Testemunhos do Encontro do “Soldado de Inverno” (Winter Soldier)

Aaron Glantz*    28.Abr.08    Outros autores

Para a sua política de levar a guerra aos quatros cantos do mundo, o imperialismo necessita do silêncio cúmplice e da colaboração dos media de referência. “Após 5 anos de guerra, parece que voltámos ao início, em termos de cobertura dos meios de comunicação social, nos quais uma série de cobardes que nada vêem obedecem às directivas ditadas pela Casa Branca”

O soldado reservista da Marinha dos EUA, John Michael Turner, aproximou-se do microfone : a sua voz tremia de emoção, as palavras saíam com dificuldade, as lágrimas não se continham.

Há uma expressão que diz, “Um dia na vida Marinheiro, sempre Marinheiro”, dizia, arrancando as medalhas e atirando-as para o chão. “Mas também há uma outra expressão, “Manda a Marinha à merda e nunca mais aqui trabalhes».

Turner foi um dos mais de 200 veteranos que participou no encontro “Soldado de Inverno”, organizado pelos Veteranos do Iraque Contra a Guerra (IVAW). Tal como outros veteranos, Turner falou abertamente sobre o que tinha visto e feito durante o tempo em que esteve no Iraque.

“A primeira morte que provoquei foi no dia 18 de Abril de 2006”, disse, “Ele estava inocente. Chamei-o de gordo. Ele caminhava em direcção à sua casa: matei-o à frente do seu pai e de um amigo. O primeiro tiro fê-lo gritar e olhar-me nos olhos. Virei-me, então, para o meu amigo e disse, “Bom, não posso deixar que isto aconteça” e voltei a disparar. Depois desta minha primeira morte, senti-me contente”.

NÃO HÁ, APENAS, MÁS PESSOAS

Enquanto falava, Turner foi ovacionado de pé, por uma multidão de veteranos do Iraque, do Afeganistão, do Vietname e da Guerra do Golfo. A ovação durou mais de 2 minutos. Os comentários e respostas de Turner são semelhantes a vários outros que ocorreram durante os três dias em que durou o encontro, no qual os Veteranos do Iraque Contra a Guerra esperavam mostrar que os incidentes conhecidos da brutalidade dos EUA, incluindo o escândalo da prisão de Abu Ghraib e o massacre de uma família de iraquianos, na cidade de Haditha, não são incidentes isolados perpetrados por uns “quantos maus homens”, como vários políticos e líderes militares proclamaram. Fazem, antes, parte de um padrão, de “uma crescente ocupação sangrenta”, tal como afirmaram os organizadores.

O Cabo Jason Washburn participou em três operações no Iraque, incluindo a invasão. Das missões em que participou, Washburn esteve em algumas das áreas mais perigosas do Iraque: Najaf, Sadr City e a Província de Anbar. Um esquadrão da sua unidade fora o responsável pelo massacre de 26 civis, em Haditha, em Novembro de 2005.

Washburn contou como os seus superiores encorajavam comportamentos bárbaros.
“Éramos encorajados a ter sempre connosco “armas para deitar fora”, ou pás, caso matássemos acidentalmente um civil ; poderíamos, assim, deixar cair a arma no corpo e dizer que ele era um insurgente”, afirmou.

“Se eles trouxessem uma pá ou um saco, podíamos matá-los. Colocávamos, de seguida, esses materiais e armas nos nossos veículos, para, depois, os deixarmos ao lado dos civis que matássemos. Isto era frequentemente encorajado”.

FRACA COBERTURA DOS MEDIA

Este encontro (de que acompanhei os três dias de transmissão), muitas vezes com testemunhos pessoais cheios de lágrimas, foram transmitidos na integralidade no site internet do IVAW, na estação satélite Free Speech TV e na Rádio Pacific. Foram, no entanto, constantemente, ignorados pelos principais meios de comunicação social.

Estes meios de comunicação social alternativos alcançaram, no entanto, uma audiência maior do que a esperada pelos organizadores. O site internet do IVAW recebeu mais de 30.000 visitas diárias, durante o encontro “Soldado de Inverno”. O site que eu edito para a Rádio Pacific, Warcomeshome.org, recebeu visitas de internautas de mais de 110 países e recebeu comentários de veteranos, de militares no activo e das suas famílias. Os media escritos e online prestaram, igualmente, atenção ao evento: apareceram alguns artigos no “In These Times”, no “The Nation” e no “AlternativeNet”.

O encontro “Soldado de Inverno” teve , igualmente, uma larga cobertura na imprensa militar, com reportagens favoráveis publicadas no “Stars and Stripes” e no “Military Times”. O IVAW comentou a cobertura feita pelos media no seu site.

O sucesso alcançado nos media militares e alternativos foi, no entanto, atenuado, quando comparado com o blackout feito pelos principais meios de comunicação social. Apesar de o encontro coincidir com o quinto aniversario da invasão do Iraque, e ter sido realizado em Silver Spring, a menos de 10 milhas da Casa Branca, o testemunho pessoal de centenas de veteranos de guerra do Iraque e do Afeganistão foi praticamente ignorado pelos principais media, com a notável excepção do “Time”, da Rádio Pública Nacional “All Things Considered”, do “The Boston Globe” e do “Washington Poste”, este último tendo publicado um artigo sobre o “Soldado de Inverno” na secção Metro. Entrementes, o “The New York Times”, a CNN, a ABC, a NBC e a CBS ignoraram-no completamente.

