Nápoles
Poder popular e anti-máfia social
Os napolitanos estão a viver uma experiência de controlo popular sobre os órgãos de administração local da sua cidade. Do trabalho destas Brigadas de Controlo Popular já resultou a eleição, em 19 de junho passado, de Luigi De Magistris.
«A ideia nasceu de uma dupla necessidade. A primeira, e talvez a mais óbvia para quem vê de fora, foi a necessidade de controlar o processo eleitoral para evitar e denunciar fraudes. Especialmente no sul de Itália, e sobretudo para a eleição das administrações locais, há mecanismos sujos, compra-e-venda de votos, clientelismo… A nossa função foi a de impedir tudo isso e, parcialmente, conseguimo-lo. A segunda ideia foi construir um papel de protagonista para o povo. O processo eleitoral é o que, entre todas as atividades polÍticas, mais fomenta a delegação do poder. Isto é, de quatro em quatro anos, preenches um papelote e tudo acaba aÍ. Nós pensamos de forma diferente. Pensamos que o povo tem de ser protagonista da polÍtica».
Além de ser uma das cidades mais fascinantes do mundo, Nápoles é a capital simbólica do sul de Itália. Na última década, no imaginário popular, esta cidade identificou-se como um lugar onde mora a violência e a criminalidade, centro de poder da Camorra, a organização mafiosa que opera nesta região de região de Itália. Publicado em 2006 e traduzido em todo o mundo, o livro Gomorra, do conhecido escritor italiano Roberto Saviano, mostra como o sistema económico da Camorra se baseia no controlo da cidade napolitana com o fim de gerir os fluxos de mercadorias que chegam das diferentes partes do globo Í Europa.
Nápoles tornou-se sinónimo de perigosidade pela rede de atividades criminosas e mafiosas que se desenvolvem nas suas ruas históricas, nas suas encantadoras praças e na atmosfera mágica que envolve os seus bairros. No entanto, esta visão parcial da complexa sociedade esconde uma extraordinária vivacidade cultural e social que carateriza a cidade. Uma vivacidade que nos últimos tempos está a transformar-se num sólido projeto polÍtico baseado na participação popular e na democracia participativa.
Nas eleições do passado dia 19 de junho, diferentes movimentos populares da cidade apoiaram a candidatura do alcaide Luigi De Magistris, que ganhou folgadamente as eleições, confirmando a sua liderança Í frente da cidade por mais cinco anos da nova legislatura. Uns dias antes da votação, Ada Colau [1], a «alcaide da mudança», apoiou publicamente Luigi De Magistris, e indicou Nápoles como uma cidade fundamental para construir um outro Mediterrâneo possÍvel.
Luigi De Magistris consolidou-se num processo progressista e transformador que aposta fortemente na democracia participativa como antÍdoto Í criminalidade difusa, e Í injustiça do modelo capitalista neoliberal. Um exemplo deste ressurgimento que sacode a cidade foram as Brigadas de Controlo Popular: comités de vigilância do funcionamento democrático das duas voltas eleitorais, impedindo com isso um fenómeno tão difuso como determinante em Nápoles: a compra-e-venda de votos. Esta estratégia de de controlo popular demonstrou mediaticamente como esta infame ação é manipulada pelos partidos conservadores, com o apoio do crime organizado. Uma iniciativa «anti máfia social», então, promovida por jovens, mulheres, estudantes, trabalhadores e desempregados que militam no centro autogestionário Eu estou Louco [Je so Pazzo]: um velho manicómio ocupado que se converteu na «Casa do povo» ao serviço do bairro e de todos os setores populares. Um dos protagonistas deste espaço, Giuliano (30 anos), explica-nos o que se está a passar nesta rebelde cidade do Mediterrâneo e o porquê do seu significado para todos os movimentos de esquerda.
Davide Angelilli (DA): O controlo popular foi historicamente uma reivindicação do movimento operário para redistribuição das relações de poder, por exemplo, na produção económica. Como nasceu a ideia de fazer um controlo popular sobre as votações de Câmara tão importante como Nápoles?
Giuliano (GIU): A ideia nasceu de uma dupla necessidade. A primeira, e talvez a mais óbvia para quem vê de fora, foi a necessidade de controlar o processo eleitoral para evitar e denunciar fraudes. Especialmente no sul de Itália, e sobretudo para a eleição das administrações locais, há mecanismos sujos, compra-e-venda de votos, clientelismo… A nossa função foi a de impedir tudo isso e, parcialmente, conseguimo-lo. A segunda ideia foi construir um papel de protagonista para o povo. O processo eleitoral é o que, entre todas as atividades polÍticas, mais fomenta a delegação do poder. Isto é, de quatro em quatro anos, preenches um papelote e tudo acaba aÍ. Nós pensamos de forma diferente. Pensamos que o povo tem de ser protagonista da polÍtica.
