Vencer a mundialização

Georges Labica*    28.Feb.08    Colaboradores

“Os sonhos de democracia e de paz confundidos com o liberalismo à escala planetária, desmoronaram-se por sua vez. As promessas que podiam inspirar o devir duma livre circulação das pessoas, dos bens e das ideias, o fim da escassez, a partilha dos conhecimentos e o mútuo enriquecimento das culturas, revelaram-se o que de facto eram - abstracções idealizadas”. E para concretizar esses sonhos só há um caminho, partindo da “(…) experiência inesgotável da luta de classes”

A Mundialização não é uma pessoa. O Mercado e a Bolsa também não. E no entanto, comportam-se como pessoas. É por isso que se diz: «a Mundialização impõe que…», «o Mercado exige que…», ou «as Bolsas chegam a acordo a fim de…». Estas não pessoas submetem as pessoas, pois são muito mais poderosas que elas. Constituem, de qualquer modo, uma nova Santíssima Trindade, a cujos caprichos e humores as pessoas se devem submeter. Evocam-se «os choques da Mundialização», «a pouca saúde do Mercado» (ex. a sua «ebriedade financeira»), assim como «as turbulências da Bolsa». E estas três jamais entram em conflito. Pelo contrário, os seus relógios são regulados uns pelos outros, a Bolsa representando o papel do relógio falante ou do bonecreiro que puxa os cordelinhos…das pessoas evidentemente, que se vêem condenadas a uma filosofia da resignação inspirada, à escolha, pela Anankè, pela Providence ou pelo Mektoub, aux desseins tout aussi impenetráveis. As «cartas estão lançadas», «o jogo está aberto», como diz a novilíngua. É preciso viver com o facto, quer se seja do primeiro, do segundo, do terceiro ou do quarto mundo. Alguns espíritos simples armam ao fino, falando do «fim da História, da ideologia…dos feijões», da «era do vazio», e declinando a «declinologia». Dar-se-ão conta que esta partenogénese do capitalismo que é a mundialização, faz agora pesar sobre a humanidade a pior ameaça, a da sua destruição, pela desregulação económica, o apodrecimento ambiental e a explosão nuclear, ou, o que é mais provável, os três duma só vez? Os nossos lamentáveis Pythies anunciam o Dilúvio, que não era antigamente, há cerca de 5000 anos, mais que um fantasma, ligado talvez a uma recordação muito antiga. No livro de Gilgamesh, do tempo de Sumer, o deus Enlil, cansado da barulheira e da pletora dos homens teria decretado a sua destruição pelas águas, mas Ea, o deus benfazejo, teria permitido a Utanapishtim de se escapar ao castigo com a sua família, os seus animais e os seus bens. No Génsis, Yahvé, arrependendo-se de ter criado os homens, tornados tão ruins, condena-os, junto com os animais, a uma sorte parecida, mas poupando Noé, o justo, que autoriza a salvar os outros seres vivos. Cansados, hoje, para nós, tudo se passa como se os deuses tivessem decidido acabar com tudo, sem poupar um único sobrevivente. Engels pressentiu-o, sem dúvida, ao assimilar Deus ao Capital. Fomos apanhados neste sistema sem saída.

