O desregulador argentino (ou Teoria e prática da conspiração)

Guilherme Coelho*    14.Mar.09    Outros autores

Guilherme Coelho
“Que mais não fosse, bastava constatar a profusão de técnicos, homens de negócios e políticos das mais diversas cores, nas mais diversas paragens, falando a uma só voz, para se levantarem fortes suspeitas da existência de uma qualquer central de divulgação do pensamento único, ao serviço de uma elite mandante.”

Que mais não fosse, bastava constatar a profusão de técnicos, homens de negócios e políticos das mais diversas cores, nas mais variadas paragens, falando a uma só voz, para se levantarem fortes suspeitas da existência de uma qualquer central de divulgação do pensamento único, ao serviço de uma elite mandante.

Os práticos da conspiração imperialista pretendem desarmar os seus denunciadores apelidando-os, com sarcasmo, de teóricos da dita conspiração – o mesmo será dizer, uma espécie de maníacos da perseguição. Mas a multiplicidade de provas, por esse mundo fora, é mais que suficiente para confirmar a sua existência real e nada teórica. São conhecidas algumas das estruturas de incentivo, apoio, ou mesmo pagamento aberto a agentes e propagandistas espalhados por todo o globo. Que mais não fosse, bastava constatar a profusão de técnicos, homens de negócios e políticos das mais diversas cores, nas mais diversas paragens, falando a uma só voz, para se levantarem fortes suspeitas da existência de uma qualquer central de divulgação do pensamento único, ao serviço de uma elite mandante.

A actual crise do capitalismo teve no neoliberalismo o seu catalizador, que muito contribuiu para apressá-la. Iniciada na década de setenta, esta modalidade capitalista espalhou-se pelo mundo com uma celeridade no mínimo suspeita. O momento que estamos vivendo trouxe-me à memória um episódio ocorrido comigo há uma dúzia de anos, que me pareceu interessante partilhar, como contribuição para um melhor esclarecimento sobre a surpreendente multiplicidade de formas de que o capitalismo se serve para expandir a sua doutrina.

Decorria o verão de 1997 e eu encontrava-me em Madrid como técnico do Município de Lisboa, frequentando um curso de pós-graduação em urbanismo, no âmbito da União das Capitais Ibero-Americanas. Nesse mesmo âmbito decorriam outros cursos dedicados a diversas especialidades, frequentados por técnicos municipais e autarcas convidados de toda a América Latina.

As aulas decorriam durante todo o dia e eram suficientemente intensas para justificar fins de tarde de merecido repouso e descontracção aos alunos, antecedendo o jantar que, como é sabido, tem em Espanha um horário tardio. Encontrávamo-nos habitualmente numa cervejaria no Paseo de Recoletos, próximo do hotel onde todos se hospedavam. As temperaturas abrasadoras da capital espanhola convidavam às canhas, que temperávamos com fatias de queijo Manchego.

Num desses dias, um sujeito que eu via por ali pela primeira vez, pediu licença para se sentar na mesa onde eu estava com mais uns quatro ou cinco colegas. Apresentou-se como sendo argentino, frequentava um curso não especificado e era economista por formação. Por deformação seria mais alguma coisa, como vim a constatar posteriormente. Tratava-se de um daqueles indivíduos que rapidamente monopolizam as conversas, ocupando todo o tempo e deixando os restantes algo constrangidos, sem saber o que fazer. Mais para amenizar a situação do que por qualquer interesse especial, meti conversa. Ao fim de pouco tempo crescia entre mim e ele uma brava discussão sobre um tema do mais elevado nível político: a da superioridade do capitalismo face ao socialismo ou vice-versa. Eu defendendo o campo socialista e ele o capitalista.

Fácil foi constatar a todos, que a discussão não iria longe, dada a completa irredutibilidade dos dois intervenientes. De facto não durou muito, mas por minha iniciativa. Como faço sempre que o meu interlocutor se revela um cabeça dura sem qualquer esperança de mudança, baixei os braços e deixei–o falar sozinho. O tipo que tinha pela frente não se mostrava minimamente interessado na conversão aos ideais socialistas. Antes pelo contrário. Confessou mesmo que estava a fazer o percurso inverso.

“Eu também, nos meus tempos de estudante, fui assim como tu.” Confidenciou. “Mas abandonei essas utopias depois de perceber que esses tipos socialistas são todos uma cambada de frustrados e que à primeira oportunidade largam todos os ideais e só querem é enriquecer a qualquer custo.”

Como eu já não era propriamente um jovem estudante e tinha convicções consolidadas, decidi emudecer de vez. Mas não sem antes concluir, mais para a plateia do que para ele, que cada vez um maior número de pessoas acreditava que o modelo socialista era melhor e mais humano que o capitalista, ponto final. Julguei eu.

