Colombo, um D. Quixote que chegou à América desafiando a Geografia e a História.

Independentemente da ignorância da geografia e da ciência náutica e da sua teimosa insistência em invocar a Bíblia e Ptolomeu em defesa de um projecto irresponsável, a chegada de Colombo a um Novo Mundo foi um acontecimento que alterou profundamente a História da Humanidade.

Li alguns livros dedicados a Cristóvão Colombo. Sobre ele autores de muitas nacionalidades, historiadores, ensaístas, romancistas, cineastas, jornalistas e aventureiros das letras escreveram obras de valor muito desigual. A minoria sérias, a maioria textos sensacionalistas.
Está hoje provado que Cristóforo Colombo, seu nome de batismo, nasceu em Génova em 1451. Mas se há certeza quanto ao ano há dúvidas sobre o dia e o mês. Adolescente, foi tecelão como o avô e o pai.
A polémica envolve também a própria nacionalidade. Autores em busca de notoriedade afirmam que nasceu em Portugal; para outros era catalão, corso, inglês, suíço, ou, pasme-se, polaco. Um escritor português, de escasso talento, mas traduzido em mais de uma dezena de línguas, retomou num romance (que inspirou um filme) a tese da origem lusitana.
Meio milénio transcorrido desde a sua morte, os atos e a personalidade de Colombo, longe de gerar consensos, desencadeiam polémicas.
Fases da sua vida estão bem iluminadas, alternando com outras envolvidas em densa neblina.
Sabe-se pela sua correspondência e por textos de Fernando - seu filho e biógrafo- que aos 22 anos optou por ser marinheiro. Primeiro no Mediterrâneo, depois no Atlântico. A paixão pela aventura nasceu da paixão pela História e pela Geografia, deformando-as. A Bíblia era a sua referência, e o fascínio que sentia pelos Profetas do antigo testamento acompanhá-lo-ia pela vida adiante.
As conceções geográficas de Ptolomeu tinham já perdido credibilidade, desmentidas pelos cartógrafos italianos e portugueses, mas não para Colombo. Uma estranha fusão de profecias hebraicas e de opiniões disparatadas de Ptolomeu contribuiu para dar gradualmente forma a uma ideia absurda. Acreditou que, navegando para Ocidente, era possível atingir Catay (a China) e Cipango (o Japão). Essa convicção adquiriu caracter obsessivo nos anos em que residiu em Portugal, sobretudo em Porto Santo e na Madeira. Foi fonte de um projeto tresloucado.
Um dos biógrafos sérios de Colombo, o historiador soviético Iakov Svet, dedica atenção a um tema que tem gerado controvérsia: o seu saber náutico.
Colombo aprendeu muito com os portugueses. Viajou até à Guiné, à Inglaterra e à Irlanda. Mas não há provas de que tenha visitado a Islândia e navegado no Oceano Ártico. O que escreveu a esse respeito carece de credibilidade.
Registe-se que os vikings tinham chegado ao Continente Americano no século X. Dessa aventura restam vestígios de um povoado em L’Anse aux Meadows, na Terra Nova, património da Humanidade.
Como marinheiro, Colombo tinha intuição. Conhecia o regime dos ventos atlânticos e as correntes oceânicas. Mas manejava mal os instrumentos náuticos da época; não tinha a noção das distâncias. Pinzon, o imediato na primeira viagem, comandante da Pinta, navegador veterano, chamou-lhe desencaminhador de longitudes e latitudes.
Grande leitor de obras pseudocientíficas, o seu livro de cabeceira foi o Imago Mundi,de Petros de Aliaco, um geógrafo italiano que sustentava como Ptolomeu que a superfície dos mares do planeta era muito inferior à das terrestres, a massa continental Euroasiática e africana.
Extraía daí a conclusão de que a distância a percorrer para se atingir a China e a Índia – conhecia o Livro de Marco Polo – seria muitíssimo menor do que afirmavam os cartógrafos portugueses.