A natureza e as malfeitorias do sistema são perfeitamente conhecidas, não só através das experiências dos povos que são suas vítimas, mas pelas confissões dos próprios que o serviram e observaram a partir do interior, - do «criminoso de guerra» Brzezinski, aos Soros, Stiglitz e outros escroques. Centenas de livros e milhares de artigos lhe foram já consagrados. O entusiasmo que acolheu a queda do muro de Berlim, símbolo do afundamento dos países ditos «socialistas», não durou, mesmo no campo dos «vencedores», mais de dez anos. Os sonhos de democracia e de paz confundidos com o liberalismo à escala planetária, desmoronaram-se por sua vez. As promessas que podiam inspirar o devir duma livre circulação das pessoas, dos bens e das ideias, o fim da escassez, a partilha dos conhecimentos e o mútuo enriquecimento das culturas, revelaram-se o que de facto eram - abstracções idealizadas. Os defensores da «mundialização feliz» ou da sua conversão positiva a partir do interior, tornaram-se raros. Também não se coloca aqui a questão de reabilitar o capitalismo dos seus «erros», porque ele não comete nenhum erro (relativamente a quem, a quê, a si próprio?). O capitalismo age conforme à sua essência, como diria Spinoza. As direitas e as social-democracias no poder asseguram incessantemente, sobretudo durante os períodos eleitorais, a sua vontade de «reduzir as desigualdades», de «lutar contra o desemprego» ou de «defender o poder de compra». Dissimulam a sua impotência nestes domínios, que não são outros senão os do sistema a que aderem, invocando a fatalidade, como se o capitalismo fosse regido por leis naturais. A verdadeira mundialização, a do mercado, manifesta-se nos três domínios:
1. dos mercados a conquistar (a concorrência exacerbada entre monopólios),
que impõe privatizações, deslocalizações, despedimentos, flexibilidade do trabalho;
2. O facto que tudo se torna mercadoria (general marchandising), do comércio
das armas, das drogas e da prostituição, até às modas e aos gostos relativos ao vestuário, culinários e artísticos;
3. Do reino do mercado financeiro, graças ao qual a especulação leva a melhor
sobre a produção, as selvajarias bolsistas subvertem as contabilidades nacionais e o consumo, promovido à categoria de ideal de vida, corre atrás da sobreprodução.

Nesta feira, que torna explosiva a anarquia do mercado, por detrás do ecrã das «leis» da economia, ganha o mais forte. O imperialismo dos Estados Unidos, «única nação necessária» (W. Clinton), que subordina os seus associados da Tríade (Europa, Japão), fez-se o senhor do mundo que macdonaldiza, e cocacolonisa à vontade, exercendo uma fascinação de massas pelo «american way of life», do jean à língua, enquanto que, desde o fim da guerra e dos acordos de Bretton Woods, a «governança» mundial é assegurada por super-organismos colocados sob o seu controlo, tais como o FMI, o BM, a OMC ou a OCDE. O papel das nações e portanto, o exercício das soberanias populares, indispensáveis à manutenção e à extensão das políticas sociais, vê-se assim eliminado. Assim, no momento em que se sabe que os 7 países industrializados encaixam 1.600 biliões de dólares de rendimentos provenientes da venda do petróleo e que 2% da população mundial detém 50% das riquezas, a França, por exemplo, que não é um país «emergente», conta 7 milhões de pobres e na mesma semana de Outubro de 2007, expõe as suas contradições com o contraste de duas publicações. Uma, Convergences, orgão do Socorro Popular, traz como título de primeira página Alerta Pobreza. O outro, Point de vue, periódico reaccionário, procede da mesma forma com o título Políticas, estrelas e milionários.

É notório que nenhum crescimento pode reduzir as desigualdades, que se vão aprofundando sem parar, seja no plano da alimentação, da etnia, da cultura, do sexo, da nacionalidade ou do trabalho. Um continente inteiro, África, sofre uma condenação à miséria e à exploração piores que as do colonialismo, quando as riquezas, em particular do seu subsolo, lhe deveriam permitir um desenvolvimento harmonioso. A corrupção estabeleceu-se nas esferas dos regimes mais «civilizados» e as máfias de poder estatal fazem valer a sua lei à luz do dia.

A mundialização não se limita ao mercado, ela mostra igualmente o seu suporte mascarado que é a violência. A violência mundializada fixa-se em dois planos: do lado do económico, chegado ao ponto de comandar o político, encontra-se essencialmente o militar, que pretende controlar pela força as reservas de energia e impedir todo e qualquer desenvolvimento autónomo nacional. As guerras da actualidade - Afeganistão, Iraque, Líbano, Palestina, e as programadas para o futuro - Irão, Coreia do Norte ou Síria, são precisamente conduzidas pelo país que funciona à força de conflitos desde o seu nascimento, os Estados Unidos, que não podem existir sem dispor de um outro maldito, seja o Índio de outrora, o comunista num passado recente ou agora o islamita. A guerra é uma política, que se acoberta, para as opiniões mundiais, sob a ideologia da «luta contra o terrorismo» e do discurso securitário, santificados pelo «conflito de civilização» e da «cruzada do Bem contra o Mal», enquanto os atentados do 11 de Setembro, agora objecto de suspeição, impuseram o Patriot Act como modelo a todas as nações, afim de destroçar as conquistas sociais, nocivas ao liberalismo, e de criar as condições para um controlo policial das populações.