Erro. Em lugar de acabar com a discussão, o meu remoque teve o efeito inverso. O homem pareceu ganhar novo fôlego. Soltou uma gargalhada, olhou-me com um misto de superioridade e comiseração e varreu a plateia sorrindo, com os olhos semicerrados, como quem procura cumplicidade. Disposto a dar-me o golpe de misericórdia, sacou do seu trunfo máximo: o seu próprio exemplo. Para provar que o capitalismo era melhor e mais livre que o socialismo, bastava atentar na actividade que desempenhava actualmente.

“Passo agora mais tempo fora da Argentina, dando cursos, do que no meu país.” Informou. “Cursos de quê?”, perguntei, displicente. A sua explicação foi mais ou menos a seguinte: “Percorro os vários países latinos e mesmo outros, a explicar aos governos as vantagens da liberalização da economia, dando mais liberdade aos mercados, de forma a permitir que a riqueza se expanda livremente, beneficiando assim toda a sociedade”.

“E como é que isso se faz?” perguntei irónico.

“Simples,” respondeu sem pestanejar. “Afastando os obstáculos burocráticos praticados pelos aparelhos de Estado sobre a livre iniciativa. Permitindo à iniciativa privada fazer bem, o que os funcionários públicos, como tu, fazem mal. Reduzindo as regras e deixando o mercado auto-regular-se. Enfim, permitindo a verdadeira liberdade ao indivíduo.”
Não gostei do insulto pessoal e deixei definitivamente de o ouvir. Confesso que na altura tudo aquilo me pareceu uma idiotice de um qualquer oportunista recém convertido, como tantos que conhecera, embevecido pelo brilho de alguns dólares pagos para propagandear as virtudes do dito sistema. Por isso encarei-o com aquele ar compreensivo com que se enfrentam os maníacos perigosos e com um aceno de cabeça acabei por rematar a conversa: “Ok, pá, fica assim. Talvez tenhas razão. Talvez um dia possamos vir a confirmar essa receita.” Fiquei mais descansado. Sentia que o outro se desacreditava e perante os colegas eu havia recuperado algum prestígio.

Mas o tipo tinha sete fôlegos. Contrariamente do que eu pensara, não se considerou vencido. Levantou-se lentamente, com um sorriso triunfante, declarou que a despesa era por sua conta e tirou a carteira para pagar. Porém o gesto ficou suspenso. Inclinou-se um pouco sobre mim, encarou-me de frente por momentos como quem pondera qualquer coisa, e com o ar do vencedor magnânimo perante o pobre diabo perdedor, sacou um cartão de visita, mostrou-o solenemente a todos e encostou-mo ao peito com um sorriso. Só tive tempo de lhe deitar a mão evitando que caísse, pois ele largou-o de imediato para tirar umas notas da carteira. Lançou-as para cima da mesa com gesto ostensivo e despediu-se até ao jantar, abandonando a sala com passos de toreador em tarde de glória.

Com todos os olhos fixos em mim, mirei o cartão, li e reli o seu conteúdo e comecei a sorrir, perante a crescente curiosidade dos presentes. Nele, para além do nome do indivíduo e da respectiva profissão, economista, podia ler-se em sub-título: “Desregulador municipal. Cidade de Buenos Aires”.

Todos seriam unânimes em confessar que desconheciam por completo semelhante denominação. Legislador, organizador, coordenador, etc, ainda admitiam, agora desregulador, só podia ser por graça. Naturalmente o fulano estivera a gozar connosco.

Nunca mais o vi. Mas desde então até hoje o desenrolar da realidade mundial encarregou-se de desmentir categoricamente o diagnóstico dos colegas. Para mal de todos nós o tipo estava a falar a sério. Ele era mesmo um agente encartado do neoliberalismo triunfante. Um desregulador profissional.

Embora na época já se sentissem bastante os efeitos do terramoto neoliberal que decorria há vinte e tal anos, estávamos longe de o identificar como doutrina e muito menos de o relacionar com aquele episódio. Só agora, mais de uma década depois, eu haveria de perceber a verdadeira importância do indivíduo que tivera pela frente. Uma questão que sempre escapara à minha compreensão, fora ali respondida sem que eu me apercebesse. A quantidade de governantes, pouco mais que iletrados e a regerem-se pela mesma cartilha nos mais diferentes locais do mundo, era demasiado grande para não ser suspeita, e certamente eles não haviam nascido ensinados. Só muito mais tarde vim a entender tudo: á boa maneira dos restantes produtos do mercado, também aqui eles tinham os seus delegados. Os delegados de propaganda… política.

Teoria da conspiração? Qual teoria, qual nada. Prática, e das grandes…

* Arquitecto

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