Ao invés, os principais media preferiram as reportagens produzidas por jornalistas que citavam constantemente o “progresso” iraquiano, supostamente graças à chamada “onda de tensão”. O contraste existente entre as palavras honestas dos veteranos e a cobertura televisiva é inacreditável.

Quando acordei no meu hotel suburbano de Washington, num Domingo de manhã, liguei o “Good Morning America” e vi um tiro ao vivo no “Camp Victory” (antes, Aeroporto Internacional Sadam Hussein), estando o jornalista excitadíssimo e repetindo que “mais tropas é somente uma razão para diminuir a violência”.

Nenhuma menção foi feita relativamente aos 4.783 americanos que foram mortos no Iraque e no Afeganistão, nem ao milhão de mortos iraquianos que as pesquisas na Universidade da Colômbia ou na Universidade Johns Hopkins pensam existirem. Não foi, igualmente, feita nenhuma referência aos mais de 69.000 soldados americanos que os relatórios do Pentágono dizem ter sido feridos, injuriados ou que ficaram doentes no Iraque e no Afeganistão.

Não foi sequer feita uma alusão aos, aproximadamente, 300.000 veteranos da guerra do Iraque ou do Afeganistão que se dirigiram ao Departamento dos Negócios de Veteranos, para fazerem tratamentos, nem aos 250.000 que apresentaram queixa devido a deficiências de guerra.

Após 5 anos de guerra, parece que voltámos ao início, em termos de cobertura dos meios de comunicação social, nos quais uma série de cobardes que nada vêem obedecem às directivas ditadas pela Casa Branca. Após o desfecho do “Soldado de Inverno”, o grupo de observação dos media Fairness and Accurancy in Reporting lançou um alerta aos seus membros pedindo-lhes que “contactassem as redes noticiosas e lhes perguntassem porque é que decidiram ignorar o que os “Soldados de Inverno” tinham para dizer, preferindo as observações feitas sobre o Iraque de Jonh MacCain ou de Dick Cheney, que nos fornecem muito menos informações.”

PONTO DE PARTIDA PROBLEMÁTICO PARA AS ELEIÇÕES

Não é, assim, surpreendente que entre aqueles que responderam à sondagem feita pela Pew Research Centrer, no início deste mês, apenas 28% soubessem que 4.000 americanos haviam morrido na guerra. A maioria pensava que o número se situava entre os 2.000 e os 3.000 mortos.

De acordo com a mesma sondagem, a cobertura dos media relativamente à guerra decresceu: 15% de reportagens em Julho de 2007 e, apenas, 3% em Fevereiro de 2008.

No encontro “Soldado de Inverno”, os veteranos com quem falei acharam estes números preocupantes, mas não desencorajantes. Acrescentaram que quando os veteranos do Vietname fizeram um fórum similar sobre os crimes de guerra, em 1971, tal iniciativa foi, igualmente, totalmente ignorada pelos principais media. Mas isto não fez com que as coisas não se soubessem, pois a palavra acabou por sair, através dos círculos militares e de veteranos, quebrando a resistência que existia no meio militar. Este é um processo que a maioria dos membros dos Veteranos do Iraque Contra a Guerra considera importante, mais importante do que a cobertura dos principais media ou do lobbying no Capitólio.

«Não precisamos de contar com a ajuda dos principais meios de comunicação social”, disse Aaron Hughes, um reservista da Guarda Nacional de Illinois, que conduziu escoltas de carros (“convoies”) no Iraque. “Podemos contar com as redes que estamos a construir graças a eventos como o “Soldado de Inverno”. Há pessoas que escrevem em blogues, que se organizam nos seus locais de trabalho ou nas suas escolas. Isto é o mais importante .”

Hughes e outros membros dos Veteranos do Iraque estavam, igualmente, impacientes de ver a ampla cobertura que os jornais militares, como o “Stars and Stripes” e o “Army Times”, fizeram do evento. O IVAW comprou, igualmente, espaços publicitários em ambos os jornais, antes do evento, de forma a captar a atenção dos leitores destes jornais e a aumentar a oposição à guerra, entre os militares dos EUA.

MUDAR TODA UMA NAÇÃO

“Isto é uma forma de poder chegar aos veteranos e aos GI que se opõem à guerra mas que podem pensar que estão sozinhos nesta luta”, acrescentou. “Enquanto continuarmos a fazer este tipo de acções, não é importante o facto de os principais media as cobrirem ou não porque vamos mudar toda uma nação; o importante é o que fazemos”.

30 iraquianos ou afegãos já contactaram o IVW, desde que o encontro “Soldado de Inverno” começou, a 13 de Março, e centenas de outros veteranos, que já eram membros desta organização, deram um passo em frente, juntando o seu testemunho ao daqueles que haviam testemunhado em “Silver Spring” (Primavera de Prata).
“Desta vez, viemos com 200 veteranos”, disse Hugues. ”Da próxima vez viremos com 400 veteranos, e depois com 800. Não desistiremos enquanto esta ocupação continuar.”

*Aaron Glantz é um jornalista Independente. Trabalhou na Rádio “Pacific”, cobrindo o encontro “Soldado de Inverno”, juntamente com o veterano Aimee Allison.

Os arquivos completos e detalhados deste encontro estão disponíveis nos sites: warcomeshome.org e ivaw.org.

Tradução de Ana Saldanha