Milosevic absolvido em Haia

Counterpunch    15.Ago.16    Outros autores

O Tribunal Criminal Internacional criado em Haia pelos Estados Unidos para julgar antigos dirigentes da ex-Jugoslávia reconheceu finalmente que as acusações contra o ex-presidente eram improcedentes.
Milosevic, que faleceu na prisão, negou sempre os crimes que lhe eram atribuídos.
A sentença, tardia, confirmou que o julgamento foi, na fase inicial da audiência, uma farsa dirigida pelos EUA.

Numa sentença inédita, o tribunal que condenou o antigo presidente da Bósnia-Servia Radovan Karadziv por crimes de guerra e o sentenciou a 40 anos de prisão, concluiu por unanimidade, que as acusações contra Slobodan Milosevic eram falsas.

A 24 de Março o julgamento de Karadzic determinou que o Tribunal não tinha a certeza de que havia provas credíveis de que Slobodan Milosevic concordara com o plano para expulsar muçulmanos bósnios e croatas bósnios do território da Bósnia.

O tribunal recordou que «o relacionamento entre Milosevic e Karadzic se iniciou em 1992; em 1994, já não concordaram quanto à posição a assumir. Depois, logo nos começos de Março de 1992, houve uma discórdia aparente entre o Acusado e Milosevic em encontros com representantes internacionais em que Milosevic e outros líderes sérvios criticaram abertamente os líderes bósnios sérvios de cometer «crimes contra a humanidade» e «limpeza étnica» e a guerra para seus próprios propósitos». Os juízes concluíram «de 1990 e até meados de 1991, os objetivos políticos do Acusado e da liderança bósnia sérvia eram preservar a Jugoslávia e impedir a separação ou independência da Bósnia Herzegovina. O tribunal concluiu que Slobodan Milosevic se opunha à independência da Bósnia.

Segundo a sentença, «Milosevic perguntava se era inteligente usar «um ato ilegítimo em resposta a outro ato ilegítimo» e interrogava-se sobre a legalidade de formar uma Assembleia Bósnia Sérvia».

Os juízes reconheceram que «Slobodan Milosevic mantinha reservas sobre como uma Assembleia Bósnia Sérvia podia excluir os muçulmanos que ali viviam.

Os juízes concluíram que nos encontros com oficiais Sérvios e Bósnios Slobodan Milosevic garantiu que todos os membros de outras nações e etnicidades tinham ser protegidos e que o interesse nacional dos Sérvios não é a discriminação.

O tribunal registou que em «encontros privados», Milosevic estava furioso com a liderança Bósnia Sérvia por rejeitar o plano Vance-Owen e insultou Karadzic Tentou discutir com os Sérvios Bósnios declarando que entendia as suas preocupações, mas que era mais importante acabar com a guerra.
O tribunal declara que «Milosevic também perguntava se o mundo aceitaria que os Bósnios Sérvios que representavam apenas um terço da população conseguissem mais de 50% do território e encorajava um acordo político.

Numa reunião do Conselho de Defesa, «Milosevic declarou à liderança bósnia que não estavam autorizados a ter mais de metade do território., porque, representamos um terço da população. […] Não temos direito a mais de metade do território — não se pode roubar algo que pertence a outrem! […] Como se pode imaginar dois terços da população a ficar apinhada em 30% do território, enquanto 50% é pouco para vós? Isto é humano, é lógico.

Noutras reuniões com oficiais sérvio bósnios, Milosevic «declarou que a guerra tem de acabar e o maior erro dos sérvios bósnios foi querer uma derrota total dos muçulmanos bósnios». Por causa da brecha entre Milosevic e os Bósnios Sérvios, os juízes afirmam que o Republica da antiga Jugoslávia encorajou os Bósnios Sérvios a aceitar propostas de paz.

A cisão final do Tribunal de que Slobodan Milosevic tem um significado tremendo porque o culparam de todo o derramamento de sangue na Bósnia, e foram impostas sanções terríveis à Sérvia. As acusações falsas a Milosevic são como a invasão do Iraque para se descobrir, que afinal não havia armas de destruição maciça.