Então, quisemos comunicar com o povo que, juntos, podemos exercer controlo sobre os poderes legais e ilegais que parecem existir desde sempre na nossa cidade. E a larga participação na iniciativa de controlo popular demonstra-nos que há uma ampla vontade de acabar com todos estes mecanismos. Mas o controlo popular foi também uma promessa. É como se tivéssemos dito a todos os candidatos: hoje estamos aqui e amanhã continuamos a controlar o teu trabalho de representante dos interesses populares. Controlo popular não termina com as eleições, o controlo popular deve ser ativado nos postos de trabalho, nos territórios, nos hospitais…
(DA): Uma forma de lutar contra o poder mafioso através da luta social e da organização popular…
(GIU) : É preciso precisar que a nossa iniciativa não foi pela legalidade do Estado contra a ilegalidade da camorra. A camorra e o Estado não são dois atores antagónicos; pelo contrário, atuam no mesmo sentido. Há condições sociais que permitem Í «camorra» enraizada em muitos bairros. Se não há libertação através da educação, como podemos pensar que cada um possa aceitar passivamente estar nos últimos lugares da sociedade para todo o sempre? A camorra funciona também como «estado social, oferece trabalho, dinheiro, proteção… Mas não é um «anti Estado», nem outro Estado. É um capitalismo com rosto criminoso. Muitas vezes os homens da camorra são os encarregados de assegurar que os trabalhadores não lutem pelos seus direitos. Se alguém decide protestar tem que se confrontar não somente com o patrão, mas também com a possÍvel violência da camorra.
(DA): O lema da vossa luta polÍtica e social é Poder ao povo? O que é que querem realmente dizer com esta ideia do poder popular?
(GIU): Poder popular significa que o povo decide. Não vemos o povo como uma criança que necessita ser controlado por um pai autoritário. O povo conhece os seus problemas, as suas debilidades, as suas potencialidades. Ao mesmo tempo, entre as pessoas há um mar de desconfiança, resignação, ressentimento. Não fazemos nenhuma idealização do «povo». Não é perfeito, mas também não é um rebanho de ovelhas. O nosso trabalho como sujeito polÍtico deverá ser o de dar espaço e organização Í s exigências que vêm desde baixo, articulando-as junto do povo. Por outro lado, criar poder popular significa também construir organismos que permitam a máxima democracia possÍvel e a efetividade de decisões. É uma dialética difÍcil, um equilÍbrio que sempre vai mudando. Não há fórmulas, quando muito referências úteis. Por exemplo, o que se está a passar na Venezuela desde 1999 pode ser uma inspiração. Mas a nossa tarefa é uma criação original, «nem decalque, nem cópia» de nenhuma experiência ocorrida em qualquer outra latitude.
(DA): «Je so Pazzo», tÍtulo de uma conhecida canção italiana quer dizer «eu estou louco». Por que deram este nome ao vosso projeto?
(GIU): «Eu estou Louco é o nome de uma canção enraizada na tradição napolitana. O seu autor, Pino Daniele, também está no coração da cidade. O nosso projeto tem a ambição de estar inscrito na história desta cidade e nas suas tradições. Elegemos esta sua canção porque o sÍtio que ocupámos em março de 2015 foi um hospital psiquiátrico penitenciário, ondeforam encarcerados centenas de «loucos» e «loucas». Muitos deles eram anarquistas, comunistas, lutadores sociais, ou simplesmente pessoas que ousaram rebelar-se contra a autoridade. Aprendemos a conhecer muitas destas histórias, da sua dor e do seu sofrimento. Porque nós também estamos loucos. Porque ocupámos um sÍtio administrado pela polÍcia penitenciária, protagonista da violência e dos massacres nas prisões italianas. Porque iniciámos um processo de transformação dos espaços fÍsicos com o objetivo de construir liberdade onde antes havia prisão, alegria onde havia dor… com o objetivo de converter a recuperação de espaços abandonados num processo de transformação social, polÍtica e económica da cidade. Sim, é verdade, estamos loucos, somos sonhadores. Como dizia Lenine, é preciso sonhar, mas com a condição de acreditar nos nossos sonhos, de estudar com atenção a vida real, de confrontar a nossa atenta observação com os nossos sonhos. E trabalhar escrupulosamente até fazer destes sonhos uma realidade concreta.
Nota do tradutor:
[1] Ada Colau, 46 anos, é ativista social e polÍtica catalã e foi eleita alcaide de Barcelona nas eleições de 2015.
* Analista de polÍtica internacional
Este texto foi publicado em: http://www.rebelion.org/noticia.php?id=214464
Tradução de José Paulo Gascão
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