas são as contradições internas, mais violentas são as convulsões externas. E estas atingiram, na última semana, um zénite de tensão entre a burguesia alinhada com Trump que, golpe a golpe, se vai assenhorando do aparelho de Estado, e a burguesia desalinhada, republicana ou democrata, que, exercendo toda a sua influência, instiga um golpe judicial para destituir o presidente. Em guerra contra si mesmo, o Estado balcaniza-se em facções favoráveis ou contrárias a Trump nos serviços secretos, nas forças armadas, na alta finança e nos tribunais: uma comissão especial de investigação dominada pelo Partido Democrata acusa o presidente de conluio com os russos e ensaia uma grotesca vingança pelo escândalo sexual Monica Lewinsky. Trump, por seu turno, enfrenta o putch com um interminável renque de demissões que paulatinamente vão impondo nomes da sua estreita e canina confiança. Por detrás do mistifório, o distrito de Washington devora-se a si mesmo.

Submetido à força de tweets presidenciais, o procurador-geral, Jeff Sessions, despediu, na sexta-feira, o já demissionário director interino do FBI, Andrew McCabe, que havia recebido a pasta de James Comey, também despedido por Trump. Na raiz de ambos os despedimentos, os trabalhos da comissão especial de investigação à alegada «ingerência russa» nas eleições de 2016. Os serviços secretos reagiram com ameaças ferozes: John Brennan, o homem forte da CIA que durante 30 anos comandou as operações secretas do imperialismo no mundo, dirigiu-se a Trump nestes termos: «Quando o mundo conhecer a verdadeira dimensão da sua venalidade, torpeza moral e corrupção política, o senhor irá ocupar o seu devido lugar de demagogo desgraçado no caixote de lixo da História. Pode ter feito de Andy McCabe um bode expiatório, mas não irá destruir a América… A América triunfará sobre o senhor».
Evidenciando crescente nervosismo, Trump devolveu a ameaça, sugerindo demitir o chefe da comissão especial de investigação à «ingerência russa», Robert Mueller, ideia que gerou apreensão mesmo no seio do Partido Republicano. «Seria o fim desta administração», fez saber o Grand Old Party.

Já cercado pelos serviços de inteligência e pela comissão Mueller, Trump vê-se agora a braços com escândalos sexuais que podem levar à sua destituição. É o caso de três mulheres que acusam Trump de assédio e agressões sexuais e de uma prostituta de luxo conhecida como Stormy Daniels, a quem Trump pagou ilegalmente mais de 130 mil dólares para evitar a divulgação de informações e imagens comprometedoras.

Apertado numa tenaz de escândalos, acusações, processos judiciais e investigações, o presidente dos EUA reage como um animal acossado, sempre mais errático e agressivo. É seguro afirmar que há meio século que os EUA não conheciam este nível de tensão política e institucional. E a última vez que a tensão foi tão alta, um presidente foi assassinado.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2312, 22.03.2012

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