Segue-se a condenação, partilhada das direitas às esquerdas, de toda a violência, ou dito de outro modo, a carta branca passada ao Estado para monopolizar o recurso à força e reprimir tudo o que puder parecer-se com qualquer tipo de resistência.

Os chamados «processos de paz» vieram substituir a «paz» propriamente dita e mantêm o clima de violência. O pretexto do terrorismo vai ao ponto de fazer esquecer que o dito terrorismo é um assunto que apenas diz respeito às classes dominantes, que o produziram e o mantêm para assegurar a sua dominação.

Apoiada por meios de comunicação inteiramente às ordens, que se encarregam de censurar, peneirar e perverter a informação, interditando qualquer expressão crítica da ordem estabelecida, a maquinaria de enquadramento conseguiu provocar um estado moderno de servidão voluntária.

Quer isto dizer que estamos desarmados perante uma situação de tal modo apocalíptica?

Alguns fenómenos tornam visível que as coisas estão em vias de mudar. Lembro, em primeiro lugar, que a mundialização não é de modo nenhum um estado de coisas irreversível, mas sim um processo, um movimento em curso, susceptível portanto de ser contrariado. A sua necessidade é humana e não transcendente. Notaremos, antes de tudo, que o capitalismo, chamem liberal ou neo-liberal à sua forma actual, não tem nada de um sujeito de boa saúde. Está minado, como sempre esteve, pelas suas próprias crises, sendo que a que está em incubação pode desempenhar um papel nos factores conducentes à sua erradicação. Estas crises, cujo exame deixaremos aos economistas, designam-se: sobre-acumulação, recessão, especulação, estagnação, inflação, competição, ou desvalorização, sobre um fundo de saturação dos mercados, de conflitos crescimento/consumo, de inflacionismo, portanto.

Tratando das debilidades da economia americana, Alan Woods colocava à cabeça, em Julho do ano passado, em Barcelona, entre outros elementos, o peso da dívida dos EUA, que vivem às costas das outras nações, dívida essa muito mais importante que a dos países do Terceiro Mundo, e a quebra do mercado imobiliário, que se conjuga, por sua vez, com a estagnação dos salários, ao «abismo das desigualdades», à emergência duma vasta mão-de-obra, nomeadamente asiática, fracamente remunerada, ao crescimento das trocas em euros, sem esquecer o custo das operações de guerra.

Teremos em conta, por outro lado, tratando-se da metrópole do imperialismo, de um duplo fracasso, que compromete as suas pretenções hegemónicas e a sua arrogância: o relevante fracasso interno, aquando da catástrofe climática de Nova Orleães, a sua incapacidade para fazer face às suas próprias necessidades, e o fracasso externo, tanto mais pesado no plano internacional, das guerras perdidas no Iraque, no Afeganistão e, por interposição de Israel, no Líbano. No antigo «quintal das traseiras» dos EUA, quebram-se as cadeias, seja em processos que é necessário qualificar como revolucionários da Venezuela, da Bolívia, do Equador, seja pelas afirmações autonómicas do Uruguai, ou da Nicarágua, do tomar de distâncias que se anunciam, por parte da Argentina e do México, enquanto que o regime cubano, cada vez menos isolado, conseguiu manter-se, apesar de um bloqueio, velho de dezenas de anos.