Os cálculos que submeteu a D Joao II, na esperança de que o monarca português financiasse o seu projeto, estavam obviamente errados. Um erro de muitos milhares de milhas marítimas, como a viagem de circunavegação de Fernão de Magalhães (1519/1522) demonstraria. A Junta de Matemáticos do rei concluiu que o projeto carecia de base cientifica; foi rejeitado.
Tentou então obter em Espanha o que não conseguira em Portugal.
Durante sete anos de peregrinação por Castela acompanhou a corte itinerante dos reis Católicos. Tenaz, acabou por ser recebido em audiência pela rainha Isabel após a conquista de Granada. E a sorte, finalmente, favoreceu-o.
Apresentou o seu projeto e a rainha, após alguma hesitação, aprovou-o. Saiu de Palos, na Andaluzia, com duas caravelas e uma nau, rumo ao Ocidente.
Talvez por ser cética quanto ao êxito de Colombo, Isabel aceitou as suas enormes exigências: nomeou-o Almirante do Mar Oceano e vice-rei das terras a descobrir, com direito a colossais recompensas futuras.
Isabel era tão ignorante em História quanto o audaz genovês. Atendendo a uma sugestão de Colombo, escreveu uma carta ao Grão Khan. Ambos desconheciam que o império edificado por Gengis Khan se desmoronara há mais de um século e que o ultimo imperador mongol fora derrubado na China em 1368.
Sobre a primeira viagem de Colombo foram escritas milhares de páginas. O original do seu Diário de Bordo perdeu-se assim como eventuais cópias. Frei Bartolomé de las Casas editou uma versão, décadas após a sua morte, mas introduziu no texto alterações.
A travessia do Atlântico foi rápida. Saiu de Espanha a 3 de agosto de 1492, das Canárias a 6 de Setembro, e chegou a Guanahin, nas Bahamas, a 12 de Outubro. A brevidade da viagem contribuiu para que Colombo insistisse numa visão do mundo nascida de tremendos erros geográficos. Acreditou que aquelas ilhas estavam muito próximas da India e da China.
Não hesitou em chamar índios aos indígenas nus que encontrou nas Bahamas, e depois em Cuba e na Espanhola (hoje Haiti e Republica Dominicana). E a palavra ficou.
Mas as terras que descobrira do outro lado do Atlântico em vez de proporcionarem à Coroa espanhola ouro e outras riquezas foram para ela um sorvedouro de dinheiro, túmulo de soldados e marinheiros.
A glória do Almirante do Mar Oceano durou pouco. O balanço da segunda viagem foi pior do que o da primeira. Não encontrou minas de ouro e dos 39 companheiros que deixara no forte erguido na Espanhola não encontrou um só vivo no regresso.
A rainha recebeu-o com frieza.
A terceira viagem foi desastrosa. Principiou bem. Ancorou os navios no estuário do Orenoco, na atual Venezuela, sem se aperceber de que chegara a terras de um continente.
A água trazida pelo rio era ali doce em pleno mar pelo que concluiu ter chegado ao Paraíso, berço, segundo a Bíblia, dos grandes rios. Em carta aos Reis Católicos evocou mais uma vez Ptolomeu segundo o qual o Hemisfério Ocidental podia ter a forma do pedúnculo de uma pera.
Ao chegar à Espanhola, Bobadilla, um juiz enviado por Isabel, acusou-o de corrupção e responsabilizou-o por escravizar índios; foi um percursor do genocídio dos ameríndios. Voltou a Espanha em 1500, preso, com cadeias nos pés.
Na Europa sabia-se que Vasco da Gama, pela rota do Índico tinha chegado a Calicut. As armadas portuguesas regressavam da India carregadas de especiarias. Pedro Alvares Cabral atingira o Brasil em l500 e, pelo disposto no Tratado de Tordesilhas, uma parte do continente sul-americano pertencia a Portugal.
