As mentiras do Financial Times

James Petras    16.Oct.18    Colaboradores

É cada vez mais claro o papel e a participação dos grandes media nas ofensivas do imperialismo. Associam à anterior função de veículos e sistematizadores no plano ideológico um novo papel de propaganda e de distorção informativa. O caso do Financial Times é mais complexo: trata-se também de ocultar as desastrosas consequências económicas e financeiras de tais ofensivas, aspecto tanto mais significativo quanto elas têm igualmente repercussão nos países agressores.

Introdução

As publicações financeiras têm enganado os seus assinantes políticos e investidores acerca das crises emergentes e das derrotas militares que precipitaram catastróficas perdas políticas e económicas.

O exemplo mais marcante é o Financial Times (FT), uma publicação que é amplamente lida pela elite política e financeira.

Desenvolveremos este ensaio descrevendo o contexto político político mais alargado que define o enquadramento da transformação do FT, de um fornecedor relativamente objectivo de notícias do mundo a um propagandista de guerras e de políticas económicas falhadas.

Na segunda parte do ensaio discutiremos numerosos casos de estudo que ilustram as dramáticas mudanças de orientação que transformaram uma prudente publicação sobre negócios numa raivosa advogada do militarismo, um analista bem informado de políticas económicas num ideólogo dos piores investidores especulativos.

A decadência da qualidade da sua reportagem é acompanhada por um abastardamento da linguagem. São distorcidos conceitos; os significados são esvaziados do seu sentido cognitivo; crimes e malfeitorias são cobertos com vitríolo.

Concluiremos discutindo como e porquê os media “respeitáveis” afectaram no mundo real os cidadãos e os investidores, em resultado das consequências políticas e nos mercados das posições que defenderam.

Contexto político e económico

A decadência do FT não pode ser separada das transformações políticas e económicas globais no interior das quais é publicado e circula. O FT celebrou a queda da União Soviética, a pilhagem da economia russa no decurso dos anos 90 e a proclamação por parte dos EUA de um mundo unipolar como grandes histórias de sucesso dos “valores ocidentais.” A anexação pelos EUA e a UE da Europa Oriental, dos Balcãs e os Estados Bálticos conduziu a uma profunda corrupção e decadência das narrativas jornalísticas.

O FT abraçou com entusiasmo todas as violações dos acordos Gorbatchev-Reagan e a marcha da NATO até às fronteiras da Rússia. A militarização da política externa dos EUA foi acompanhada pela conversão do FT num intérprete militar daquilo que denominou “transição para a democratização.”

A linguagem de reportagem FT combinou retórica democrática com o perfilhar das práticas militares. Isto tornou-se o cunho de todo o editorialismo e de todo o noticiamento. As políticas militares do FT estenderam-se da Europa ao Médio Oriente, o Cáucaso, o Norte de África e os Estados do Golfo.

O FT juntou-se à imprensa amarela na descrição de tomadas do poder, incluindo o derribe de adversários políticos, como “transições para a democracia” e criação de “sociedades abertas.”

A unanimidade das publicações liberais e de direita no apoio ao imperialismo ocidental, impedindo qualquer compreensão dos enormes custos políticos e económicos que daí decorriam.

Para se proteger das suas mais flagrantes debilidades ideológicas, o FT foi incluindo “cláusulas de segurança” de modo a encobrir desenvolvimentos autoritários catastróficos. Por exemplo, aconselharam os líderes políticos ocidentais a promoverem intervenções militares e, de caminho, com “transições democráticas.”

Quando se tornou evidente que as guerras EUA-NATO não conduziam a finais felizes mas, em vez disso, se convertiam em insurgências prolongadas, ou quando os clientes ocidentais se tornavam tiranos corruptos, o FT proclamava que não era isso que entendiam como uma “transição democrática” – e que isso não correspondia à sua versão de “mercados livres e eleitores livres.”

O Financial e Military Times (?)

A militarização do FT conduziu-o à adopção da definição militar da realidade política. Os custos humanos e em particular os custos económicos, os perdidos mercados, investimentos e recursos foram subordinados aos resultados militares das “guerras contra o terrorismo” e do “autoritarismo russo.”

Todas e cada uma das reportagens e editoriais do FT promovendo, ao longo das duas décadas passadas, as intervenções militares ocidentais resultaram em perdas económicas de grande escala e de longo prazo.

O FT apoiou a guerra dos EUA contra o Iraque que conduziu à liquidação de importantes negócios de milhares de milhões de dólares (petróleo por alimentos) assinados com o Presidente Saddam Hussein. A subsequente ocupação pelos EUA anulou um subsequente renascimento da indústria petroleira. O regime cliente empossado pelos EUA pilhou os programas de reconstrução de muitos milhares de milhões de dólares – lesando os EUA e os contribuintes norte-americanos e privando os iraquianos da satisfação de necessidades básicas.

Milícias insurgentes, incluindo o Daesh/ISIS ganharam o controlo de metade do território e impediram a entrada de qualquer novo investimento.
Os regimes clientelares que os EUA e o FT apoiaram organizaram eleições fraudulentas e saquearam o tesouro dos rendimentos do petróleo, suscitando a ira da população, privada de electricidade, água potável e outras necessidades básicas.