A rejeição, enfim, do protocolo de Kyoto, apesar de muito moderado, apenas confirma o desprezo da administração Bush relativamente às ameaças que pesam sobre o Ambiente e, a mais longo prazo, sobre a sobrevivência do planeta. As democracias ocidentais, «desenvolvidas», não estão último lugar, nesta balbúrdia. As contestações, os movimentos de greve e mesmo as revoltas, como a dos subúrbios, ditos «difíceis», em França, multiplicam-se e aprofundam-se, contrariando, sob a cobertura escravizante, a imposição do liberalismo.

Tendo em vista e em consequência destes fenómenos de sapa, quais são as propostas dos projectos que se oferecem como alternativas? A finalidade geral foi delineada por Rosa Luxemburgo na sua obra A acumulação do capital:
«Tendo tendência a tornar-se uma forma mundial, ele [o capitalismo] confronta-se com a sua própria incapacidade de ser essa forma mundial da produção. Ele oferece o exemplo de uma contradição histórica viva; o seu movimento de acumulação é simultaneamente a expressão, a solução progressiva e a intensificação desta contradição. Num certo grau de desenvolvimento, esta contradição apenas pode ser resolvida pela aplicação dos princípios do socialismo, ou seja, por uma forma económica que é por definição uma forma mundial, um sistema harmonioso em si-mesmo, baseado não na acumulação, mas na satisfação das necessidades da humanidade trabalhadora e portanto, no desenvolvimento de todas as forças produtivas da Terra».

As intenções democráticas, quer se trate do estabelecimento da democracia, do seu reforço ou do prosseguimento do processo jamais concluído de democratização, são afirmadas de todos os lados, quer dizer por todas as famílias políticas e por todos os poderes, da menor organização corporativa aos Estados. Se a realidade deste desejo já não deixa lugar a dúvidas, a ponto que os próprios imperialismos já não ousam promover ou apoiar abertamente as ditaduras, pelo menos em palavras, os seus meios suscitam legitimas suspeitas.

Não existe sistema eleitoral que não esteja armadilhado na própria letra constitucional, a fim de assegurar a manutenção no poder da burguesia e dos grupos dominantes. Basta que cada um se debruce sobre o seu. A democracia «participativa», tornada cavalo de batalha do discurso de esquerda, está apenas prevista no plano do poder local. A cidadania, constantemente incensada acomoda-se à exclusão dos trabalhadores migrantes e dos não nacionais. Um pesado silêncio rodeia até a noção de auto-gestão, bem como a noção de transformação radical é vilipendiada em nome da… democracia.

Os eleitorados reagem em todo o lado, já se sabe, pela abstenção, dito de outro modo, pela recusa de exercer o seu primeiro direito democrático, o de votar. Não é a sistematização do policiamento, directamente saído da «luta contra o terrorismo» e a invocação das dificuldades económicas que fará avançar a democratização. Muitas «democracias» pelo mundo, por outro lado, apenas devem o seu reconhecimento enquanto tal à sua submissão ao modelo «ocidental» dominante.

O recurso às esquerdas é farinha do mesmo saco. Sejam políticas ou sindicais, à força de substituir por consensos e compromissos o conflito, sobre o qual assenta toda e qualquer sociedade, à força de afirmar o carácter pacífico dos seus programas e da não-violência dos seus apelos, elas integraram-se no sistema e, sob a figura de «parceiros sociais» (mais parceiros que sociais), servem-no lealmente, apenas aspirando ao balanço das alternâncias de governos na gestão do país. É sem dúvida, por isso, que as ditas esquerdas não cessam de se «reformar», de se «renovar», de se «reconstruir» e de se «refundar».

Dos Direitos do Homem, que a própria ONU, criada para os defender, não se preocupa já em os fazer respeitar em lado nenhum, mais vale não falar.

O considerável sucesso do altermundialismo, modestamente nascido da reivindicação da taxa Tobin, e que soube formular e fazer-se eco de exigências de fundo, singularmente em matéria de normas democráticas e de protecção do ambiente, parece ter-se esgotado. Atravessado por correntes e aspirações contraditórias, não representando senão camadas intelectuais saídas da pequena e média burguesia, não soube nem quis dotar-se dos meios organizativos para a sua acção, abandonando o capital de tomada de consciência que se havia constituído nos debates sobre uma «outra» mundialização.

