A vocação da bruteza

Correia da Fonseca    23.Ene.12    Colaboradores

Durante duas semanas a televisão portuguesa andou cheia da Maçonaria como tema de notícias, debates, reportagens. O que permitiu à direita política reencontrar-se com a sua antiga vocação persecutória e de caminho fornecer às gentes ingénuas e crédulas um assunto capaz de as distrair pelo menos um pouco das violências diariamente cometidas pelo governo contra os direitos do povo. Mas outro momento marcante foi a drª Ferreira Leite dar uma indicação sobre o prazo de validade dos cidadãos sem dinheiro: 70 anos.

1. Não sei, naturalmente, se quando estas duas colunas puderem ser lidas ainda a televisão portuguesa estará cheia da Maçonaria como tema de notícias, debates, reportagens. Sei, isso sim, que pelo menos durante duas semanas foi isso que aconteceu, e julgo entender que essa espécie de limitado tsunami se deveu, no todo ou em parte, à circunstância de o tema permitir aos diferentes graus da direita política, de uma só vez, reencontrar-se com a sua antiga vocação persecutória e fornecer às gentes ingénuas e crédulas, que são as que alimentam os seus supostos saberes com a dieta tóxica dos grandes media, um assunto capaz de as distrair pelo menos um pouco das violências diariamente cometidas pelo governo contra os direitos do povo. Quanto ao primeiro ponto, peço licença para esclarecer que não tenho especial apreço pela Maçonaria e que o uso de avental, mesmo que apenas em certos momentos, nunca me apeteceu. Mas sei, como qualquer um pode saber, que a Maçonaria é um alvo tradicional dos maus humores, quando não das violências, das direitas mais clássicas, e que o facto de os maçónicos se reclamarem, com inteira sinceridade e coerência ou não, dos valores emblemáticos da Revolução Francesa, já por si só explicaria essa aversão. No plano da experiência mais pessoal, bem me lembro de que nos felizes e devotos tempos do doutor Salazar era injectado na opinião pública o horror da Maçonaria e dos maçons, embora evidentemente não tanto quanto relativamente aos comunistas. Agora, dir-se-ia que alguma nostalgia por esse santo combate cívico e ideológico poderá estar na raiz de tanta conversa ácida sobre a Maçonaria, as suas práticas e as suas eventuais maldades, centrando-se a conversa sobre o comportamento de um sujeito que se transferiu dos serviços secretos portugueses para uma empresa de designação não exageradamente lusitana, a Ongoing. O cavalheiro que se transferiu é habitualmente referido como «espião», palavra de óbvia conotação negativa, o que será curioso. Quanto à Ongoing, não parece que a televisão e outros media estejam empenhados em informar-nos que espécie de empresa é, de onde vai, para onde vai, o que quer ou não quer de nós. Talvez um dia destes o saibamos.

2.Entretanto, porém, um outro acontecimento televisivo, breve no tempo mas cheio de significado, marcou a passada semana: num dos arroubos de sinceridade que já se constituíram em sua imagem de marca, a dra. Manuela Ferreira Leite preconizou que os cidadãos com mais de setenta anos de idade que se dão ao luxo de fazer hemodiálise paguem o tratamento. Como se compreende, o requinte da coisa, o seu verdadeiro toque de humanidade, é o limite etário acima do qual o Estado deve deixar de apoiar a sobrevivência do doente, decerto porque quem já viveu setenta anos está em boa altura de morrer sem que lhe assista o direito de fazer reclamações. Infelizmente, a sólida estrutura ética e religiosa da senhora doutora impede-a de complementar o seu parecer com a proposta de instalação de um serviço (de utilidade pública mas de posse privada, naturalmente) para eliminação física dos velhos maiores de setenta anos. Acrescente-se: a preços convidativos e com direito a comparticipação do Estado, que com essa iniciativa faria boas economias em matéria de pensões de reforma. De qualquer modo, mesmo sem esta sequência que aliás lhe seria natural e lógica, a sugestão da doutora Manuela que, recorde-se, não é uma qualquer Manuela, ilumina em todo o seu esplendor o âmago do pensamento da direita política quanto a solidariedade social e é consonante com a vocação da bruteza que a caracteriza mesmo quando não se passeia fardada e com braçadeira a condizer. Em rigor, para que os portugueses se apercebessem claramente daquilo com que podem contar não era indispensável mais esta espontânea contribuição desta relevante figura do PSD. Mas é sempre bom que as verdades fundamentais se confirmem e, felizmente, em matéria de capacidade para esclarecer as gentes a doutora Manuela dá sinais de ser uma fonte inesgotável e singularmente expressiva. Pelo que, já se vê, é credora da admiração e do reconhecimento de todos nós.

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