O rumo da Historia desmentira e ridicularizara as conceções geográficas de Colombo.
Mas, caído em desgraça, revogados os seus títulos- exceto o de almirante- e privilégios, continuava a sustentar, desafiando a ciência, que as terras por ele descobertas no Atlântico Ocidental eram vizinhas da China e da India.
Viveu em Castela modestamente durante quase dois anos. Foi então que escreveu o Livro das Profecias O original dessa obra inacabada perdeu-se, tal como Diário. Sabe-se que resvalara para um misticismo atípico. Recorria sempre aos profetas bíblicos e a Ptolomeu numa tentativa de justificar as suas teses sobre o Novo Mundo. Inspirado pela Santíssima Trindade, Colombo atribuía aos reis Católicos a missão divina de libertar Jerusalém.
Sonhava com uma nova viagem para chegar, afirma, ao Quersoneso Áureo (antiga colónia grega na Crimeia), a Calecut na India, e à Arábia Feliz (o Iémen). Esse desabafo é, como outros, revelador da sua ignorância da História e da Geografia.
Perguntam os historiadores o que terá levado Isabel a confiar a Colombo quatro navios para uma quarta viagem?
Milhares de espanhóis haviam emigrado na época para a Espanhola e para a grande ilha de Cuba. Trocavam a Espanha empobrecida por um futuro de aventura incerto. A rainha terá talvez admitido que nas terras de além Atlântico que pertenciam à coroa de Castela as riquezas acabariam por aparecer.
Mas a tarefa de Colombo, desta vez, era muito modesta. Cabia-lhe somente realizar novos descobrimentos. Estava expressamente proibido de entrar em águas da Espanhola, salvo em caso de força maior.
Ao Papa Alexandre VI dirigiu, antes de partir, uma carta que, pela insensatez, trás à memoria discursos do Quixote dirigindo-se a Sancho.
«Ganhei – escreveu - mil e quatrocentas ilhas e trezentas e trinta léguas de terra firme na Ásia (referia-se a Cuba), sem contar outras ilhas famosíssimas, grandes e numerosas, situadas a leste da Espanhola. Estas ilhas são Társis, Cethia, Ofir, Onofray e Cipango».
Espantosa confusão. Colocava ao lado da Espanhola quatro lendários países bíblicos e o Japão de Marco Polo.
Na quarta e última viagem, Colombo estava persuadido de que iria navegar por mares que banhavam a India e a Etiópia, regiões que, aliás, se situavam na zona de expansão atribuída pelo Vaticano a Portugal. Mitómano, esperava regressar a Espanha pelo Índico, dando a volta ao mundo.
A travessia foi rápida. O irmão Bartolomeu e o filho bastardo, Fernando, integravam a expedição. Dois meses depois de zarpar de Sevilha, a frota chegou à Martinica. E, desobedecendo às instruções recebidas, pediu licença a Ovando, então governador da Espanhola para entrar na cidade de Santo Domingo, a nova capital. O pedido foi recusado, mas, apesar disso fundeou próximo da cidade para evitar um furacão.
Navegou depois pelo litoral sul de Cuba e inflectiu para sudoeste. A 30 de Julho os navios ancoraram em frente a uma serrania, numa terra desconhecida. Estava nas atuais Honduras, mas não percebeu que aquela terra era parte de um continente. Conduziu os navios até um golfo a sul da Peninsula do Yucatan.
A sorte foi lhe adversa. Se tivesse prosseguido viagem para o Norte teria chegado a áreas habitadas pelos maias e entrado em contato com uma das grandes civilizações do Continente, quase um quarto de século antes de Grijalbo e Hernan Cortés.
Mas inverteu o rumo e navegou ao longo das costas da Nicarágua, da Costa Rica e do Panamá.
Numa carta aos reis declarou que, segundo os índios de Ciguare (Panamá) esse lugar distava «dez jornadas do rio Ganges».