Os foruns sociais, concomitantes do altermundialismo, e alargados hoje a cerca de 90 países, foram mais fundo, arrastando no seu movimento, quando da sua primeira expressão em Porto Alegre e internacionalmente depois do encontro de Mumbai, as massas camponesas, mas com o tempo não escaparam, também eles, à fórmula dos grandes debates vedetizados que, mesmo descentralizados como acontece actualmente, não conseguem avançar com palavras de ordem mobilizadoras e mundializadas. As grandes ideias, por mais generosas que sejam, flutuam no vácuo. Precisamente no fórum de 2004, um grande cartaz proclamava que «as pessoas não querem o desenvolvimento, que viver».

Em ambos os casos a insuficiência teórica e não apenas politicamente programática, fracassou no lançar das bases de que poderia ter sido um novo internacionalismo.

A ecologia, agora reivindicada por todo o lado, tal como a democracia, não pode representar uma via de alternativa, na medida em que ou é dissolvida em protocolos individuais ridículos, ou apropriada por grandiloquências sem efeito, ou instrumentalizada pelos poderes instalados, ou, por fim, recuperada pelas firmas capitalistas, responsáveis pela poluição.

Invoca-se com frequência o papel crescentemente determinante que os países ditos «emergentes» podem desempenhar para contrabalançar a hegemonia americana-ocidental e colocar na ordem do dia esse policentrismo tão frequentemente invocado. Uma tal prospectiva não pode no entanto, dar a esperada resposta positiva. Os países em questão, Brasil, Índia, China, não parecem nada contestar a ordem mundial dominante. Estes países entregaram ao sistema capitalista, igualmente globalizado sob este aspecto, centenas de milhões de trabalhadores que, no tempo dos países «socialistas», lhe escapavam, ainda que estes países emergentes possam gozar de autonomia político-económica.

Esta gigantesca força é ambivalente. Por um lado, ela permite produzir ao menor custo e pesar sobre as rivalidades concorrenciais dos monopólios. Por outro, fazendo entrever a promessa duma extensão sem precedentes do modo de consumo desenvolvido, até agora diferido, exerce a ameaça, no seu caso cada vez mais visível, de graves desequilíbrios no seio das nações «avançadas». A chegada ao primeiro plano dos países emergentes, que se exprime já pela sua vontade de integração, pela fascinação, do modo de vida e dos meios de a oferecer às suas camadas de novos-ricos, até à posse da energia nuclear e à adesão à Organização do comércio, não representará de modo algum um sucesso do capitalismo. Este sucesso não será/seria possível, numa perspectiva muito longínqua, senão a partir do momento em que as massas, exploradas a bom preço, conhecerem as condições de vida, e de consciência (de classe), atingidas, graças a um desenvolvimento análogo, pelos trabalhadores dos países actualmente em postura de dominação.

Pelo menos as contradições internas do sistema ver-se-ão agravadas. É também o caso da Rússia de Putin, potência re-emergente, que, procurando sair do inqualificável marasmo em que a tinha lançado a sua própria ascensão, tenta recuperar as suas capacidades internacionais e perturbar o jogo.

Do ponto de vista intelectual, alguns esperam muito das teses do «Decrescimento», explicitamente apresentadas como alternativa ao produtivismo impulsionado pela mundialização, cada vez mais desenfreado e, portanto, perigoso. Estas nem por isso resistem a diversos argumentos contrários. Como o do facto histórico que o capitalismo ultrapassou, até agora, todas as suas crises sem nunca atingir o seu ponto de saturação; ou que o carácter forçosamente individual dos dispositivos de decrescimento, semelhantes aos da ecologia, são minúsculos, perante o facto de milhões de seres humanos se encontrarem ainda na escassez dos recursos e na não satisfação das suas necessidades vitais, quando se destroem os excedentes de produção e as nações mais providas de bens têm falta de serviços públicos ou vêem-nos degradar-se (escolas, hospitais).