Slobodan Milosevic foi vilipendiado por toda a imprensa europeia ocidental e virtualmente por todos os políticos de todos os países da NATO. Chamaram-lhe o «carniceiro dos Balcãs». Compraram-no a Hitler e acusaram-no de genocídio. Demonizaram no como um monstro sedento de sangue e usaram essa imagem falsa para justificar não só as graves sanções económicas contra a Servia, mas também em 1999 o bombardeamento da Sérvia e do Kosovo pela NATO.

Slobodan Milosevic teve de passar os seus últimos cinco anos na prisão a defender-se a si e à Sérvia de falsas alegações de crimes sobre uma guerra que agora declaram que ele tentava parar. As acusações mais serias contra Milosevic incluíam a culpa de genocídio, todas em relação à Bósnia. Agora, dez anos após a sua morte, admitem que afinal não era culpado.

O juiz presidente do julgamento de Radovan Karadzic, O-Gon Kwon da Coreia do Sul, foi também um dos juízes de Slobodan Milosevic. A exoneração de Milosevic do julgamento de Karadzic pode ser uma indicação de como o julgamento de Milosevic teria funcionado, pelo menos nas acusações da Bósnia, se Milosevic estivesse vivo para conhecer a conclusão do seu próprio julgamento.

Vale a pena lembrar que Slobodan Milosevic morreu em condições muito suspeitas. Teve um ataque de coração logo duas semanas depois de o Tribunal negar o seu pedido de fazer uma operação ao coração na Rússia. Foi encontrado morto na sua cela menos de 72 horas após o seu advogado ter entregado uma carta ao Ministro dos Negócios Estrangeiros Russo em que ele afirmava recear ser envenenado. [18]

O relatório oficial do Tribunal sobre o inquérito à morte confirmou isso. «Foi encontrado Rifamicin numa amostra de sangue retirado de Milosevic a 12 de Janeiro de 2006. O sr. Milosevic não foi informado dos resultados até 3 de Março de 2006 por causa da difícil posição legal em que se encontrava o Dr. Falke (o medico chefe do Tribunal) em virtude das disposições legais holandesas no que respeitava à confidencialidade médica].

A presença de Rifamicin (um remédio não receitado) no sangue de Milosevic anularia o medicamento para tensão alta que ele tomava e aumentava o risco do ataque de coração que acabou por matá-lo. A admissão por parte do Tribunal de que eles sabiam do Rifamicin há meses, mas não informou Milosevic dos resultados da sua análise de sangue até alguns dias antes da sua morte devido «as previsões legais holandesas sobre a confidencialidade médica» é uma desculpa esfarrapada e imoral. Não há previsão na lei holandesa que proíba o médico de dizer ao paciente os resultados da sua análise de sangue — isso seria absurdo. Pelo contrário, ocultar uma informação dessas ao paciente seria considerado má pratica.

Isto aumenta as suspeitas fundadas de que poderosos interesses geopolíticos preferiam que Milosevic morresse antes do fim do julgamento do que verem-no declarado inocente e enfrentarem as suas mentiras descaradas. Os telegramas do Departamento dos Estados Unidos divulgados pela Wikileaks confirmam que o Tribunal discutiu a condição médica de Milosevic e os laudos médicos com o pessoal da embaixada dos Estados Unidos em Haia sem consentimento. Claramente não se importaram com a confidencialidade médica quando comentavam os seus relatórios médicos com a embaixada americana.

Não é grande satisfação saber que Milosevic já foi bem vingado pelos crimes mais sérios de que o acusavam dez anos depois da sua morte. No mínimo deveriam pagar uma indemnização à sua viúva e filhos, e deviam ser pagas indemnizações à Sérvia pelos governos ocidentais que procuraram punir a Sérvia pelos crimes de que acusaram Milosevic agora declarado inocente por esse mesmo tribunal por crimes de que não foi responsável e que tentou evitar.

Este artigo apareceu originalmente em www.slobodan-milosevic.org