O enorme disparate tem uma explicação. O intérprete hondurenho abandonara a expedição e Colombo entendia-se por gestos com os índios, inventando o que não compreendia.
Após alguns dias de descanso na baia da atual Nombre de Dios, a expedição assumiu contornos de pesadelo. As caravelas estavam em péssimo estado; as tripulações (quase 150 homens) sofriam de muitas doenças. A fome era tamanha que chegaram a comer as larvas que infestavam o biscoito apodrecido. Os navios permaneceram no estuário do rio Belén durante cem dias.
Colombo, muito debilitado pela gota e pelas febres, tinha estanhas visões. Num texto que lhe sobreviveu relata os seus monólogos com Deus, cita Moisés, David, a fuga do Egipto, Abrão e Isaac.
Um dos navios foi desmantelado. O almirante seguiu com os outros três para a Jamaica em meados de Abril de 1503. Não acabaram ai as suas desditas. As caravelas, podres, não estavam em condições de percorrer as 108 milhas que separavam a frota da Espanhola. A tripulação dividiu-se. Uma fação liderada por Diego Porras amotinou-se e atacou Colombo e os marinheiros que o apoiavam.
Um amigo do genovês enviado a Santo Domingo num escaler voltou numa caravela onde embarcaram o almirante e os seus companheiros, incluindo os homens de Porras. A travessia, devido a tempestades, durou seis semanas.
Colombo foi mal recebido pelo governador Ovando que libertou os promotores do motim.
Negou ao almirante mantimentos e navios para regressar a Castela. Após negociações morosas, Colombo conseguiu alugar à sua custa uma pequena caravela mas nela couberam apenas, para a larga viagem, 20 homens. Os restantes ficaram em Santo Domingo. O barco chegou a San Lucar de Barrameda a 7 de novembro de 1504. Dois anos, cinco meses e vinte e oito dias durou a expedição que teve facetas de tragédia grega.
A rainha Isabel faleceu duas semanas após o seu regresso a Espanha. Fernando, que assumiu a regência de Castela, desprezava o almirante. Concedeu-lhe uma pensão humilhante, mas ignorou as suas reivindicações sobre dívidas da Coroa relativas aos seus serviços.
Morreu em Valladolid, em maio de 1506, amargurado, mas convicto de que tinha chegado muito próximo da China e da India.
O rei não se fez representar no seu discreto funeral.

***
Transcorridos cinco séculos, a celebridade que lhe negaram na sua época envolve o nome de Cristóvão Colombo.
Sobre o Almirante do Mar Oceano foram escritos centenas de livros. Mas o julgamento do homem e do navegador pelos historiadores não é consensual. Para uns foi um génio merecedor da gratidão da Humanidade; para outros um aventureiro ambicioso bafejado pela sorte.
Independentemente da ignorância da geografia e da ciência náutica e da sua teimosa insistência em invocar a Bíblia e Ptolomeu em defesa de um projeto irresponsável, a sua chegada a um Novo Mundo foi um acontecimento que alterou profundamente a História da Humanidade.
Mas o nome pelo qual ficou conhecido o Continente fronteiro à Europa não é o seu. Foi um escritor da Lorena, Martin Waldseemuller, que ao ler uma carta de Américo Vespúcio lhe deu o nome de América «em honra do sábio que a descobriu». Duplo e lamentável engano. O navegador florentino não foi um sábio e limitou-se percorrer áreas do litoral do continente; a carta era, aliás, uma falsificação.
Mas a palavra América passou a correr mundo e ficou.
O de Colombo é hoje apenas o de um país da América do Sul, o de uma província do Canadá e da capital do Sri Lanka.
Não é fácil qualificar o homem Cristóvão Colombo.
Vejo nesse cavaleiro da utopia um ser fascinante e contraditório que me faz recordar Don Quijote de la Mancha, o herói de Cervantes.

Serpa e Vila Nova de Gaia, Fevereiro de 2015

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