Concluindo, apesar do inegável interesse e do impacto crítico de muitas delas, os trâmites ou as expectativas alternativas, que aqui rapidamente evoquei, apenas constituem falsas saídas, no sentido em que se revelam inadequadas à situação que pretendem conjurar. Estas transcendências do sistema não são mais que as suas hipóstases, como Feuerbach dizia da religião.

Em consequência, o único caminho possível é o do trabalho revolucionário. Este supõe, em primeiro lugar, que não tenhamos medo das palavras, rejeitadas pela ideologia dominante em benefício da sua aceitação, ou pelo menos do seu reconhecimento geral. Como consequência directa, as palavras são arrastadas pela recusa da violência, que suscita um acordo unânime. Desta forma, também os comunistas fazem preceder todo e qualquer enunciado de contestação pela declaração tranquilizante de que para eles está fora de questão instigar à insurreição, e ainda menos tomar de assalto a Bastilha ou o Palácio de Verão.

Isto é a maneira mais segura de aceitar o sistema e as combinações internas que não o ponham em questão. Revolução é uma dessas palavras. Certamente que, ao contrário da crença duravelmente imposta pela Internacional Comunista estalinizada, é preciso convir que não existe nenhum programa, nem muito menos, nenhuma receita, dados de uma vez por todas, do processo de liquidação das relações capitalistas de produção. A cada nação, e antes de tudo aos seus trabalhadores, cabe inventar o seu, em função da sua tradição histórica, do seu nível de desenvolvimento económico e político, da relação de forças e da intensidade da luta de classes. As caricaturas do sentimento nacional, reduzido à tacanhez do chauvinismo, do «soberanismo» ou de vistas ainda mais estreitas, pelos turifários duma Europa entregue sem entraves ao liberalismo, nada podem mudar quanto à realidade que é a nação, como lugar concreto onde se afirma a soberania popular, sem a qual toda a democracia é periclitante e toda a República ilusória. Nação, povo, são outras duas dessas palavras censuradas. Ao seu lado, a palavra propriedade sofre um opróbrio semelhante, pois seria obsoleta, sendo que os pretensos proprietários - de terras, de fábricas ou de acções – não seriam mais que gestores ou directores das empresas apenas assalariados.

Apropriação, expropriação já não significam nada. Abaixo a expropriação dos expropriadores. De qualquer forma, na rubrica «regresso do exilado», registamos o reaparecimento na imprensa e na linguagem política de capitalismo, de classe, ou de imperialismo, entre outros tabus. O nome de Marx e o marxismo em pessoa são objecto de números especiais de revistas e de conjunturistas oficiais que não temem reconhecer-lhe alguma verdade na abordagem das convulsões da mundialização.

Um certo número de iniciativas recentes mostra o caminho. Aglutinando os movimentos de greve em número crescente, bem como as insubordinações no seio das organizações de esquerda que, em França, a propósito das orientações de voto sobre a Europa ou das negociações salariais e das rupturas com os reformismos de todos os matizes rebentaram no seio dos partidos políticos tradicionais, comunista e socialista, e nos sindicatos. Na CGT, um grupo, o CRI (Comunista, Revolucionário, Internacionalista), que se define por um «sindicalismo de classe», manifesta, no seu boletim, o seu interesse e a sua solidariedade com as lutas que se desenrolam noutras paragens sobre as mesmas bases que as suas. Tanto mais, que é uma realidade a ameaça de um enconchamento nacional que prepararia o novo «desafio americano», ou de um coma político, com o bipartidarismo de duas direitas milionárias e a asfixia do que foi o maior proletariado do mundo. Poder-se-á dar razão à apreciação feita por Michael Moore no seu último filme, segundo a qual na Europa os governos têm medo do povo, enquanto nos EUA o povo tem medo do seu governo?