A guerra, ocupação e controlo do Iraque que o FT apoiou foi um desastre incomensurável. Resultados semelhantes tiveram as invasões do Afeganistão, Líbia, Síria e Iémen que o FT apoiou.

O FT, por exemplo, difundiu a história de que os Taliban proporcionavam refúgio a Bin Laden, que planeava o ataque terrorista nos EUA (9/11).

Na realidade, os líderes afegãos propuseram entregar o suspeito, caso os EUA apresentassem provas contra ele. Washington rejeitou a oferta, invadiu Kabul e o FT juntou-se ao coro dos apoiantes da “guerra contra o terrorismo” que conduziu a uma guerra infindável ao custo de um milhão de milhões.

A Líbia subscreveu um acordo de desarmamento e de fornecimento de petróleo no valor de muitos milhares de milhões de dólares em 2003. Em 2011 os EUA e os seus aliados ocidentais bombardearam a Líbia, assassinaram Kadhafi, destruíram totalmente a sociedade civil e provocaram o colapso dos acordos EUA/UE sobre petróleo. O FT apoiou a guerra mas lastimou o seu resultado. Seguiu um guião já conhecido: promover invasões militares e, pós facto, criticar os desastres económicos resultantes.

O FT encabeçou a ofensiva mediática em favor da guerra por interpostos agentes contra a Síria: encarniçando-se contra o governo legítimo e elogiando os terroristas mercenários, que designou como “rebeldes” e “militantes” – equívoca designação para operacionais financiados pelos EUA e pela UE.

Em resultado das guerras ocidentais na Líbia, Síria, Afeganistão e Iraque milhões de refugiados fugiram para a Europa em busca de refúgio. O FT descreveu o holocausto imperial como os “dilemas da Europa.” O FT lastimou o ascenso dos partidos anti-imigrantes mas nunca assumiu responsabilidade pelas guerras que forçaram a fuga de milhões em direcção ao Ocidente.

Os colunistas do FT divagam sobre “valores ocidentais” e criticam a “extrema-direita” mas renunciaram a denunciar o massacre quotidiano de palestinianos por parte de Israel. Em vez disso, os leitores são semanalmente brindados com artigos açucarados sobre as políticas de Israel onde o ascendente do poder sionista sobre a política externa dos EUA nunca é mencionado.

FT: Sanções, Conspirações e Crises: Rússia, China e Irão

O FT, tal como todas as outras folhas propagandísticas de prestígio, assumiu um papel de vanguarda nos conflitos dos EUA com Rússia, China e Irão.

Há anos que os escribas que o FT acolhe vêm descobrindo (ou inventando) “crises” na economia chinesa – sempre à beira de um apocalipse económico. Ao contrário do que FT vem dizendo, a China cresce a um ritmo quatro vezes superior ao dos EUA; ignorando as críticas, a China construiu - em vez das múltiplas guerras apoiadas pelos belicistas jornalísticos – um sistema global de infra-estruturas.

Quando a China inova o FT, o FT rosna que é roubo tecnológico, ignorando o declínio económicos dos EUA.

O FT gaba-se de escrever “sem medo e sem favores,” o que se traduz em servir voluntariamente os poderes imperiais.

Quando os EUA promovem sanções contra a China, o FT diz-nos que Washington está a corrigir as abusivas políticas estatistas da China. Como a China não impõe instalações militares no exterior para contrapor às oitocentas bases militares EUA em cinco continentes, o FT inventa aquilo a que chama “colonialismo da dívida,” aparentemente para descrever o financiamento por Pequim de projectos produtivos de infra-estrutura de grande escala.

A lógica perversa do FT estende-se à Rússia. Para dar cobertura ao golpe na Ucrânia financiado pelos EUA converteu um movimento separatista no Donbass a uma anexação de território por parte da Rússia. Da mesma forma, uma eleição livre na Crimeia é descrita como uma anexação pelo Kremlin.

O FT proporciona a linguagem aos decadentes impérios ocidentais. Uma Rússia independente, democrática, liberta da pilhagem e da ingerência eleitoral ocidental é rotulada de “autoritária;” políticas de bem-estar social que favorecem um decréscimo da desigualdade são denegridas como “populismo” – associado à extrema-direita. Sem quaisquer provas ou investigação independente, o FT fabrica planos de Putin para envenenamentos em Inglaterra e conspirações de Bashar Assad sobre o uso de gases venenosos na Síria.

Conclusão

O FT escolheu adoptar uma linha militarista que conduziu a uma longa série de guerras financeiramente desastrosas. O apoio do FT a sanções tem custado às empresas milhares de milhões de dólares, euros e libras. As sanções que tem apoiado romperam redes globais.

O FT tem adoptado posições ideológicas que ameaçam cadeias de fornecimentos entre o Ocidente, a China, Irão e Rússia. O FT é redigido em muitas línguas mas omitiu aos seus leitores financeiros a informação de que carrega alguma responsabilidade relativamente a mercados que estão sob assédio.

É inquestionável que existe a necessidade de recompor o nome e o objectivo do FT. Um jornalista que era próximo dos editores sugere que ele deveria chamar-se “Military Times” – a voz de um império em declínio.

Artigo original em: https://petras.lahaine.org/the-lies-of-our-financial-times/.

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