Contra a trindade escravização/servilismo/servidão, todas as armas são boas. Um modesto exemplo é dado pela francofonia, de que alguns querem fazer um meio de impedir o nivelamento cultural e o imperialismo da língua do imperialismo. Em La Paz, desde 2001, a Coordenação Andina das Organizações Indígenas (CAOI), adoptou uma resolução exigindo o estabelecimento em toda a América latina de governos pluralistas, garantindo a participação que neles cabe por direito dos grupos autóctones. Evo Morales, na Bolívia, viria a ser a primeira expressão, de valor histórico. A criação, por 7 países da América latina (Argentina, Bolívia, Brasil, Equador, Paraguai, Uruguai, Venezuela) de um Banco do Sul representa uma iniciativa consideravelmente mais ambiciosa, pois destina-se a fazer frente ao Banco Mundial e ao FMI, donde estes países se retirarão. O Grupo de Xangai, criado em 1996, por iniciativa de 5 países (China, Kazakistão, Kyrgistão, Rússia, Tajiquistão), tem vindo a suscitar um interesse crescente de outros países (Mongólia, que ocupa já um lugar de observador, Paquistão, Índia, Irão, Bielo-Rússia), e a estabelecer novas formas de cooperação, sejam elas energéticas, bancárias e culturais, ou sejam, de trabalhar para um multipolarismo, que tornará inútil a presença dos EUA na Ásia («revoluções coloridas»). O Irão, depois do Iraque de Saddam Hussein, renuncia ao comércio em dólares, em proveito do euro….

Tratando-se, enfim, da violência, farei algumas referências. Primeiro, para lembrar algumas evidências, negadas e ocultadas pelo pressuposto da recusa da violência, a saber:
1. que, a violência revolucionária é uma violência de reacção, cujas condições são criadas por uma situação vivida como insuportável, que é emancipadora, ou seja, libertadora de uma opressão;
2. que o recurso à violência política nunca é uma escolha, sobretudo da parte das massas, porque, e todas as referências históricas o atestam, são elas que pagam o preço mais pesado.

É inteiramente aberrante sugerir, como o fazem actualmente alguns belos espíritos, que teríamos de nos pronunciar, quer a favor de Gandhi, quer a favor de Lénine. Quando consideramos, por outro lado, as forças em presença, ficamos forçosamente impressionados pela sua desproporção. Aqui, a classe possuidora dispõe da dupla maquinaria, inteiramente sob seu controlo, do enquadramento politico-económico-mediático e militar que a superioridade tecnológica permite; do outro lado, os insurgentes encontram-se reduzidos, como no mercado de trabalho, às suas próprias forças, ou seja, à violência física e à disciplina que lhes falta inventar.

Violência dominante e violência dominada ou violência «muda» (Marx) e violência sangrenta: o paradigma da situação é-nos infligido, há longos, anos pelo frente a frente entre Israelitas e Palestinos. Será útil, enfim, objectar às hipócritas indignações dos depreciadores, que existem revoluções pacíficas, tais como se apresentam sob os nossos olhos as da Venezuela e da Bolívia. Regra geral, mais uma vez, quem hesitaria, a fim de «mudar o mundo», entre a legalidade das urnas e a aventura da rua?

Não existe um caminho seguro, portanto, mas uma lição pode ser avançada para pelo menos, sustentar a linha segura da alternativa mais que nunca necessária. Tomo-a de empréstimo a Sartre: «Só tenho um fio de Ariana mas suficiente: a experiência inesgotável da luta de classes». Esta experiência é válida, tanto no plano nacional para consolidar as alianças, por exemplo, entre o movimento operário e as revoltas dos subúrbios, e no plano internacional para dotar de coerência, à volta de uma nova Internacional do trabalho, às formas contestatárias ainda esparsas. Isto é o que consta já na palavra de ordem do Manifesto, que está longe de ter sido esgotada, e que supõe apoiar «em todos os países todo o movimento revolucionário contra a ordem social e política existente».

A mundialização não é um destino. Se é assimilável a uma personagem, como sugeri no início da minha comunicação, então bem pode ser deitada por terra.

É tempo de nos empenharmos nessa tarefa.

Este texto foi-nos enviado pelo autor

* Geoges Labica é amigo e colaborador de odiario.info

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